quarta-feira, 6 de abril de 2022


Luís de Camões


"Um rei fraco
faz fraca a forte gente
"

Luís de Camões*)              
(Lusíadas, III 138)                       


Referia-se o Poeta a Dom Fernando I*), no tempo em que o poder executivo se encontrava nas mãos do monarca, e não nas do chefe do governo.

Naquele tempo, não existiam eleições; tampouco partidos políticos aos quais, na sequência de indesejáveis resultados daquelas, o rei tivesse de se coligar, ficando refém de cedências desmesuradas e fortemente lesivas do interesse nacional.

Naquele tempo, também havia, por toda a parte, escaramuças, guerras e invasões; mas, dominada pelo soberano, a população que aguentasse os impactos bélicos, políticos, sociais e económicos, já que outro remédio não tinha, e a vida  fácil não passava de uma ilusão.

Naquele tempo, existiam ainda mais pestes e pragas sanitárias; mas o incipiente estágio da medicina pouco ou nada permitia fazer para as controlar, pelo que, sob esse aspeto, pouco importava se o rei era forte ou fraco, competente ou não, já que impotente seria, certamente, para resolver problemas de tamanha dimensão.

Naquele tempo, não havia, liberdade, direitos humanos, e eram muito elementares a justiça, a educação e os outros pilares de uma democracia então inconcebível, e da qual, hoje, muita gente não tem a mais ínfima noção.

Hoje, sabe-se que todas estas novidades existem; e que, mesmo em detrimento da ordem pública e da paz social, muito tuga que por aí anda delas chorudos proventos procurará extrair, em lugar de pensar como poderá assegurar o respetivo gozo aos concidadãos.

Hoje, depois dos brutais impactos recentemente sofridos, há fundos europeus generosamente distribuídos em volume suficiente para, não apenas procurar minorar os efeitos daqueles, como para proporcionar oportunidades únicas de suster o nosso já proverbial trambolhão económico, seja absoluto, seja relativo face aos parceiros da União.

Hoje, mais do que nunca, tornou-se de suma importância, para o Estado, ter ao leme um primeiro-ministro que seja, não apenas popular, habilidoso e flexível, mas, pelo menos, um gestor convincente, recrutador eficaz, estratega competente, administrador incorruptível, educador culto e informado, legislador experiente.

Hoje, como naquele tempo, um governo chefiado por alguém ideologicamente débil, politicamente elástico, gestor inseguro, justiceiro complacente, comunicador fechado, planeador disperso, andarilho ausente, apenas faria ainda mais fraca a nossa cada vez mais fraca gente.

segunda-feira, 4 de abril de 2022


Zelensky: Começa a Cheirar Mal...

A responsabilidade por esta coisa da possível fabricação do massacre em Bucha, amplamente fundamentada por um oficial-general português*), poderá não ser inteiramente imputável à comunicação social. Certo, é que, a ser uma encenação, apenas vem reforçar as tresloucadas teses dos negacionistas da guerra, que as baseiam, precisamente, na possibilidade de tudo não passar de um produto da montagem visual e da desinformação.

De facto, só quem ande muito perturbado pela desventura que se abateu sobre a Ucrânia, mas, simultaneamente hipnotizado pelo efeito mediático habilmente criado pelo respetivo Presidente, deixará de estranhar o périplo que este empreendeu por tudo quanto é parlamento disposto a vê-lo e a escutá-lo, aplaudindo de pé, seja por comoção e entusiasmo, seja por preocupação com o politicamente correto, ou por razões que melhor será aqui nem expor.

Isto, enquanto a dita personagem se não coíbe de continuar a pedir à NATO o impossível: o impensável encerramento do espaço aéreo da Ucrânia, sentença de morte, não apenas para a respetiva população, como para a dos países que integram a Aliança, já que uma guerra de âmbito mundial facilmente deflagraria à primeira violação.

Esta insistência, que o espetáculo proporcionado pelos emotivos discursos proferidos vem reforçar, apenas serve para avolumar suspeitas que, aqui e ali, observadores dos mais diversos quadrantes já vêm expressando quanto à razão, à legitimidade e à própria origem da invasão pela Rússia.

A excessiva agitação das águas mediáticas - agora acompanhada, ao que parece, por uma despudorada encenação de um massacre em Bucha para europeu ver - está a descambar em algo que pode tornar-se pernicioso, não apenas para os interesses da Ucrânia, como para a estabilidade dos valores de quem a tem defendido e apoiado nas instâncias internacionais.

As gentes começam a indignar-se com a invasão, mais pela demolição sistemática nas cidades, do que pelas razões, decisões e atos que estiveram na sua génese. A emotiva verve do corajoso, mas porventura irresponsável, estadista faz-nos esquecer a dúvida sistemática que deve imperar na análise objetiva das situações. Os profusamente divulgados efeitos brutais da assim chamada guerra começam a contar mais do que a maldade subjacente aos desígnios do agressor.

Começa a cheirar mal...

* *

A hipocrisia e a mentira - ou, digamos, a criatividade na verdade - são típicas da política atual, muito especialmente em tempos de guerra.

(continua aqui)