Mostrar mensagens com a etiqueta Comunicação Social. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Comunicação Social. Mostrar todas as mensagens

sábado, 3 de janeiro de 2026


Debates, para quê?


Eleger André Ventura seria decapitar o Chega, forçando a extrema-direita à travessia do deserto,
a um recuo de, pelo menos, uma década na sua evolução

O verdadeiro patriotismo dos restantes candidatos consistiria em desistir a favor de Ventura, explicando muito bem porquê;
e o meu patriotismo consistiria em votar em Ventura.
Simplesmente, não consigo assim fazer


1.       Da Franciscana Pobreza
2.       Dos Títulos Escondidos
3.       Da Conversa Vazia
4.       Em quem Votar, afinal?


Da Franciscana Pobreza

Assisti, tão atento quanto aguentei, a todo aquele desfile de conversas sensaboronas chamadas debates preparatórios das eleições para o cargo de Presidente da República.

Fiquei exatamente na mesma no que respeita à decisão sobre em quem votar, como presumo que terá acontecido com a maior parte de quantos se sujeitaram a igual provação,

Em grande parte, por ter a maior parte das insípidas conversas evoluído ao sabor do maior ou menor narcisismo de moderadores com o sestro de interromper constantemente os debatentes, assim aniquilando a possibilidade de virmos a daquilo entender ou a aproveitar alguma coisa.

Moderar parece ser, para alguns mais emproados ou suscetíveis, levar para ali um rol de perguntas a formular, ficando-se seriamente melindrado quando os atores principais ocupam o palco, encarniçando-se a esgrimir as suas diferenças, e se afastam do tão ciosamente preparado guião.

As questões feitas – valha-nos Deus, que agora fala-se assim! – visam, aliás assumidamente, saber o que candidato pensa relativamente a este ou aquele assunto. Mas, não será esse o papel dos tempos de antena e das entrevistas? É que resulta, de facto, bem mais esclarecedor ouvir o que cada um tem a dizer num ambiente descontraído, sem necessidade de estar para ali preocupado em defender-se e esquivar-se de ataques, seja de pessoas educadas e bem intencionadas, seja de alarves arruaceiros e oportunistas que mais não almejam do que aproveitar o tempo para procurara obter, nas eleições vindouras, uma melhor faturação.

Transformados em meras sucessões de insípidas respostas às perguntas da lista do TDC1) do moderador, os pretendidos debates nada mais inspiram, afinal, do que um potente bocejo e a vontade de votar em branco… e de mudar de canal.

Admito: para ajudar a passar o tempo, dediquei-me menos a ouvir o discurso sensaborão dos candidatos, do que a tentar adivinhar as notas que, a cada um, atribuiriam os inevitáveis comentadores; notas essas que, diga-se, também para nada servem, nada dizem, na medida que são atribuídas por pessoas supostamente instruídas, informadas, em nada espelhando a opinião e o sentimento da brutalmente elementar generalidade dos eleitores.

Tiveram, enfim, estas vinte e oito tristes meias horas de inconsequente parlapié o efeito de evidenciar a qualidade profissional da moderadora da SIC, em absoluto contraponto com o moderador da TVI, e deixando algures ali para o meio os da RTP.


Dos Títulos Escondidos

Uma muito pouco subtil subtileza omnipresente nos debates tem sido a omissão dos títulos profissionais ou académicos dos candidatos; e é bom de ver porquê: doutores e engenheiros há muitos, ou “chapéus há muitos” - como o Senhor Santana dizia num vetusto filme português -, e a verdade é que, desta vez, quase todos os que debateram tinham colado ao nome um título académico.

A exceção era o título profissional do candidato militar, e quanto a almirantes, a coisa é mais séria: chamar Senhor Almirante a um candidato quando os outros apenas merecem, quando muito, um já banal Senhor Engenheiro ou Senhor Doutor, seria, nas mentes dos sagazes e popularuchos assessores de imagem, posicioná-lo, logo à partida, em lugar privilegiado; e, isso, não pode ser, pois então!

Vai daí, com a exceção de Marques Mendes no último debate, apenas Gouveia e Melo tratava os oponentes por Senhor seguido do título académico - como, aliás, me pareceria próprio na formalidade do debate, quer as pessoas se conhecessem mutuamente, quer não.

Já que falamos destas coisas protocolares: uma gravatinha, mesmo baratucha, em candidatos à Presidência da República não faria, certamente, grande mal. Ou será que a indumentária de empregado  num café familiar em que, aparentemente, se sente mais à vontade o Senhor Engenheiro, seria a escolhida para o acompanhar – Deus não permita! - no futuro desempenho da função?

"Originalidades", dirão...

Da Conversa Vazia

Fica-nos uma questão fundamental: além da venda de publicidade pelos canais televisivos - que, com alegado e mui propalado sacrifício económico, lá se entenderam para a ocasião -, qual a utilidade de promover debates destes, e em tão grande quantidade, antecedendo a eleição do Presidente da República?

Como, largas dezenas de vezes, a todos ouvimos ao longo destas quase trinta meias horas, não se trata de eleições legislativas, nas quais se tornaria absolutamente essencial conhecer o posicionamento político dos diversos atores.

Para a Presidência da República, basta-nos conhecer, muito ao de leve, a orientação tendencial da bússola política de cada um, ou do respetivo catavento, coisa que sabemos, de antemão, através da mais ou menos constante presença nas televisões dos principais de entre eles; e as candidaturas dos outros interessam, evidentemente, para coisa nenhuma, além do agitar da bandeira clubística das ideologias pretensamente originais com que nos acenam, porventura bem intencionadas, mas sem credibilidade ou viabilidade reconhecíveis, ainda que levemente.

Que importa saber como gostaria o candidato de remodelar a justiça ou o SNS, que ideias tem para resolver a crise da habitação, ou do pântano chamado educação, que não passa de um ensino desgovernado por parte de indivíduos maioritariamente com muito pouca autoridade, porque, também eles, tiveram ensino, mas muito pouca educação?

Que sentido fará dizer-se que isto são competências dos órgãos legislativos – um dos quais o Presidente da República, constitucionalmente, não é -, para de seguida bombardear os candidatos com interrogações para as quais qualquer resposta seria inútil perante a especificidade da função? Não admira, assim, que nos tenham aparecido, a debater, políticos que mais pareciam apóstatas, de tão independentes que se diziam dos respetivos partidos!

Importa é saber se se trata de um candidato com ânsias de protagonismo, que gosta de ficar na fotografia, ou de um indivíduo  moderado, ponderado, discreto, ativo e firme, mas com sentido de Estado.

Importa saber se ele se perde na procura, a todo o custo, de consensos impossíveis ou que não tem a mais pequena vocação para procurar, ou se, pelo contrário, se mostra capaz de, constatada tal impossibilidade, intervir ativamente e de forma ponderada no interesse de quantos com ele contam como garante último da liberdade.

Importa saber se a sua magistratura de influência se resumirá à intriga política e à ameaça do veto, ou se fará valer uma autoridade pessoal genuína, que emane, não apenas do conhecimento, mas, sobretudo, da educação e da formação. Se é um indivíduo empenhado e corajoso, ou se assistiremos a uma presidencial criptobiose que ainda agrave mais os inevitáveis e muito próximos desafios.

Importa, enfim,  conhecer a personalidade e a dimensão axiológica do candidato; mas isto não vai lá com debates e picardias.

O resto do que se pergunta e responde é mero folclore, guerrilha política a preparar futuras eleições, e mais receita em publicidade para as sacrificadas e patrióticas televisões.

Tratando-se, como se trata, de candidatos de terceiríssima ordem, como nunca tão fracos em eleições anteriores terá havido, foram ao ponto de se apresentar mediante uma espécie de casuística exemplificativa, alcandorada nos méritos de pregressos e mais ou menos colendos ocupantes do sólio de Belém.

Resultado: na falta de verdadeiro assunto, em cada debate, os mesmos candidatos acabavam, inevitavelmente, a repetir ad nauseam a mesma coisa; e, a serem constantes os critérios das sondagens, o efeito ersclarecerdor dos debates sobre as intenções de voto nos quatro principais candidatos tecnicamente empatados  foi… nulo.

Excetua-se Cotrim de Figueiredo, que alguma coisa terá ganho. Mas, convenhamos que tanto tempo, tanta paciência e tanta despesa para alterar uns míseros quatro ou cinco por cento nas sondagens relativas a um candidato, parece muita parra e pouca coisa uva. Haja pachorra!

De tudo aquilo, ficou-nos, embora na avelhentada retórica comunista, o humor elegante de António Filipe, a lógica inabalável e, digamos, muito própria de Jorge Pinto, o inegável talento de Catarina, o nervosismo de Cotrim, a comovente melancolia de Seguro, o ora anfibológico e caviloso, ora percuciente profissionalismo de Marques Mendes, o confrangedor, mas pertinaz, titubear de Gouveia e Melo… e muito, muito tempo deitado pela janela fora.

 

Em quem Votar, afinal?

Paradoxalmente, por incrível que, assim de repente, possa parecer, o voto útil na defesa dos valores democráticos seria o voto no Doutor Ventura. Porquê? Porque lhe estaríamos a assegurar a vitória na primeira votação, já se sabendo que, chegado à segunda volta, os anticorpos lhe negarão qualquer possibilidade de eleição.

Eleger André Ventura seria decapitar o Chega, forçando a extrema direita à travessia do deserto, a um recuo de, pelo menos, uma década na sua evolução, dando, nesse emmeio, mais uma oportunidade à democracia para encontrar um novo rumo, um novo fôlego, uma nova vocação.

Onde, de facto, seria possível encontrar, como sucessor, algúem tão eficaz como Ventura, com toda a sua anchura de autêntico bonecreiro dos lastimáveis satélites, parlamentares e não só, tão igualmente desprovido de, praticamente, tudo aquilo que convém à condução dos destinos da população?

A verdade, é que nem  o próprio Ventura, nem o Chega alguma vez quiseram vê-lo como Presidente da República, e a razão é bem simples: o Chega precisa do "André", e dirigir um partido político não é, seguramente, o papel do mais alto magistrado da Nação.

Já se sabe que sempre o pobre André Ventura de Mem Martins seria um primeiro-ministro fantoche nas mãos da cabalística retaguarda da extrema direita, do poderoso e abastado bentos por detrás do Chega: nas mãos de quem mexe e sempre mexerá os cordelinhos de toda aquela coisa, e, por interesse próprio, esteve na base da fundação do Partido.

Não obstante, enquanto primeiro-ministro, sempre deteria Ventura, ainda que formalmente, o poder executivo, o que lhe permitiria, pelo menos, tentar um dos seus proverbiais golpes de rins, acabando, quiçá, por virar o jogo a seu favor, deixando os atuais padrinhos na mão.

Por outro lado, o que poderia Ventura fazer por ele mesmo com os débeis poderes do Presidente da República Portuguesa? Nada, evidentemente. Seria, para o Chega, a morte lenta; para ele, a suprema e irremediável frustração.

A pensarmos assim, o verdadeiro patriotismo dos restantes candidatos consistiria em desistir a favor de Ventura, explicando muito bem porquê; e o meu patriotismo consistiria em votar em Ventura.

Simplesmente, não consigo assim fazer.

 

1) TDC - Trabalho de casa, feito em casa pelo aluno, na sequência do trabalho para casa, passado na escola pelo professor, o famigerado TPC.

 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022


O Princípio da Incerteza


"Não é a vida caracterizada, antes de mais, pela imensa incerteza, não apenas quanto ao futuro,
mas também quanto à realidade presente e à verdade dos relatos do passado?
Não vive a Humanidade angustiada, procurando os mais sensatos proteger-se dos impactos previsíveis ou apenas imaginários
com que a própria essência das coisas inevitavelmente povoa a aparentemente inesgotável sede espiritual das nossas preocupações? 
"

"Como podem a endémica incompetência, o desnorte das opções, o primado da corrupção e a dependência do compadrio
gerar certeza seja em quem for, a propósito seja do que for? Como pode considerar-se que a incerteza na gestão da coisa pública
é de agora, e não um virus omnipresente em todas as paragens e regimes ao longo dos tempos? 
"

"A ambiguidade é, no panorama linguístico, não o princípio ou o início da incerteza, mas a própria essência da mesma "

O Princípio da Incerteza
Terá a morfologia facial evoluído no sentido de permitir aos hipoteticamente superiores espíritos humanos comunicar entre si ou, inversamente, terão os ditos espíritos começado a comunicar verbalmente num aproveitamento da dita evolução?

Qualquer que seja a resposta, parece certo que a razão de ser e o objetivo da fala é a comunicação entre os humanos, tal como já sucedia com a expressão corporal e viria a acontecer com a  bem mais recentemente inventada escrita.

Sabemos também, à saciedade, que só quando prosseguida de forma rigorosa e contemplando a possível perfeição será qualquer atividade animal razoavelmente conseguida no seu propósito. A falta de caso, a preguiça, o facilitismo e vícios similares comprometem, seriamente, a eficácia e a eficiência da ação, a ponto de, em casos extremos, tornar contraproducente o resultado final.

Se, na infinidade de sinais a que poderia recorrer, a mera linguagem corporal era, inevitavelmente, pouco rigorosa, imprecisa, a linguagem verbal viria, decisivamente, complementá-la como uma forma eficaz de limitar a dispersa e caótica sinalética, assim tornando potencialmente muito mais precisa a correspondência entre a ideia e a mensagem que a veicula entre os espíritos.

Através da combinação, em palavras, de fonemas de correspondência sonora relativamente constante dentro de um mesmo idioma, apurou-se, pois, a transmissão e a captação da ideia contida na mensagem, drasticamente reduzindo a ambiguidade e a indefinição.

Na senda do mesmo objetivo, a evolução inteligente da utilização da palavra deveria, então, ser a da constante afinação e da cada vez mais rigorosa utilização do idioma: nunca a da sua deterioração, seja por via da desenfreada polissemia, seja pela do desprezo que cada vez mais vamos notando para com as mais elementares regras gramaticais.

Esta inversão de sentido, esta desvalorização da função elementar da linguagem verbal encontra-se, porém, de tal forma enraizada no tendencialmente permissivo espírito humano que qualquer norma é prontamente revogada à primeira violação pela pena de um escritor, como se, ao subverter, supostamente em benefício da manifestação artística, o edifício gramatical e a precisão vocabular, qualquer romance fosse, por natureza, um código, uma cartilha pela qual todos nós a língua portuguesa devêssemos estudar.

Bem pelo contrário, e como já aqui opinei, "um escritor dá às suas frases a forma que melhor lhe parece exprimir as ideias, sem observar estritamente as regras gramaticais. Mas essa liberdade poética apenas deve afetar o texto, nunca servindo de fundamento para a alteração das ditas regras, ou toda a estrutura do idioma irremediavelmente acabará por soçobrar".

Daqui decorre que, seja quem for que, por indiferença ou em nome da criatividade, sistematicamente utilize de forma inadequada o vocabulário e viole as regras da gramática jamais poderá ser confundível com um teórico da língua.

Apenas patenteia, em tal matéria, inaceitável ignorância larvar.

- x -

O princípio da incerteza, de Werner Heisenberg, sustenta que, observando uma determinada partícula de matéria, não é possível, com exatidão, determinar a posição e, simultaneamente, medir a velocidade daquela - algo que, cingindo-nos aos conhecimentos e aos métodos da física clássica, deveria ser possível fazer-se.

Segundo a física quântica, apresenta-se, assim, o dito princípio como mais uma forma de demonstrar que o Universo age mais misteriosamente do que aquilo que nos têm feito crer - embora a conclusão pela impossibilidade de apurar os valores com absoluta certeza se deva ao facto de serem utilizados, à falta de outros disponíveis, métodos invasivos para efetuar as medições.

Ora, instruídos que foram todos os atuais comentadores do programa da assim chamada CNN Portugal "O Princípio da Incerteza" na conjunto de áreas do conhecimento conhecida pela designação genérica de humanidades, será que foi o postulado de Heisenberg o inspirador do título adotado? Dificilmente, ou estaríamos perante uma provável demonstração de despudorada presunção, ou de  desmesurada cosmética mediática.

Será, então, que, no título do programa, princípio exprime a ideia de início, e não de lei geral da física, de parte da sua informação fundamental?

Mas, a assim ser, também aqui se manifesta insanável dúvida. Pois não é a vida caracterizada, antes de mais, pela imensa incerteza, não apenas quanto ao futuro, mas também quanto à realidade presente e à verdade dos relatos do passado? Não vive a Humanidade angustiada, procurando os mais sensatos proteger-se dos impactos previsíveis ou apenas imaginários com que a própria essência das coisas inevitavelmente povoa a aparentemente inesgotável sede espiritual das nossas preocupações?

Falar do início da incerteza seria, pois, refletir sobre as origens do Universo, ou seja, algo muito distante da linha editorial do programa televisivo de cujo título aqui se trata.

Considerada esta, poder-se-á, naturalmente, considerar a possibilidade de se tratar do início, não da incerteza absoluta, primária, mas, por exemplo, da incerteza ou insegurança na gestão política do Estado. Mas como podem a endémica incompetência, o desnorte das opções, o primado da corrupção e a dependência do compadrio gerar certeza seja em quem for, a propósito seja do que for? Como pode considerar-se que a incerteza na gestão da coisa pública é de agora, e não um virus omnipresente em todas as paragens e regimes ao longo dos tempos?

Até que alguém que saiba a esclareça, a dúvida subsistirá, assim, quanto ao sentido em que, na escolha do título, o termo princípio foi selecionado: lei fundamental, ou início de algo? Neste caso, início de quê?

- x -

Preferir, na circunstância, a utilização do termo início - ou começo - eliminaria qualquer dúvida quanto a ideia a transmitir: início exprime, sempre, o primeiro estágio, o lançamento. Isto, apesar de poder discutir-se a correção de atribuir-lhe, como alguns fazem, o significado de preliminar ou preambular, já que não parece seguro que pre não signifique que antecede o início da ação propriamente dita, a qual se destinaria a preparar ou enquadrar.

Em qualquer caso, o que importa reter é que a ambiguidade vocabular sempre será de evitar, sem prejuízo, naturalmente, da saudável criatividade, da originalidade que, desejavelmente, se procurará imprimir às manifestações do espírito, sob pena de, assim não sendo, tudo se resumir ao sensaborão, ao acinzentado de uma vida em que, praticamente, nos limitaríamos a respirar.

A ambiguidade é, no panorama linguístico, não o princípio ou o início da incerteza, mas a própria essência da mesma, a par com o facilitismo gramatical que, em boa parte por via da importação de vocábulos e estruturas próprias de variantes do idioma desenvolvidas noutras partes do Mundo, mina, não apenas a clareza da ideia, o rigor da mensagem, a destreza do raciocínio, mas, com elas, a qualidade da interação do ser humano com os seus pares.

A riqueza vocabular reside na diversidade da utilização de termos com significados semelhantes, próximos, sem deixar de respeitar a particularidade de cada um deles: não no empanturrar das palavras com significados, levando a que, um dia, qualquer coisa querer dizer uma coisa qualquer, e deixemos de conseguir captar a ideia precisa ou, sequer, uma aproximada da que pretende exprimir quem escreveu ou está a falar.

Generalizada muito para além da mais ampla razoabilidade e longe de corresponder ao enriquecimento da língua, antes à degradação da sua beleza e da sua utilidade, a desenfreada polissemia apenas torna mais difícil a já de si difícil arte de comunicar.

A gramática de um idioma define-se pela estrutura lógica, e não pela utilização
mais ou menos própria que, aqui ou ali, um ou outro escritor dela fará.

A existência de regras gramaticais perde todo o sentido se, em lugar de definir como devemos exprimir-nos,
a gramática se limitar a observar como vamos facilitando a expressão, preferindo levar à conta da chamada hipercorreção
qualquer tentativa de resistência à degeneração.

sábado, 11 de junho de 2022


Milhazes, Galamba e... o Cesto da Gávea


"Mandar alguém para o cesto da gávea tornou-se uma forma de exprimir desejo de distanciamento do autor
face ao destinatário da expressão, tendo a expressão "vai p'ró cesto da gávea" evoluído, na forma sintética,
para a expressão genérica de desagrado que se conhece, utilizada a torto e a direito por pessoas de pouco esmerada educação
"

"Não colhe aqui a estafada cantilena da origem humilde, da infância infeliz, da subida a pulso e todas as outras atenuantes
que possa invocar-se para procurar minorar o impacto desastroso provocado por quem solta, em direto e sem 
piiiii
, um palavrão daqueles"

"Noutro tempo, e independentemente da opinião que se tiver do Primeiro-Ministro de então, um membro do Gabinete
foi sumariamente convidado a afastar-se do governo por ter simulado um par de chifres na direção de um deputado da oposição
"

Vem este texto a propósito da indesejável propensão para, em nome daquilo a que, benevolamente, agora fica bem chamar genuinidade e frontalidade, não apenas se tolerar mas, até, aplaudir, em intervenções de figuras públicas, aquilo que jamais permitiríamos a um filho nosso - partindo, naturalmente, do pressuposto de que alguma atenção os progenitores ainda dedicam à nobre tarefa de educar.

Essencial ao progresso e à paz social, a verdade manifesta é que a hercúlea missão dos familiares com responsabilidades educativas não vem conseguindo evitar a propagação descontrolada do hábito ordinário e facilmente constatável sobretudo nas camadas mais jovens da população, de, a torto e a direito, proferir palavrões dos mais pesados como se se tratasse de inócuas interjeições; ou de mandar para aqui e para acolá aqueles cuja presença ou discurso em algum momento lhes esteja a desagradar.

Independentemente do sexo e da inserção social, parecem estes poetas do calão acreditar que o facto de assim se exprimirem lhes confere uma áurea de independência, de maturidade, de liberdade, de originalidade, até. Puro engano, claro, já que se limitam, afinal, a seguir uma desgraçada moda que, como qualquer moda, os torna iguais a quantos outros a seguem, e prisioneiros da obrigação de a adotar, sob pena de virem a ser marginalizados como retrógrados, démodés, pelos seus pouco educados pares.

Sendo consensualmente aceite que o exemplo vem de cima, catalizador nefasto desta tendência não deixará de ser o facto de, aqui e ali, se depararem os ditos jovens - e não só... - com a utilização dos mesmos palavrões na escrita e na fala de jornalistas e de governantes.

Lastimável, de facto. Sobretudo quando, de uns e de outros, seria de esperar que estivessem bem cientes do impacto mediático dos respetivos desempenhos sobre o processo educativo e formativo daqueles que, apesar de muita coisa que aqui não vale a pena esmiuçar, ainda contemplam aquilo que representam com algum respeito e admiração.

Fala-se aos quatro ventos dos direitos da criança, e da imperiosa necessidade de os assegurar e observar. Não terão as crianças direito à educação? Direito a, dos outros, dos crescidos, também esperar educação?

Talvez não menos do que dos direitos da criança nos enchem os ouvidos com a herança histórica e cultural disto e daquilo, com capitais europeias não sei de que mais, com património da Humanidade, com uma extensa lista de slogans destinados a salientar, e bem, o legado dos nossos antepassados.

Mas será que o património histórico e cultural exclui a elegância e a civilidade? Ou de tão escanzeladas que estão, delas já nem vale a pena falar?

- x -

Um jornalista licenciado em História da Rússia, profundamente conhecedor do idioma, da política e da sociedade desse país, com acesso a fontes locais privilegiadas, que, por alguma razão, ganhe inusitado protagonismo noticioso terá, seguramente, direito a um lugar de destaque numa redação; mas, se não consegue disfarçar a manifesta dificuldade comunicacional ao vivo, dificilmente deverá ser convidado a participar em serviços informativos no horário nobre, quando toda a gente está de olhos postos na televisão.

Não colhe aqui a estafada cantilena da origem humilde, da infância infeliz, da subida a pulso e todas as outras atenuantes que possa invocar-se para procurar minorar o impacto desastroso provocado por quem solta, em direto e sem piiiii, um palavrão daqueles: se qualquer pessoa menos favorecida e com uma sofrida vida passada pudesse, impunemente, soltar imprecações na televisão perante centenas de milhar de espetadores, tal corresponderia, aos ouvidos de quem assistisse, à institucionalização da ordinarice, à legitimação da deselegância no léxico e na vivência quotidiana.

Que a boçalidade e a insensibilidade nada têm a ver com a origem social bem o demonstram conhecidos empresários portugueses e presidentes de organizações patronais cujo trato fino e fala apurada são eloquentes quanto ao facto de o seu passado operário não ser, de modo algum, obstáculo a que se saiba estar como se deve estar, onde se deve estar e sem os ouvidos alheios ofender. Mesmo sem formação académica de nível superior, em História da Rússia ou seja no que for...

Também não se pode justificar a ordinarice com o propósito de traduzir à letra - absolutamente dispensável em tais circunstâncias -, já que existem muitas maneiras de dizer a mesma coisa evitando a deselegância na expressão. "Vai para aquilo que a gente sabe" seria uma delas, e ninguém se queixaria, por certo, da ligeira ambiguidade da opção.

Tampouco são admissíveis recorrentes referências depreciativas ao Secretário-Geral do Partido Comunista Português - como "aqui vemos o Jerónimo de Sousa lá do sítio a tirar macacos do nariz" -, por maioria de razão quando este, que também foi operário, não vocifera, não hostiliza acintosamente, não fala mal ou é indelicado com quem quer que seja.

Independentemente das atenuantes, qualquer profissional da comunicação que não entenda a responsabilidade de uma intervenção em direto deve ser mais bem aproveitado em oportunidades adequadas às suas capacidades e formação.

Uma pessoa que, para cúmulo, tem um discurso nada fluído, muito entrecortado e, em desespero de causa, bastas vezes complementado pelo pivot e por outro comentador, não tem, seguramente, lugar em diretos na televisão.

- x -

Da mesma forma, jamais deveria ter sido convidado para novo mandato no governo um mal amado secretário de estado com sobejas demonstrações acumuladas de quase genética falta de educação, desde o chamar estrume a um programa de um órgão de comunicação social a insultar interlocutores em redes sociais com os piores dos palavrões*), passando por, devido a divergências de caráter técnico, apodar um professor jubilado do Instituto Superior Técnico de "aldrabão e um mentiroso do pior"*).

Que lugar tem este indivíduo na governação de uma democracia, de um país que se pretende livre e plural?

Que peso político avassalador não deverá tal indivíduo ter no aparelho do, pelo menos outrora, tão respeitável Partido Socialista para, a despeito da lastimável e notória incapacidade de relacionamento pessoal com os seus governados*), ser recorrentemente convidado a integrar a equipa do atual Primeiro-Ministro? Ou que habilidade ou competência muito especial e não aparente lhe será reconhecida para justificar a escolha?

Noutro tempo, e independentemente da opinião que se tiver do Primeiro-Ministro de então, um membro do Gabinete foi sumariamente convidado a afastar-se do governo por ter simulado um par de chifres na direção de um deputado da oposição*).

Também in illo tempore um ministro da cultura se demitiu do governo*) por ter, metaforicamente, ameaçado com um par de bofetadas outros cidadãos.

O que mudou, então, em Portugal, para melhor ou para pior, desde então?

- x -

À falta de melhores razões, o jornalista e o governante deram, recentemente, brado na comunicação social. O primeiro, por ter traduzido à letra o que, contra a guerra, bramavam, em russo, os espetadores de um festival*). O segundo, por se ter passado numa rede social com um interlocutor a quem mandou para o... cesto da gávea *).

Cesto da gávea é um termo náutico muito português utilizado para designar aquela espécie de cesta profunda fixada junto ao topo dos mastros das antigas embarcações, onde um vigia varria, com o olhar e um óculo, o horizonte visando detetar a proximidade de outros navios ou de "terra à vista!".

Na generalidade das línguas europeias ocidentais, o referido cesto é designado por ninho do corvo: nido de cuervo, nid de corbeau, nido de corvo, crow's nestKrähennest, e não consta que, excetuando o alemão, em qualquer delas, exista, com o mesmo significado, um termo, digamos, simplificado.

Sempre inventivo, original e amante da simplificação, lá inventou o português uma palavra só para substituir a mais longa expressão cesto da gávea; e a palavra é, nem mais, nem menos, do que a proferida, em diferentes contextos, pelos já referidos jornalista e governante dos destinos da Nação.

Ora, o cesto da gávea era, indubitavelmente, um lugar inóspito e de difícil acesso. Instável, sujeito à inclemência das intempéries, tornou-se, por excelência, o local de castigo dos marinheiros considerados culpados de faltas menores. A distância a que se encontrava do convés superior servia, ainda, para garantir que o assim punido não teria como incomodar o resto da tripulação.

Mandar alguém para o cesto da gávea tornou-se, assim, uma forma de exprimir desejo de distanciamento do autor face ao destinatário da expressão, tendo, dadas as características do local, a expressão "vai p'ró cesto da gávea" evoluído, na forma sintética, para a expressão genérica de desagrado, utilizada a torto e a direito por pessoas de pouco esmerada educação.

Atualmente, utiliza-se, ainda, como expressão de desagrado - "é feio com'ó cesto da gávea" - e, degenerando e invertendo completamente o sentido, de admiração - "é linda com'ó cesto da gávea".

Nada de mal, como vemos, até começar a ser a mesma palavra utilizada para designar o órgão sexual masculino, na forma de ordinarice, de palavrão.

- x -

Foi nesse sentido e com esse intuito manifesto, o de dizer um palavrão, que cesto da gávea foi utilizado pelos espetadores do festival musical na Rússia condenando a abominável invasão e destruição parcial da Ucrânia. Foi nesse sentido e com esse intuito manifesto que o senhor Secretário de Estado o terá utilizado numa rede social dirigindo-se alguém por ele governado, a um concidadão.

Se é duvidoso que a intenção de dizer um palavrão, de ser ordinário, estivesse no espírito do jornalista que fez a tradução, não deixa de ser certo que a palavra, nas circunstâncias em que foi proferida, deveria ter sido, pelo menos, objeto de comentário e de reprovação pelos responsáveis pela estação, em clara demarcação.

Da mesma forma, deveria o Governo - ou, pelo menos, o Partido Socialista - ter, publicamente, repudiado a atitude do governante e militante, banindo-o do Governo, a exemplo do que aconteceu no caso dos chifres em direção de um bancada da oposição.

A menos que o Governo e o Partido se sintam confortáveis com este tipo de atuação e que, a despeito dos merecidos e respeitados pergaminhos, a SIC e a SIC Notícias queiram começar a parecer-se com certos outros canais de televisão.


Por falar em falta de educação:
lembra-se do Herman Enciclopédia?

NÃO PERCA a sátira,
protagonizada por José Pedro Gomes
às maneiras desastrosas dos portugueses à mesa...
e não só.


Veja AQUI, no Mosaicos em Português





   

domingo, 8 de maio de 2022


Nightcrawler - Repórter da Noite

O enredo versa sobre a atividade dos operadores de video por conta própria que cruzam a noite e o dia em busca de imagens frescas - e, preferencialmente, sangrentas - de acidentes, de crimes, enfim, de todo e qualquer sinistro ou catástrofe suscetível de gerar audiências sensacionais através da capacidade de, recorrendo à exploração dos sentimentos mais básicos, impressionar os telespetadores mais elementares.

A captação de imagens retratada é fria e implacável por parte destes predadores da desgraça alheia, último elo de cadeias que começam nos acionistas das estações de televisão e naqueles termina, antecedidos por, entre outros, diretores de informação, chefes de redação e outros jornalistas empenhados no processo.

Toda a lógica do negócio parece fundamentar-se, cada vez mais, nesta exploração comezinha dos instintos primários dos consumidores de publicidade, razão de ser quase única de boa parte das estações, tanto quanto dela nos é dado aperceber.

- x -

Por cá, e embora transversal, o fenómeno parece, notavelmente, mais desenvolvido - ou, pelo menos, evidente - no canal noticioso CNN-Portugal, que importa da casa-mãe o estilo americanizado das notícias, baseado, não apenas na espetacularidade real ou induzida, como no abundante caudal de ordens em tempo real transmitidas par ao auricular dos pivots: "repete essa parte", "insiste nesse ponto", "salienta bem o drama" e coisas que tais.

Esta constante ingerência dos responsáveis - ou mentores - sobre o desempenho de quem está a papaguear as novidades explicará, ao que se vê, aqueles momentos em que, de ar perplexo e com um vazio no olhar, quem lê o teletexto das notícias, ficam como que cristalizados ou, quando muito, balbuciando sílabas à toa, enquanto os cérebros estão dedicados a ouvir, atentos e obrigados, o realizador ou o superior hierárquico pisar com mais força o acelerador da emoção.

Menos sofisticado, mais popular, mas seguindo idêntica cartilha, se perfila, também, a CMTV nos desfile de horrores, baseados na crueza da imagem, indiferente ao sofrimento de quem preferiria, de longe, o recato da dor; e, quiçá, na outra vertente abominável que o filme retrata: a obstrução da atividade de investigação levada a cabo pela polícia criminal.

Claro que outros canais noticiam os mesmos factos, e necessitam, tanto ou mais, do financiamento que lhes chega por via da publicidade. Mas não deixa de ficar no ar a ideia de uma certa correlação entre a formação e a educação de quem põe e despõe em cada empresa e o maior ou menor ou menor peso da vertente ética que transparece do resultado exibido.

Quando aos nightcrawlers, não contam, claro. Não passam de alguém que procura safar-se ou aprimorar-se numa atividade que, como a veem, não passa de mais uma, entre tantas, de ganhar a vida.

- x -

Voltando ao filme, Nightcrawler tem ritmo, sendo, também de destacar a fotografia e o desempenho de Jake Gyllenhaal, que nos proporciona uma visão que poderá bem corresponder ao que de mais baixo e vil poderá existir, não só na dita profissão, como naqueles que os seus piores elementos fomentam, estimulam e, de alguma forma, deles dependem para, no horário nobre, nos fazer entrar em casa imagens suscetíveis de estragar o apetite do mais saboroso jantar.


Outros temas que poderão interessar-lhe no Mosaicos em Português:
- Da tendência para salvar, mudando o nome, aquilo que já não tem volta a dar Leia AQUI
- O engodo das entediantes e mais do que estafadas 'Breaking News' Leia AQUI

segunda-feira, 4 de abril de 2022


Zelensky: Começa a Cheirar Mal...

A responsabilidade por esta coisa da possível fabricação do massacre em Bucha, amplamente fundamentada por um oficial-general português*), poderá não ser inteiramente imputável à comunicação social. Certo, é que, a ser uma encenação, apenas vem reforçar as tresloucadas teses dos negacionistas da guerra, que as baseiam, precisamente, na possibilidade de tudo não passar de um produto da montagem visual e da desinformação.

De facto, só quem ande muito perturbado pela desventura que se abateu sobre a Ucrânia, mas, simultaneamente hipnotizado pelo efeito mediático habilmente criado pelo respetivo Presidente, deixará de estranhar o périplo que este empreendeu por tudo quanto é parlamento disposto a vê-lo e a escutá-lo, aplaudindo de pé, seja por comoção e entusiasmo, seja por preocupação com o politicamente correto, ou por razões que melhor será aqui nem expor.

Isto, enquanto a dita personagem se não coíbe de continuar a pedir à NATO o impossível: o impensável encerramento do espaço aéreo da Ucrânia, sentença de morte, não apenas para a respetiva população, como para a dos países que integram a Aliança, já que uma guerra de âmbito mundial facilmente deflagraria à primeira violação.

Esta insistência, que o espetáculo proporcionado pelos emotivos discursos proferidos vem reforçar, apenas serve para avolumar suspeitas que, aqui e ali, observadores dos mais diversos quadrantes já vêm expressando quanto à razão, à legitimidade e à própria origem da invasão pela Rússia.

A excessiva agitação das águas mediáticas - agora acompanhada, ao que parece, por uma despudorada encenação de um massacre em Bucha para europeu ver - está a descambar em algo que pode tornar-se pernicioso, não apenas para os interesses da Ucrânia, como para a estabilidade dos valores de quem a tem defendido e apoiado nas instâncias internacionais.

As gentes começam a indignar-se com a invasão, mais pela demolição sistemática nas cidades, do que pelas razões, decisões e atos que estiveram na sua génese. A emotiva verve do corajoso, mas porventura irresponsável, estadista faz-nos esquecer a dúvida sistemática que deve imperar na análise objetiva das situações. Os profusamente divulgados efeitos brutais da assim chamada guerra começam a contar mais do que a maldade subjacente aos desígnios do agressor.

Começa a cheirar mal...

* *

A hipocrisia e a mentira - ou, digamos, a criatividade na verdade - são típicas da política atual, muito especialmente em tempos de guerra.

(continua aqui)

quinta-feira, 24 de março de 2022


Mário Machado e a Juíza de Instrução Criminal

Corre por aí uma onda de indignação pelo facto de, no quadro da aplicação da medida de coação de termo de identidade e residência com apresentações quinzenais à autoridade policial, uma juíza de instrução criminal haver dispensado do dever de apresentação às autoridades o arguido num processo criminal por posse de arma proibida*).

Pondo de parte qualquer consideração de ordem subjetiva relativa à pessoa do arguido - e com a ressalva de que desconheço os textos completos, quer do requerimento, quer da oposição, quer decisão -, parece-me improvável que a agora mediatizada magistrada pudesse haver decidido de outra forma.

Antes de mais, não estando aqui em causa uma autorização para se ausentar do país - note-se bem que jamais foi exigida a entrega do passaporte... -, o único efeito prático da dispensa de apresentação às autoridades foi, salvo melhor opinião, o de permitir uma estada no estrangeiro por um período superior a duas semanas.

Apenas isto; e apenas isto relativamente a um indivíduo que, independentemente das desgraçadas ideias que alardeia e das pesadas condenações anteriores por atos com elas relacionadas, já pagou a dívida à sociedade mediante o cumprimento das penas em que foi condenado, apenas sendo, agora, arguido relativamente à eventual prática de um crime de baixa gravidade, como o é o de posse de arma proibida, punível, nos termos do art.86º do Código Penal Português, com prisão até três anos ou multa até 360 dias..

Neste quadro, com que fundamento poderia a juíza ter recusado um pedido, não para se deslocar à Ucrânia ou onde quer que fosse fora de Portugal, mas apenas para por lá permanecer mais do que os quinze dias de intervalo que lhe foram fixados?

Para lá da emotividade de uma sociedade e da exploração por uma comunicação social ávida de notícias, a verdade é que:

  • para todos os efeitos legais, o arguido é presumível inocente até ao trânsito em julgado de decisão condenatória;

  • sair de Portugal, sempre pode: o pedido visa, unicamente, a possibilidade de permanência além de duas semanas em missão humanitária junto de um país invadido ao qual Portugal presta auxílio e apoio;

  • risco de fuga nunca entenderam os tribunais que existisse, ou outra teria sido a medida de coação aplicada - e a decisão ora criticada tal risco, decididamente, não gerou;

  • da prática dos dois outros crimes que lhe são atribuídos - de incitamento ao ódio racial e à violência - era, à data do despacho, um mero suspeito.

Ora, a juíza de instrução fundamentou o despacho dizendo que dada “a situação humanitária vivida na Ucrânia e as finalidades invocadas pelo arguido para a sua pretensão, o arguido poderá deixar de cumprir a referida medida de coação enquanto estiver ausente no estrangeiro”, o que é consentâneo com os pontos acima enumerados: negar o pedido mais não seria, ao que tudo parece indicar, do que uma decisão arbitrária, subjetiva, politicamente motivada e, do ponto de vista estritamente técnico, notoriamente violadora, pelo menos, do princípio constitucional da proporcionalidade.

Mostra-se, assim, absolutamente ridículo, falso e manipulatório da opinião pública que estejamos perante uma "decisão que autoriza Mário Machado a ir lutar para a Ucrânia"*), ou que o assumido neonazi foi "autorizado pelo tribunal a combater na Ucrânia"*), ou que se pergunte por que razão Mário Machado foi autorizado a sair do país, ou qualquer outra mais ou menos insidiosa patacoada do género, aparentemente apenas destinada a vender assinaturas de jornais ou minutos de publicidade nas televisões, ou devida ao simples facto de, quem a escreveu, nem a parte relevante da fundamentação do despacho se ter dado ao cuidado de ler.

- x -

Ninguém é mais crítico do que quem aqui escreve quanto àquilo que, em crescendo, a magistratura judicial portuguesa de si tem vindo a dar a conhecer, bem como das aberrantes e desumanas ideias defendidas pelas extremas mais extremas da política nacional ou internacional.

Mas, no momento em que começamos, impiedosamente, a crucificar inocentes servidores públicos pelo simples facto de terem proferido decisões acertadas, apenas como forma de exaltar os ânimos ou de desviar as atenções dos leitores e espetadores de coisas bem mais graves e preocupantes que se passam nos meandros da política portuguesa - como, por exemplo, as relacionadas com a formação do próximo governo constitucional; no momento em que tomamos conhecimento de perplexidades relacionadas com o despacho da juíza de instrução por parte de mediáticos juristas de quem se espera uma análise objetiva e fria das disposições da lei, não há como calar mais uma muito séria palavra de alerta para os perigos da prosápia e da excessiva e, por vezes, enviesada mediatização.



domingo, 13 de março de 2022


"Baking News"

Habitualmente traduzida como "notícias de última hora", a expressão inglesa "breaking news" exprime, mais propriamente, uma interrupção, uma quebra (break) do curso normal da programação de um canal de radiofonia ou de televisão, devida à superveniência do conhecimento, pelo emissor, de informação cuja divulgação justifique tal sobressalto.

Os critérios para a classificação de determinada notícia como "breaking news" são, necessariamente, subjetivos, além de fortemente condicionados pela apetência do auditório pela respetiva natureza e, consequentemente, pelos inerentes interesses comerciais que cada vez mais nos surgem como o verdadeiro motor das decisões táticas a cada momento tomadas pelos responsáveis pela gestão corrente das diversas estações.

Caso bem conhecido e que ainda hoje permanece na memória de muitos é, corria o ano de 2007, o da saída abrupta de estúdio por parte de um comentador da SIC Notícias*) que viu o seu comentário político interrompido pela inadiável e importantíssima cobertura da chegada ao aeroporto de um então bem sucedido treinador de futebol.

Para alguns aparentemente no mesmo patamar, temos, agora, a invasão da Ucrânia pela Rússia a ameaçar a segurança da Europa e, desta vez, a objetivamente mais do que justificar que qualquer notícia relevante e de última hora sobre o tema ere uma imediata interrupção da regular programação.

- x -

No entanto, quem, por gosto discutível ou pontual falta de alternativa, passar parte do dia com o aparelho sintonizado na frequência do canal recentemente rebatizado como CNN Portugal, ouvirá, inúmeras vezes ao longo do dia, papaguear algo como "Boa tarde, eu sou a Maximiana e estamos em 'breaking news' na CNN Portugal" (o nome fictício da locutora foi propositadamente escolhido dada a facilidade com que as evidentes artificialidade e impropriedade da designação e da mensagem poderiam levar-nos a confundi-la com uma rábula de um programa humorístico como o Crime na Pensão Estrelinha *) ou o Humor de Perdição *)).

O que nos traz, de imprevisto, de inesperado, de importante, de novo, aquilo que se segue a tão espampanante introdução?

As mais das vezes, a partida, o trânsito ou a chegada de mais um entre tantos camiões com ajuda humanitária generosamente recolhida em Portugal; a chegada de mais um desolado grupo de deslocados da guerra; a comovente história do pequeno Alexis que, na fuga, apenas conseguiu trazer consigo o mais pequeno dos seus já poucos brinquedos; o aproveitamento fácil e indecoroso da fragilidade das vítimas para as pôr a chorar diante das câmaras, ou a pungente história de um Oleg que, perdido nas agruras da guerra, não tem como encontrar a irmã ou outro ente querido do seu coração.

Tudo isto é triste, é dramático, é chocante, claro. A menos que sejamos bestas apenas comparáveis aos abomináveis agressores, tudo isto nos toca profundamente, e não deixa de ser instrumentalmente relevante na congregação e na mobilização de esforços para valer a quem tanto de nós necessita.

Mas, o que tem a ver com "breaking news" toda esta informação já mais do que requentada, passada até à nausea, sempre com as mesmas imagens de fundo - ainda conseguem ver "em direto" aquela explosão de um míssil russo a destruir um edifício administrativo em Kharkiv*)

De manhã à noite, e seja lá o que for que transmita que tenha, ainda que remotamente, a ver com a invasão da Ucrânia, é, para a mais sensacionalista do que informativa CNN Portugal, notícia de última hora, ou assim é anunciada a fatias menos cultas, menos atentas e menos inteligentes da população espetadora, as únicas que, numa postura predominantemente acrítica, ainda conseguirão absorver, sem reagir, tão enganadoras e intensas mensagens que, supostamente, ajudarão o recauchutado Canal a vender alguma publicidade.

Em vez de breaking news, servem-nos baking news, destinadas a entorpecer, a cozinhar em lume brando as meninges de quem as vê e ouve, intercaladas pelos anúncios que, esses sim, aqui e ali as vêm interromper.

Ávidos de verdadeiras notícias, lá continuamos assim pregados à têvê...

Caso se interesse por
QUESTÕES SOCIAIS
não deixe de consultar, no correspondente separador no topo desta página,
um índice de outros artigos publicados no
Mosaicos em Português

sábado, 12 de fevereiro de 2022


Indiferença

"Como explicar que, a par de um atendimento reconhecidamente mais próximo e eficiente
por boa parte do funcionalismo público, seja, paradoxalmente, na área da diplomacia
que tamanha aberração acontece? Que de forma tão grosseira se manifesta, não apenas a ineficiência funcional,
mas a desoladora indiferença, a desgraçada falta de coração, de formação, de educação?

Num Estado que se diz humanista, não há lugar para uma diplomacia fria, dura,
indiferente a quem, com dois, um ou quase nenhum pulmão caminha
por uma rua cheia de pessoas que não choram, e impede que, pelo menos,
sobrevivam juntas pessoas que poucas outras têm a quem dar a mão.
"


Da missão da comunicação social já muitas linhas se escreveu. Também das múltiplas formas como é desvirtuada tão nobre missão, formas essas que a fértil imaginação humana não pára de, pela negativa, enriquecer. Chegaram, mesmo, as coisas a ponto de serem criados produtos informativos, impropriamente chamados polígrafos, cuja única função é averiguar e denunciar mensagens e notícias falsas, num Mundo cada vez mais profundamente mergulhado na dúvida quanto à bondade das intenções de quem noticia, seja nas mais agressivas redes sociais, seja na teoricamente mais cândida blogosfera, seja, enfim, na teoricamente bem mais responsável imprensa tradicional.

Nada disto é novo
Nada disto é novo, tal como novo não é o facto quase apenas o que é mau ser capaz de atrair a atenção de uma cada vez menos educada e menos diferenciada opinião pública, essa solitária mole de mais ou menos desgraçados mas quase sempre desengraçados seres humanos ávidos de qualquer coisa picante, ou lastimável, ou terrível que lhe permita sacudir, ainda que por breves momentos, a poeira que lhes forra o vazio do coração.

Tornam-se, assim, raros os casos em que os mais consagrados media se podem, do ponto de vista económico, dar ao luxo de, a um ou outro caso pessoal verdadeiramente desesperado, dedicar algumas letras por entre os pingos da chuva desta bombástica e inesperada maioria absoluta que até as repetitivas e já nauseantes notícias da pandemia para enésimo plano acaba por conseguir relegar.

- x -

Assim aconteceu há uns dias, com o semanário Expresso*), relativamente à notícia da impossibilidade de obtenção de visto para entrada em Portugal por parte de uma senhora guineense que pretendia apoiar a filha doente; com carinho e companhia, já que pouco mais terá para dar. Uma filha que mora sozinha num primeiro andar sem elevador que, pelas escadas, mal consegue alcançar. Uma filha, que há vários anos, aguarda um indispensável transplante pulmonar, e a quem, mesmo com o aparelho portátil de fornecimento de oxigénio regulado na potência máxima, o ar falta até para se deslocar até a uma biblioteca para estudar.

Enquanto espera e quase desespera, Isabel Bapalpeme luta para não enlouquecer, agarrando-se à penosa frequência e estudo de um curso profissional que poderá, um dia, permitir-lhe outros horizontes vislumbrar.

Apesar de, cinicamente, tendermos a dizer que temos muita pena mas que a pobreza é preocupação do Estado e cada um de nós, individualmente, pouco ou nada poder fazer para a debelar, a verdade é que, a menos que não passemos de bestas insensíveis, notícias de casos de pobreza sempre nos hão de entristecer e de, de longe a longe, fazer pensar. Mas, por cruel que possa parecer, a verdade é que casos de pobreza como este - em que, até há poucos dias, os trabalhos de casa eram feitos no telemóvel por nem um pequeno computador ter para estudar - não são notícia, ou os noticiários ocupariam as emissões de dias inteiros, e seriam necessários vários volumes para publicar os jornais.

O que torna este caso escabroso é, antes, o facto de, apesar das diligências levadas a cabo junto da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau alertando para a gravidade da situação e para a necessidade fundamental da presença da família, vai para quatro anos que a Mãe de Isabel vê o seu visto de entrada em Portugal negado pelas autoridades: ora por não ser possível comprovar a intenção de abandonar o território português antes de o jamais concedido visto caducar, ora porque o tipo de visto pedido não era o adequado e ninguém do facto se dignou esclarecê-la, ora porque há documentos em falta no processo, ora sabe-se lá por que mais que nem vem nos jornais.

Píncaros do Ridículo
Nos píncaros do ridículo da ação do autoproclamado humanitário Estado, lá continua Isabel Bapalpeme, ao fim de quatro longos anos, privada da companhia clinicamente imprescindível da Mãe apenas porque esta, em lugar de um visto de tipologia E7 terá  pedido um visto de tipologia "E" não sei que mais.

O editor de quem escreveu que "a juventude esbate-se, o amor esmorece, as folhas da amizade tombam, mas todos sobrevive a esperança secreta de uma mãe" esqueceu-se, por certo, de enviar um exemplar da obra à Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros...

- x -

Eis senão quando, humilhado pela atenção que a inenarrável indiferença de responsáveis e subalternos a este caso trouxe, salta o bem-aventurado humanismo mediático do dito Ministério a dar instruções urgentes à Embaixada no sentido de proceder, sem mais demora, à tão desejada  emissão do visto.

Mas, qual visto?... Isto só visto.

Logo a Embaixada liga, à Mãe a marcar uma hora para lá comparecer a fim de lhe ser dado o visto nunca visto; comparece até antes da hora; fá-la o segurança esperar mais duas, alegando não ter sido informado de qualquer agendamento; por causa desta comezinha questão, telefonemas ao mais alto nível da diplomacia são trocados; e a mãe, Sábado Babalpeme, lá acaba atendida por um qualquer funcionário.

Sucesso, finalmente? Não...

Sábado não foi atendida por um simples funcionário qualquer: foi atendida por um funcionário tão qualquer, mas tão qualquer que, ao que parece, em lugar de, perante a dificuldade, se ter mexido como a relevância e urgência do caso requeriam, se terá limitado a, uma vez mais, recusar a entrada do pedido de visto por... falta de documentação.

Depois de todos os cordelinhos que a notícia do Expresso tinha feito puxar em bem altas esferas, um enferrujado mas todo importante funcionário limita-se a entregar à Mãe uma lista do calvário administrativo todo que teria, ainda, de percorrer. Ela, que nem sabe ler...

Corre, então, o Semanário junto do altivo e displicente Ministério, o qual, pressionado, logo transmite, à Embaixada ordem de que, para emitir o visto, nada mais exija do que o relatório médico já em seu poder.

Estarão, finalmente, criadas todas as condições? Talvez...

A verdade, porém, é que o visto ainda não foi emitido, mas apenas foi processado na Embaixada: falta o "parecer das entidades competentes em matéria de entrada de estrangeiros em Portugal, aguardando-se a emissão a breve trecho"*).

Decididamente, a débil simplificação administrativa cá do Retângulo não chega aos casos que, mesmo desesperados, apenas se resolvem depois de um considerável arraial...

- x -

Terão sido, possivelmente, situações como esta que inspiraram a definição segundo a qual "diplomacia é a arte de dizermos ´lindo cachorrinho' até encontrarmos uma pedra". Seria, porém, de pensar que Portugal fosse um estado uno, senhor de uma identidade própria, desejavelmente homogéneo onde quer que se encontre representado, e seja em que circunstâncias for.

Como explicar, então, que, a par de um atendimento reconhecidamente mais próximo e eficiente por boa parte do funcionalismo público, seja, paradoxalmente, na área da diplomacia que tamanha aberração acontece? Que de forma tão grosseira se manifesta, não apenas a ineficiência funcional, mas a desoladora indiferença, a desgraçada falta de coração, de formação, de educação?

Num Estado que se diz humanista, não há lugar para uma diplomacia fria, dura, indiferente a quem, com dois, um ou quase nenhum pulmão caminha por uma rua cheia de pessoas que não choram, e impede que, pelo menos, sobrevivam juntas pessoas que poucas outras têm a quem dar a mão.

* *

Ou será que a diplomacia anda de mãos dadas com o racismo?

(leia aqui o desenvolvimento)


domingo, 30 de janeiro de 2022


O Circo sem Fim

Cumpriu-se, ontem, o dia de faz-de-conta, o chamado 'dia de reflexão'. Um dia miserável para os órgãos de comunicação, em que, já e ainda, não se pode 'fazer' política; em que jornalistas, comentadores e politólogos não podem atirar-nos as suas já gastas e mais do que previsíveis opiniões, baseadas em sondagens cada vez menos credíveis e em desempenhos enviesados e esquivos dos protagonistas e daqueles que gostariam de, um dia, vir a sê-lo.

Hoje, o circo mediático volta à bilheteira, já que o 'dia de ansiedade' se segue ao 'dia de reflexão'.

Ansiedade dos candidatos na corda bamba e dos que se julgam a um passo da eleição. Ansiedade das as agências de marketing e das de sondagens, que nas urnas vão ver decididos os negócios da próxima campanha. Ansiedade para os compadres dos eleitos e dos perdedores também. Ansiedade para os adeptos do clube político, que, como se a final de ontem da Taça da Liga não bastasse, não sabem se vão sair em ombros ou humilhados, se vão ter ou não coragem para aparecer no café no dia seguinte ao do jogo... que dizer, da eleição.

O circo mediático suspendeu-se ontem. Hoje regressa com o ar beatífico, confiante e bem disposto do candidato com o boletim meio introduzido na urna à espera do fotógrafo; com declarações firmes que fazem lembrar as do recentemente derrotado candidato à Câmara Municipal de Lisboa, a meio da tarde do dia da eleição; com os discursos de vitória e de fingida vitória.

A partir de amanhã, mais forte e barulhento fica o circo, com dias e dias dedicados à especulação e à cacha quanto às negociações em curso que dificilmente do pântano nos tirarão. Tudo isto, com muita, muita publicidade à mistura, que se não pode parar o circo da desinformação.

Os acrobatas, são os candidatos. Politólogos e quejandos, os palhaços e restantes atores.

Os animais... nós, desgraçados e enganados eleitores.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022


Inferno e Traição

Isto, preocupa-me. Seriamente.

Hoje de manhã, ao entrar calmamente num supermercado, atraiu-me o olhar uma fileira de capas de revistas habilmente dispostas por forma a chamar a atenção. Revistas daquelas de grande tiragem versando, maioritariamente, sobre os importantes temas relativos a diversas telenovelas, bem como às sem dúvida muito interessantes aventuras e desventuras daquelas criaturas que se consideram personalidades, colunáveis, membros do jet set, ou que ascenderam a qualquer outro patamar porque o elevador social nele os deixou, ou por terem trepado a pulso para o atingir - o que, aqui no Retângulo, cada vez mais parece corresponder a uma especial habilidade para abrir, fechar e movimentar sacos azuis e outras habilidades que tais, a maior parte das quais com significativas repercussões fiscais e outras que tais.

Das ditas capas, sobressaiam os títulos "Inferno e Traição", "Tragédia e Traição", "Amor Proibido", "Todos os Segredos", "Acusado de Pedofilia" e, last but not the least, "Expulsos do BB Famosos".

Como os proprietários da tabacaria não estão ali para perder dinheiro, evidente se torna que sabem muito bem que é aquilo o que mais se vende, o que mais chama clientes, e não os títulos sensaborões  (leia-se "mais sérios") dos representantes da imprensa escrita que, efetivamente, informam e que cada vez menos existe o hábito de ler.

Num dois próximos Domingos, serão estes educados leitores, às centenas de milhar, que, juntamente com os que se deleitam com o conteúdo de pasquins de índole e filiação diversa, juntamente com as notícias fresquinhas da indústria futebolística - que também estavam no escaparate, logo a seguir -, irão, conscienciosa e criteriosamente votar em mais uma eleição.

São estes indivíduos sumamente ocupados e preocupados com a visibilidade do próprio umbigo*) que irão escolher quem, a si, caro Leitor, e a mim irá governar nos próximos quatro anos - se tanto aguentar.

São estas pessoas sem Norte, vazias de si, refugiadas na mirífica ilusão daquilo que nem merece ser -  porque não tem razão válida para existir além da subserviente devoção ao marketing predador que sopra nos lubrificados cataventos destas pequeninas cabeças e destes minúsculos corações -, são estes infelizes que, talvez maioritariamente, irão tomar uma decisão fundamental para o futuro próximo de cada um de nós, e do todo que todos integramos.

Isto, preocupa-me. Seriamente.

sábado, 15 de janeiro de 2022


Vácuo vs Vazio: a Essência dos Debates Eleitorais

"Aquela trintena de mini-programas foi a fantochada e a vergonha que sempre fora programada para ser.
Ninguém alguma vez esperou que tudo aquilo servisse para alguma coisa,
nem acreditou que alguma coisa junto dos eleitores os debates viessem esclarecer.

Tudo não passou do habitual picadeiro das vaidades por parte dos concorrentes,
e da sensaborona inutilidade dos juris de comentadores.
De serões de indisfarçável tédio para todos nós, hesitantes eleitores e obedientes espetadores
"


Debates ou embates?
Impropriamente chamados debates, terminam hoje duas semanas de embates em frente-a-frente, desenhados para isso mesmo: para serem meros embates de escassos minutos, nos quais as televisões promotoras não deixaram, aos convidados, qualquer possibilidade de debater o que quer que fosse além da personalidade e da suposta falta de idoneidade do interlocutor, apenas lhes dando o tempo estritamente necessário à picardia verbal, ou a entediar ainda mais um já de si entediado Portugal.

A ridícula duração fixada para a quase totalidade deles - igual a pouco mais do que a escassa metade de uma parte de um jogo de futebol - não permitiu a subsistência de qualquer dúvida relativamente ao verdadeiro propósito mediático desta maratona que antecedeu mais uma campanha eleitoral: prender à televisão, para consumir publicidade e mais publicidade, o tuga guloso da refrega entre políticos para os quais continua a olhar com o mesmo arregalado clubismo com que se deslumbra com os profissionais da indústria do futebol... que, em tempos, há muito idos, era tida como um desporto, antes de a também indústria da publicidade e da comunicação lhe ter lançado o anzol.

Se dúvidas houvesse quanto à natureza pretendida desta série de clips ao vivo que nos estragou os serões, o teor da pergunta feita por alguns pivots dos comentários que se seguiam a cada disputa dizia tudo: "Que nota dá a cada um? Quem considera que ganhou?"; e era ver àqueles senhores muito sabedores e eruditos oscilar entre o um e o cinco, como se aquilo alguma importância tivesse num assunto tão sério como a preparação de uma eleição legislativa num país democrático, ou que assim se diz.

Não deixa de ser verdade que, em boa parte dos casos, quem lá ia exibir-se - perdão, comentar - parece confundir fala afetada com um dom da palavra que, patentemente, não tem, e bem melhor faria se se contentasse em complementar o salário com uma crónica ocasional neste ou naquele jornal.

Mesmo assim, dava dó ver a atrapalhação em que alguns ficavam se alguma pergunta mais profunda e específica era formulada pelo pivot: iam responder o quê? Dizer o quê, se, para a vitória, apenas importavam o tom e a galhardia, a brejeirice, a mais ou menos torpe insinuação? Acima de tudo, não cair na tontice de dar trela ao tal André, ou escorregar na areia que, como sempre, por todo o lado andou a espalhar pelo já de si inclinado chão...

Graças, em boa parte, ao formato adotado, o que deveria ter sido uma oportunidade única de esclarecimento político, não passou de um montra privilegiada para moderadores dos debates e comentadores.

- x -

O pânico do irrecuperável dano à imagem que o arruaceiro-mór pudesse causar-lhes junto do eleitorado deixou carrancuda, tensa, inexpressiva a maior parte dos adversários que lá se atreveram a defrontá-lo - já que um deles, habilmente, se esquivou com um argumento manhoso e pateta, próprio de quem, apesar da idade e da experiência, continua a não aprender como estar, com um mínimo de eficácia, na política em Portugal.

Meninges dos oponentes
Em quase todos os casos, o bloqueio intelectual e espiritual que o medo do arruaceiro a quase todos causava era tal que, quanto aos chavões habituais e estafados, nem retorquiram perguntando o óbvio: por que razão quem, em tempos, tinha tido dinheiro para comprar um telemóvel não o haveria de conservar na sua posse a fim de, através dele, poder tranquilizar os familiares que deixara para trás? Ou quantos anos teriam os tais Mercedes (ou, agora, também Porsche e, um dia, Bentley, quem sabe...) à porta de casa de pessoas que recebem subsídios, automóveis provavelmente a cair de podres como tantos que por aí se vê ainda  a circular? Ou, ainda, que chorudos proventos, a expensas do Estado, auferiria todo aquele batalhão de autarcas sem salário que ele diz querer descontinuar?

Não. Em vez disso, quase se via as meninges dos oponentes tremelicar no pânico de não sobreviver à investida seguinte, à qual respondiam mantendo-se, obedientemente, no terreno imposto pelo vivaço do outro contendor - que, aliás, ao longo dos dias e também nas sondagens, foi perdendo fôlego, acutilância, vigor, como se também ele acabasse desanimado com a falta de adubo que encontrava para a sua esperteza viva e de resposta pronta, acabando por esmorecer qual equipa a pairar no relvado depois daquilo a que os desportistas de poltrona gostam de ouvir chamar uma entrada de leão.

A verdade é que lá vai, de alguma forma, sendo eficaz, como eficaz é qualquer verdade ligeira ou descarada mentira emotivamente dita a uma genericamente pouco instruída e pouco educada população.

- x -

Por seu turno, quando os representantes dos partidos democráticos supostamente debatiam entre si, o vácuo de ideias apenas era equiparável ao vazio das soluções, continuamente atiradas para o ar como meros desideratos ou contrapartidas às do adversário, sem especificar o como e o quanto subjacentes à maior parte delas, tendo a representante - de olhar fixo, duro e com um esgar cuidadosamente estudado para parecer um sorriso - de um partido da extrema-esquerda chegado a dizer, com todas as letras e inacreditável despudor, que isso do custo é o que tiver de ser!

Fugiram das explicações, da fundamentação, da teoria como o diabo da cruz, e fizeram bem, já que, quando se explica e quantifica, quase todos se desinteressam pelo muito que muito poucos são capazes de entender. O furúnculo da questiúncula partidária prevaleceu, assim, sobre a apresentação das políticas propostas; e bem, já que a luta de galináceos era, precisamente, aquilo a que, esquecendo-se da sua qualidade de eleitores, boa parte dos telespectadores queria, verdadeiramente, assistir, para gáudio das estações.

Nos representantes dos dois filhos pródigos da Geringonça, era notório o olhar mortiço, cristalizado, arrependido, quase culpado por se terem metido em tão tremenda alhada ao não viabilizar o Orçamento Geral do Estado, opção que, sem grande margem para dúvidas, os irá deixar em ainda bem pior situação: um cantinho no Parlamento e - desgraça das desgraças - o magro pecúlio correspondente a um resto de votos deixado nas urnas, para evitar que o partido tenha de andar por aí a estender a mão.

Para estas agora tão débeis forças políticas, apenas importa ter ideias, fingir ter soluções e acenar com elas aos ignorantes que, iludidos, ainda os apoiam, sem se ralar minimamente com a evidente inexequibilidade de meros desejos, de idílicos sonhos, de pretensos projetos que, impossíveis que são de desenvolver, nem ao menos chegarão a sê-lo.

Terra de Camões
Parece, enfim, que lá acabaram por entender a rede em que tinham caído, lançada pelo promotor do arranjo governativo, político competente e habilidoso, já mais do que farto de andanças nesta terra de Camões, ansioso que está, como já anunciou, por ir espraiar a sua habilidade lá fora, deixando em boa parte do centrão político gente sem coluna vertebral que se veja, de idoneidade mais do que discutível, com interesse quase só para o fisco e para a justiça penal, sem competência ou qualificações que se vejam, além de um canudo que vale o pouco que vale para quem, sem educação que se veja, se propõe, apesar de tudo, assumir as rédeas da governação.

- x -

Diversos comentadores referiram a suposta falta de preparação para os debates por parte do representante do maior partido da oposição, considerando-o mal preparado, arrogante no seu estilo popularucho, demasiado informal. Como se o eleitor português típico tivesse a capacidade de entender outro tipo de discurso, mais elaborado, mais elevado, mais humano, até. Sobretudo, apelando ao processamento intelectual!

Esquecem-se, manifestamente, de que ensino não implica educação; de que a atividade letiva que dá canudos não dá o resto, de que, como elevador social, o simples ensino, sem educação, não passa do rés-do-chão; e de que é, precisamente, este tipo de discurso simplista e próximo daquilo que é, efetivamente, a mole humana que vota, que a cativa no momento da decisão.

Esquecem-se os eruditos comentadores daquilo que os publicitários há muito sabem: que não são anúncios com mensagens sofisticadas que vendem a esta boa gente que vota, mas sim pérolas do tipo "Paôpa, Fêlha, perque nã sabes o dêa de amanhã!"...

Prova acabada parecem ser, valham o que valerem, os resultados de sondagens em que a diferença das intenções de voto entre os dois maiores partidos se ia, até há pouco, estreitando, estreitando, arriscando-se a quase se anular, se não acabar por acontecer mesmo uma inversão.

Também no clube dos mais jovens salvadores da Pátria, como todos parecem considerar-se, a conversa de surdos não era melhor, mais a mais com alguns moderadores de debates - que, amiúde, mais pareciam candidatos - obstinados em quase exigir respostas ao rol de perguntas que traziam na cábula, em lugar de deixar que o pugilato se desenvolvesse com a aparência mínima de naturalidade permitida pela ridícula escassez do tempo disponível, no intervalo entre as notícias e o concurso dos croquetes ou outra importantíssima emissão.

Quando não houve pelejas aguerridas mas vazias, foi a vez dos não debates, das frases feitas e dos sound bytes trazidos dos espíritos  vivaços dos consiglieri dos partidos, das coisas nenhumas, moles, ocas, em que ninguém parecia saber bem ao que ia, ou o que havia de dizer. A monótona série de perdas de tempo apenas serviu, se tanto, para revelar um pouco mais da personalidade e da argúcia deste ou daquele candidato: nada, mas nada, de esclarecedor e fundamentado quanto às propostas trazidas a debate - quando as havia - e, semanas mais tarde, à eleição.

- x -

Assim sendo, para, de facto, quê dar mais tempo àquilo? Para quê dignificar conversas de surdos que, para os próprios partidos, não passaram do cumprimento de uma obrigação para com uma comunicação social da qual inteiramente dependem para aparecer em casa dos eleitores, em cujas boas graças necessitam de estar, e que lhes não dispensa o beija-mão?

Acaso representa mais do que isso? Como explicar, então, o facto de alguns para lá terem ido antes mesmo de o programa eleitoral que iriam debater ter sido publicado? Se, para esses partidos, a série de programas tinha algum genuíno interesse, como explicar esta clara demonstração de desinteresse, de falta de dedicação?

Se alguma qualidade verdadeira as estações antevissem na iniciativa, teriam dado o dobro da duração à coisa, assim sempre arranjando mais ou outro anúncio no intervalo. Mas, não: as refregas duraram apenas o tempo suficiente para fazer arrebitar, durante uns minutos e com as picardias da praxe, os espetadores das eternas telenovelas e dos populares concursos da televisão; e, a fazer fé nos números das audiências, a tática funcionou. Já se dessem, aos desinteressantes atores políticos, tempo para entrar no debate de ideias e de projetos, estragariam tudo, convidando a esmagadora maioria de uma população politicamente analfabeta a rapidamente mudar de canal ou, pelo menos, a deixar de prestar atenção.

O que dizer, por fim, da escandalosa falta de pontualidade de certos canais que atrasaram, por vezes vários quartos de hora, o início dos ditos debates face à hora anunciada, assim obrigando os espetadores ainda interessados naquilo a gramar notícias e mais notícias, algumas sem qualquer interesse - como no recentemente rebatizado canal que insiste em incluir nos telejornais pequenas histórias transmitidas pela casa-mãe americana, de interesse diminuto ou, pelo menos, sem o ter em dose suficiente para legitimar o atraso na transmissão de um debate eleitoral?

Ou, pior ainda, dos embates que começaram antes da hora anunciada, fazendo-nos perder boa parte do tão precioso alimento intelectual?

- x -

Aquela trintena de mini-programas foi a fantochada e a vergonha que sempre fora programada para ser. Ninguém alguma vez esperou que servisse para alguma coisa, nem acreditou que também alguma coisa junto dos eleitores os debates viessem esclarecer.

Tudo não passou do habitual picadeiro das vaidades por parte dos concorrentes, e da sensaborona inutilidade dos juris de comentadores. De serões de indisfarçável tédio para todos nós, hesitantes eleitores e obedientes espetadores.

Sic transit gloria mundi




  LEIA  AQUI  O  ARTIGO SEGUINTE DESTA SÉRIE DEDICADA AO ATO ELEITORAL!