quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
O Princípio e o Fim
quinta-feira, 27 de janeiro de 2022
Da Orientação Sexual dos Sacerdotes Católicos
Foi, há dias, noticiado o anúncio, por parte de mais de uma centena de católicos alemães, não, propriamente, da orientação sexual de cada um, mas do facto de todos eles se incluírem no grupo social designado por LGBTI, ou seja, lésbicas, gays, bissexuais, transgênero e intersexuais - sigla que, numa palavra, poderia resumir-se à palavra homossexuais mas que a humana propensão para considerar que complicar equivale a dignificar acabará, provavelmente, por a alongar a ponto de, um dia, conter a totalidade desordenada das letras do alfabeto. Adiante...
Claro está que, excetuando culturas em que a homossexualidade seja criminalizada, cada pessoa é livre de, relativamente ao próprio, a anunciar ou alardear como bem entender, sem prejuízo de o despropósito e o exagero a que, amiúde, se assiste em manifestações dessa natureza acabar por se tornar contraproducente, levando ao crescente cansaço, à saturação de uma população (ainda) maioritariamente heterossexual e que da existência dessas coisas prefere fingir nem saber.
O problema neste anúncio reside, assim, não na orientação sexual declarada, mas no facto de algumas destas pessoas serem sacerdotes católicos, e isto por duas razões principais:
-
Segunda (propositadamente antes da primeira): para a Igreja Católica a
homossexualidade é condenável, assim se encontrando todos esses sacerdotes
deliberadamente "em pecado", o que os torna, implicitamente, inaptos para,
como dizem, perdoar os pecados dos outros - da mesma forma que um juiz
assumidamente criminoso perde a idoneidade necessária a, pela prática de
crimes, condenar os seus concidadãos.
- Primeira: antes de tudo, porque, tanto quanto julgo saber, não apenas o celibato é imposto aos sacerdotes católicos, como até toda e qualquer atividade sexual lhes é negada; e esta razão parece-me a mais importante simplesmente porque carece, absolutamente, de interesse conhecer a orientação sexual de quem nenhuma atividade sexual tem ou pode ter.
Ou terá? Ou alguém acreditará, ainda, que não tem? Ou, tal como muitas vezes acontece na política, tudo isto não passará de uma fabulosa construção para inglês ver?
Juntando este anúncio aos dos abusos sexuais que há muito vêm sendo denunciados, não estará na altura de uma reflexão séria sobre o tema, mesmo que, com ela, os sacerdotes acabem por perder aquela espécie de aura de superiores querubins e serafins, semelhança que as notícias vindas a lume cada vez mais afastam do ideário até dos mais ingénuos crentes?
* *
O papel da mulher na sociedade e no casamento é outro tema candente da Igreja Católica, que continua a parecer alheada à evolução, à mudança das mentalidades ao longo dos séculos.
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A linguagem inclusiva, neutra ou o que lhe queiram chamar, está indelevelmente associada ao ideal da igualdade de género, e nele teve origem. Além de gramaticalmente inadmissível, até que ponto não estará este linguajar a prejudicar a causa que se propõe promover? |
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domingo, 9 de janeiro de 2022
Vamos à Bruxa? Que Emoção!
Não existindo, que se saiba, qualquer imagem autenticada e fidedigna de Jesus Cristo, dúvidas não poderão, porém, restar quanto ao facto de a ele se pretender associar a figura representada naquele miserável panfleto em que se publicita os serviços de uma 'famosa senhora de poderes naturais e sobrenaturais', seja lá isso o que for; e, até, 'divinos', o que pouca margem deixa quanto ao propósito de se recorrer a uma alegada e fraudulenta relação com a Divindade cuja imagem é representada no panfleto. Mesmo porque a penúltima linha expressamente a nomeia, numa saudação de paz...
Por outro lado, e não menos surpreendentemente, os médicos parecem conformados com a concorrência ilícita - e contraproducente para aqueles de cuja saúde lhes compete cuidar - por parte de quem chama, aos potenciais pagadores, 'Querido Paciente' e refere, além dos tais poderes, um aprofundamento de conhecimentos, necessariamente na área da saúde, ou não designaria por paciente os incautos que lá irão parar.
Não obstante, e tal como acontece com a passividade eclesiástica, a Ordem dos Médicos parece dedicar às Donas Marias desta terrinha um desprezo altivo, de efeito nenhum no combate a esta variante da banha da cobra de cariz popular.
Note-se que a pessoa em questão - e, como ela, tantas outras... -, não apenas se arroga infalíveis e especialíssimos poderes curativos, como se propõe comercializar, está-se mesmo a ver que mediante a emissão de fatura e recibo, 'poderosos talismãs para si e para a sua casa que lhe darão toda a sorte em menos de quinze dias terá todos os seus problemas resolvidos'.
Atentos os valores astronómicos de que a comunicação social vem dando presumivelmente rigorosa notícia, parece claro estarmos em presença de crimes de burla, alguns deles de valor elevado, para os quais, dada a aparente inércia das autoridades judiciárias e fiscais, talvez a Igreja e a Ordem pudessem ter algum papel relevante ao pressioná-las, se não no interesse das próprias organizações, pelo menos como ato de intervenção cívica elementar nas respetivas áreas de atuação.
- x -
Será que investigar, devidamente, este tipo de crime de colarinho pardacento é considerado pouco meritório por quem com coisas mais mediáticas tem com que se entreter? Serão as Donas Marias e seus equivalentes masculinos - como, com as devidas adaptações, o célebre Padre Gama*) - já tantos, mas tantos, que rapidamente tornariam insuportável a vida nas já sobrelotadas cadeias?
Seria interessante conhecer algumas respostas, já que o problema existe com 'consultas em todo o País', não é uma mistificação.
Agora, a minha vida vai começar a correr mal, cheio que vou ficar de alfinetes espetados num boneco, como mais que merecida e justa retaliação.
* *
Existem, no entanto, certas amplamente disseminadas formas de adivinhação que apresentam, nos fundamentos, alguma base científica e lógica e que, por isso mesmo, são merecedores de um escrutínio atento, da nossa maior atenção.
sábado, 2 de outubro de 2021
Como Gere Deus o Universo?
“Será o Universo a empresa que Deus gere, ou a obra perfeita de um deus
extinto?
Para onde caminha e quem de facto, gere todo este Mundo onde plantaram
Portugal?”
Acabava a população da Ilha de saborear um almoço tranquilo dias depois dos primeiros alertas quanto ao aumento da atividade sísmica, quando a montanha*) começou a cuspir lava e fogo, em poucos dias sepultando pedras, plantas, casas, estradas, ruas, arruinando colheitas, sonhos, expetativas, modos de vida, enfim, tudo quanto, na amostra de uma pequena ilha, tipifica a realidade e o imaginário de qualquer pessoa em qualquer parte do Planeta.
Porquê? Para quê?
Acaso? Absolutamente normal manifestação da Natureza? Ira de um deus
desagradado e vingativo?
- x –
Todavia, tal demonstração da existência, em dado momento, de um Criador –
quiçá numa fração de segundo, na própria origem do tempo – não fornece
qualquer prova da sua persistência, nada diz quanto à possibilidade ou
probabilidade de, nos nossos dias continuar presente.
Assim, a primeira hipótese que, em plena objetividade, devemos formular é a da
eventual extinção - por causas exógenas ou endógenas, abrupta ou num processo
continuado, iniciado e terminado não se sabe quando - dessa formidável e para
nós infinita Razão que tudo terá criado, movida por causas e visando objetivos
que, com toda a probabilidade, por meios humanos jamais nos será dado
conhecer.
Será o Universo a empresa que Deus gere, ou a obra perfeita de um deus
extinto?
No último caso, tudo quanto hoje acontece por causas estranhas à atividade do
Homem dever-se-ia, unicamente, a obra do acaso em que, extinta a divindade, o
Universo teria mergulhado, num percurso lento mas inexorável para o caos
inevitável e imparável, de alguma forma semelhante ao de uma organização
abruptamente privada das suas principais estruturas diretivas.
Não obstante, mesmo no caso da morte do Criador, haveria que considerar
a possibilidade de a Sua Obra ter resultado de tal forma perfeita que, por si
só e pela mera aplicação das leis por Ele definidas, a expansão do Universo
ainda continuasse – como, do ponto físico, a Ciência sustenta que continua -,
e esse processo, em lugar de cair no caos resultante da extinção da Razão
Criadora, eternamente assegurasse um desenvolvimento coerente e sustentável
que, dessa forma, constituiria a maior prova de perfeição da Criação.
Admitamos, no entanto, como pouco provável e, convenhamos, quase risível a
simples ideia de algo ou alguém, seja lá o que ou quem for, detentor de tão
grande poder não ser capaz de assegurar a própria eternidade; ou que, talvez
cansado e desgostoso com o resultado da componente humana da Obra, dela
desistisse, suicidando-se ou, mais prosaicamente, dedicando-se a outra
atividade ou projeto.
Ou terá, de facto, assim sucedido? Será que Deus não criou o Universo apenas
para acomodar a Terra? Terá focado a sua atenção noutras paragens? Será tão
semelhante a nós ou nós a Ele que esteja sujeito à humana propensão à
desistência quando as coisas não correm pelo melhor? Ou por aquilo que por
melhor entende a Humanidade inconsequente?
Tal abandono, qualquer que fosse a forma, poria, diretamente, em causa a própria ideia de perfeição essencial à evolução natural como julgamos conhecê-la e, com ela, poria igualmente em causa a perfeição do Criador.
Não sendo, porém, esta a hipótese mais provável, resta-nos refletir um pouco
sobre as causas destes acontecimentos e, com elas, sobre as das contrariedades
naturais que, com maior ou menor, expressão e impacto, afetam o nosso
quotidiano.
- x –
A primeira premissa a considerar poderá ser a da aparente liberdade de decisão
e de escolha que aos seres humanos é conferida, tal como, no respetivo
habitat, aos restantes animais.
Sugere ela que, contrariando opiniões pouco sustentadas segundo as quais
seríamos vítimas de um determinismo a que jamais conseguiríamos escapar, as
nossas livres opções e consequentes ações servem um propósito específico que
nos não é dado alcançar.
Afigura-se, não obstante, legítimo considerar que, na medida em que, pelo
menos no plano humano, capacidade e liberdade implicam responsabilidade, uma
significativa componente de avaliação do mérito poderá estar associada ao
acervo de comportamentos por cada um empreendido durante o tempo que
conhecemos como tal; e que este pressuposto de créditos acumulados
durante a vida poderá, razoavelmente, conduzir à conclusão de que os efeitos
da avaliação se produzirão depois da morte terrena – já que não consta que, em
vida, deles extraiamos grande recompensa… -, assim se tornando inevitável
reconhecer algum mérito às teorias que sustentam a persistência de alguma
forma de vida após a sua extinção no corpo.
A ser este o caso, e um pouco a exemplo do que acontece em situações de teste
de competências em que alguém gera situações e impactos artificiais visando
testar a qualidade da reação do examinado, as manifestações físicas da
Natureza, a não resultarem da mera aplicação rotineira de leis por nós ainda
desconhecidas ou pouco conhecidas, seriam, afinal, maiores ou menores
violações dessas mesmas leis, desde a rajada súbita que faz voar até um charco
preciosos documentos em papel, até à fantástica e arrasadora erupção de um
aparentemente adormecido vulcão.
Essas contravenções, estas violações das leis naturais, seriam, evidentemente,
empreendidas pelo único com capacidade para delas ser culpado: o
próprio Legislador, o examinador-Criador, já que apenas a ele é dado impor,
modificar, derrogar ou, mesmo revogar, a todo o tempo, os ditames do inicial
ímpeto gerador da Criação.
- x -
Teremos, pois, de aceitar como mais provável a possibilidade de as leis
naturais terem sido originariamente delineadas de forma perfeita, sem
necessidade de quaisquer correções ou adaptações, e de estarmos nós imersos
num planeta e num Universo absolutamente estáveis.
Considerando quão pouco o que dessas leis conhecemos, decorrerão, quer os
desastres, quer as meras contrariedades que diariamente nos acontecem, do
dominante desconhecimento de algo que jamais iremos plenamente conhecer; ou da
imprudência face ao que conhecemos, consubstanciada tanto no facto de não
acondicionarmos devidamente os tais documentos e valores que acabam por ir
parar ao charco, como, por muito cruel que assim dito isto pareça, no de, com
tanto espaço inabitado na Terra, insistirmos em desafiar as leis divinas,
teimando em construir casas e a viver nas faldas de potencialmente mortíferos
vulcões.
- x –
A objeção maior a esta maior probabilidade de validação da hipótese de um
equilíbrio homeostático inabalável, decorrente da vigência de leis naturais
imutáveis e perfeitas resume-se na pergunta: se apenas o Homem causa impactos
suscetíveis de – pelo menos, na Terra e na respetiva atmosfera, arranhando
levemente a estratosfera - interferir no curso normal da Criação, se Deus não
interfere na ordem natural que pensou e implementou, será mera coincidência a
ocorrência daquilo que nos habituámos a considerar o divino favor? Será a
oração inútil? A própria religião?
Não passarão, num tal quadro, os teólogos de alucinados exegetas de teorias
ocas, apenas úteis ao entretenimento das suas ávidas mentes, ao comprazimento
de quem se julga detentor da chave que um dia irá escancarar a porta do cofre
que guarda os divinos mistérios da Criação?
Serão as religiões nada mais do que formas de ocupar, de alienar, de evadir,
de fazer pensar noutra coisa espíritos aterrados perante o pavor do inevitável
termo? Serão elas meras formas ilegítimas de domínio - umas pelo temor, outras
pelo terror – de seres humanos por outros, fundadas na promessa de evitar o
fim aterrador?
Comparado com a aparente serenidade, naturalidade mesmo, dos restantes animais
perante a morte, que demonstração miserável este pavor imenso acaba por ser da
humana pequenez! Se estivermos a ser avaliados, que insensata prova de
incomensurável estupidez!
Como nos poderemos esquivar da distopia a tudo isto subjacente? Que propósito
útil haverá nessa esquiva, se o mérito intrínseco de cada ser humano residir
na capacidade de aceitar e de viver segundo as regras naturais do que seriam
os nossos princípio, meio e fim?
Que gozo nos trará a vida se a busca do conhecimento apenas for legitimada
pela vontade de conhecer as leis da Natureza e de a elas obedecer, em lugar de
aprender a destruir recursos do planeta e a exterminar outros seres? Se, em
lugar da luta fratricida que nos dá aquela sensação de vitória, de sucesso, de
sermos os maiores, o mérito estiver em aprender a viver em paz com o
próximo e em homeostática complacência?
O que será, então, de uma economia quase exclusivamente baseada no consumo se,
em lugar da busca incessante do prazer, repentinamente nos apercebermos do
logro e dermos meia volta rumo à vida retrógrada e sensaborona do
início dos tempos e relativamente à qual, no que toca à matéria e à técnica,
já evoluímos tanto?
- x -
A forma indiferente ao próximo, egocêntrica, como socialmente nos comportamos
demonstra bem que, sobretudo entre a população mais jovem, já muito poucos
acreditam, após as terrenas deambulações e atribulações, no
descanso em paz numa prometida vida eterna.
Que inimaginável caos resultaria, porém, da constatação de que apenas
dependemos de nós e da capacidade de sem limites nos darmos, de aprendermos,
por nós mesmos, a coexistir? De que, na sua teoria e prática atuais, as
religiões a que quase todos se agarram serviriam, afinal, para nada, ou para
quase nada, além da manutenção, pelo temor do castigo, da ordem pública em
quanto os estados não têm capacidade de a assegurar? Da constatação de que, em
muito do que pregam, já nem os mais graduados das hierarquias eclesiais
acreditam?
Em que diferiria esse caos inevitável e manifesto do caos em que bem sabemos
já hoje viverem os espíritos de quem nada vê à sua frente além de um cada vez
mais alto, robusto e intransponível muro de realidades económicas e sociais
degradantes e sem remédio à vista, a não ser pelo inevitável sacrifício dos
bens daqueles que os têm de sobra e deles não querem abdicar, preferindo
deixar o semelhante humilhar-se, definhar, miseravelmente terminar a sua
vida?
Da mesma forma que, além da teimosia e da imprudência humanas, o
desconhecimento da maior parte das leis naturais nos expõe à brutalidade de
alguns dos seus efeitos, o deliberado desconhecimento, por desinteresse, do
nosso semelhante torna-nos alvo da sua luta pela sobrevivência.
Tal como, em La Palma e tantas vezes em tantos outros lugares, a Terra alerta
para o facto de existir e de ser merecedora do nosso respeito, também
populações inteiras de despeitados e perseguidos nos chamam do seu trágico
inferno; ou, reprimidos, se calam, assim avolumando gigantescas tensões
latentes que um dia farão rebentar a crosta: não a terrestre, mas, uma vez
mais, a social, para gáudio dos criadores de vírus mortíferos e dos
fabricantes e vendedores de armamento.
- x -
Terá sido o Deus criador de tudo isto a guiar-nos ou a empurrar-nos até
aqui? Terá o progresso da
espiritualidade e da nossa humanidade acompanhado, proporcionalmente, o da
técnica, o da habilidade política, o da arte de amealhar, de brilhar, de
escarnecer, de espezinhar, de aniquilar?
Poderemos, em nossa defesa, invocar a fatalidade de um suposto determinismo
que nos impede de ser outros, de agir de outra forma? Até quando continuaremos
a desculpar o ataque feroz à Natureza, ao Planeta, à própria Humanidade com
aquilo a que, comodamente, chamos a natureza humana? “Somos assim, o que se há de fazer?”
Pois é bom que haja, e que se encontre depressa o que áde fazer.
Ou será que nem o rebentamento do Cumbre Vieja foi suficientemente forte e
gritante para nos alertar para o que, não por gestão divina mas por
imbecilidade humana, está aí à porta, já que esta ínfima bolinha do imenso
Universo que esse Deus criador concebeu e materializou - e, porventura, ainda
gere - já não aguenta mais impactos de quem ainda se não consciencializou do
facto de, para tudo, dela depender?
Até quando aguentará a Terra a nossa imprudência?
Até quando continuará Deus a acreditar em nós?
- x -
Tê-las-emos em menor ou em maior grau, mas sempre com a possibilidade de, por
via da educação ministrada por terceiros ou mediante o exercício da reflexão a
que a qualidade dos recursos mentais e espirituais de que fomos dotados nos
obrigam, em prol da Humanidade desenvolvermos e ampliarmos essa sabedoria e
essa sensatez.
Somos, também, moralmente obrigados a dispensar a atenção devida, não apenas à
aprendizagem das leis naturais conhecidas e ao desvendar das outras que operam
sem sabermos, mas ao próximo, a quem nos rodeia, a quem, tal como os fenómenos
naturais, a cada momento provoca, em muito maior quantidade, impactos
relevantes na qualidade e na utilidade da vida de cada um de nós.
Serão os nossos enormes problemas comparáveis aos das vítimas de catástrofes como a de La Palma?*) O Benfica perdeu? A nossa discoteca preferida não abriu? A chuva estragou o passeio de amanhã? E que importância tem, afinal, um mero desaire eleitoral?
Para onde caminha e quem de facto, gere todo este Mundo onde plantaram Portugal?
sábado, 18 de setembro de 2021
Esposas: Sede Submissas! Pois...
“A discussão é boa e saudável apenas até ao ponto em que se torna repetitiva
e fastidiosa,
em que se transforma em gritaria que já se não ouve, em
que nenhuma luz consigo traz
que esclareça e nos ajude a viver em
paz”
“Em questões socialmente melindrosas, tão imprudentes se revelam as reações
a quente
baseadas em afloramentos interpretativos à revelia da
razão,
como a razão pobre de uma repetitiva, dogmática, confusa,
rebuscada
e nada convincente interpretação”
2. Como Interpretar?
2.1. Perspetiva Imediatista
2.2. Perspetiva Eclesial
2.3. Perspetiva Histórica
2.4. Perspetiva Teleológica
2.4.1. As Relações Sociais Como Objetivo Primeiro das Cartas
2.4.2. A Motivação Escondida na Polémica Passagem
2.4.3. Alquimia
2.4.4. Valorização
3. Prática Eclesiástica
3.1. Duas Questões de Legitimidade
3.2. A Questão da Utilidade
4. Conclusão
1. O Pomo da Discórdia
Era inevitável, como sempre o é quando, a cada três anos por esta mesma altura, é lida nas celebrações eucarísticas o excerto da Epístola aos Efésios que, literalmente, reza “As mulheres submentam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher (…)”*) (Ef 5:22), tal como em Colocenses 3:18 por outras palavras se diz o mesmo.
Quando, por obra de Deus para uns, para cúmulo do azar para outros, manda o
calendário que este excerto seja lido numa conjuntura em que a questão da
submissão das mulheres domina a cena política e social em virtude da tomada do
poder pelos Talibãs no Afeganistão, inevitável se torna que múltiplas línguas
e penas venham manifestar-se sobre o assunto, embora os estafados argumentos
sejam os de sempre e as palavras pareçam, muitas vezes, provir de cérebros
cristalizados, seja em anquilosadas ideias de tempos há muito passados, seja
em reações emocionadas por parte de quem se sente ultrajado, seja, ainda, em
aproveitamentos políticos ou de mero exibicionismo de quem acha que sempre
fica bem dizer alguma coisa.
2. Como Interpretar?
Variadas são, necessariamente, as perspetivas com que deparamos, diversas as
motivações, embora praticamente inexistentes as fundamentações verdadeiras,
sérias, profundas, que permitam erradicar a emotividade recorrente e
descabida, e aliviar o patente embaraço de quem não consegue explicar.
Sintetizemos, antes de mais, as duas visões tradicionais,
debruçando-nos, então, sobre duas abordagens alternativas que procurarei
fundamentar.
2.1. Perspetiva Imediatista
Escusado será dizer que a primeira e, porventura, única reação natural, nos
dias que correm, à mera ideia de submissão será, inevitavelmente de rejeição,
quer se trate de mulheres, de homens ou de animais de estimação; e é natural
que assim aconteça, dada a profusão de escritos em linguagem críptica
elaborados muitos séculos atrás, de ideias que a forma rebuscada impede muitos
cérebros de encontrar, de manifestações radicais por parte de gente simples
mas de ânimos deliberadamente exaltados por terceiros empenhados em divulgar
mensagens de legitimidade duvidosa, associadas a causas mais ou menos
subversivas que escolheram fomentar e divulgar.
Igualmente irrefletida é a postura daqueles que entendem que submissão
implica, em qualquer caso dominação por outrem, o que, como veremos, não é
inevitavelmente verdade.
No quadro das reações primárias, encontramos, por fim, aqueles que, ignorantes do facto de as leituras das celebrações eucarísticas estarem, pela Igreja Católica, há muito, definidas para datas precisas em ciclos que, de forma automática, se renovam a cada três anos, reagem tolamente, pretendendo que a Igreja não deixou de aproveitar os acontecimentos que, no Afeganistão, ocorreram dias antes para veicular uma mensagem retrógrada e machista,ou que, pelo menos, a coincidência não evitou*).
Parece, assim, generalizada a tendência para uns e outros reagirem
a quente relativamente a um tema delicado, que se quer tratado com o
distanciamento e a lucidez essenciais à evolução de uma ideia até patamares de
sustentação que a permitam credibilizar e sedimentar.
A discussão é boa e saudável apenas até ao ponto em que se torna repetitiva e
fastidiosa, em que se transforma em gritaria que já se não ouve, em que
nenhuma luz consigo traz que esclareça e nos ajude a viver em paz.
2.2. Perspetiva Eclesial
Na Igreja Católica há quem diga que a polémica passagem bíblica pretende significar que a mulher e o homem são um só, pelo que ninguém é superior a quem quer que seja. Mas, como é hábito na Igreja, não fundamenta, não esclarece a razão pela qual, no seu entendimento, haveremos de interpretar as Escrituras precisamente ao contrário do inequívoco sentido das palavras que nelas lemos ou nos chegam aos ouvidos quando lidas no ambão*).
Os bispos portugueses remetem, por sua vez, para o contexto do direito familiar romano que punha em relevo o papel do marido como pater familias, não se apercebendo, porventura, Suas Excelências Reverendíssimas do gritante contrassenso em que tropeça quem sustentar que uma carta dirigida a indivíduos perseguidos pelos Romanos se baseava, precisamente, no direito e na prática impostos pelos mesmos perseguidores: “Tal como os opressores privilegiam o papel do marido fazei-o vós também”?
Como poderia, com tal argumento, um autor pretender pregar eficazmente a libertação pela Fé a partir de uma visão que acabava por, implicitamente, legitimar e, até, advogar a medonha realidade então vivida? (v. 2.3.)
Notoriamente enervado e pouco à vontade num debate televisivo vazio de novos
argumentos ou ideias, diz um simpático e jovial ancião jesuíta que a Igreja
está a mudar na sua forma de encarar as mulheres, mas que muito caminho há,
ainda, a percorrer, limitando-se a sorrir quando confrontado, por exemplo, com
a impossibilidade de ordenação de sacerdotizas. Sustenta, também que no texto
em grego, se lê subordinação, e que o conceito de
submissão agora referido se degradou na nossa cultura.
Mas, em que enriquece isto a discussão?
Não é verdade que subordinação, submissão, o que queiram chamar-lhe, é, e
será sempre, razão mais do que suficiente para pôr os cabelos das mulheres
de hoje em pé - e não apenas os das radicais que se dizem feministas?
O jogo de palavras é aqui inane, baseia-se em suposta erudição, na opinião, no
dogma, atitude tão querida da Igreja e que, uma vez mais apenas evidencia a
falência da patrística e a sua fragilidade perante a manifesta dificuldade de
chegar à verdade das coisas pela via da razão, a única capaz de frutificar no
seio de uma assembleia cada vez mais exigente no que se refere à clareza e à
racionalidade da pregação.
Fala, também, a Igreja do papel preponderante de Saulo de Tarso, chamado São Paulo na promoção da igualdade entre todos os seres humanos, designadamente entre mulheres e homens. Mas, como pode defender-se tal tese se, no mesmo texto e apesar daquilo que reza a saudação, se afirma que não foi o dito Saulo que redigiu a Carta aos Efésios?*) A ser assim, a que propósito vem a associação dessa defesa da igualdade a alguém que, por não ser o autor da Epístola aos Efésios, com tal defesa nada tem a ver?
Absolutamente nada.
2.3. Perspetiva Histórica
Non probandum factum notorium, pelo que, globalmente falando, desnecessário se torna demonstrar a superioridade da capacidade física do homem relativamente à da mulher. É, também, sabido que Gutenberg*) viveu no século XV, só bastante tempo depois tendo o Ocidente começado a saber o que era a impressão em série e o livro de aspeto e divulgação de alguma forma semelhantes aos atuais.
Não será, pois, de admirar que, à data e nas paragens em que, no século I
d.C., terá sido escrita a Carta aos Efésios, o ganha-pão da grande maior parte
das famílias fosse o trabalho braçal, para o qual o homem estava
incomparavelmente mais bem equipado, e que o trabalho intelectual não passasse
de algo tão remoto para a quase totalidade dos mortais, que dele mal se ouvia,
sequer, falar.
O homem andava a trabalhar por fora, confraternizando e trocando impressões -
não apenas no decurso da atividade laboral propriamente dita mas, para muitos
pequenos agricultores e operários por conta própria, ao negociar a compra das
matérias primas e dos utensílios e, mais tarde, a venda do fruto do seu
esforço. À fisicamente menos possante mulher cabia ficar a cuidar da casa e da
prole, limitando, provavelmente, os seus contactos com outras gentes à
tagarelice nas raras vezes em que ia até ao mercado buscar aquilo com que a
terra, o curral ou o galinheiro não abasteciam diretamente a despensa.
O imediato e inevitável efeito desta diferença de papéis ditada pela estrutura
física de cada um, terá, assim, sido a aquisição de mais amplos conhecimentos
pelo homem do que pela mulher, por isso entendendo o autor da Carta aos
Efésios que “o homem é a cabeça da mulher”; e isso, por uma questão das
mais elementares lógica e sensatez, acabaria por legitimar que a palavra dele
fosse mais considerada e prevalente do que a dela, que detinha um ainda muito
mais reduzido acervo de informação que servisse de base às decisões a
tomar.
Esta última parte, meramente em tese, já que tampouco será difícil imaginar os
abusos e desmandos a que um tal quadro não deixaria de convidar pessoas mal
formadas e de instintos descontrolados e perversos. Não obstante, e para o que
aqui nos interessa, esta perspetiva histórica não deverá ser esquecida quando
polémicos trechos textos bíblicos se trata de procurar interpretar.
2.4. Perspetiva Teleológica
Os textos sagrados tendem a ser encarados unicamente como mais ou menos dogmáticas exortações à Fé absoluta e inabalável em Alguém que é porque é, e cuja existência não carece de demonstração – contrariamente ao que aqui já defendi quando procurei, à margem da Fé, tal existência demonstrar.
Assim encarados os textos, não causará espanto a cada vez menor adesão efetiva de fiéis: uma coisa é declarar-se “católico” aos Censos do Instituto Nacional de Estatística(INE)*), enquanto outra, bem diferente, é acreditar; e, sobretudo, praticar, já que, enquanto acreditar tem a ver com Fé, a religião é a prática, assim não passando a declaração de “católico” ao INE, na maior parte dos casos, de uma rematada mentira por parte de quem não pratica o que quer que seja; ou, vá lá, de uma imprecisão motivada por uma generalizada incapacidade de destrinçar conceitos entre católico por vontade própria e o bem mais prosaico batizado por vontade dos progenitores.
Tenha-se a coragem de acrescentar aos inquéritos a pergunta “Participa ou, pelo menos, assiste regularmente a atividades da confissão religiosa a que pertence” e rapidamente os números cairão para escassos dez ou vinte por cento… se tanto. Tal como “são muitos os chamados, mas poucos os escolhidos”, haverá muitos que se dizem crentes, mas muito poucos os que uma religião acabem, efetivamente, por professar e praticar.
Ora, como facilmente se extrai da leitura dos primeiros capítulos, não foge a Carta aos Efésios ao tal objetivo primordial de exortar à Fé. Não é, no entanto, esta a motivação única, sendo possível encontrar numa outra uma possível explicação para a infeliz expressão cuja discussão aqui nos ocupa: “As mulheres submentam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher (…)”.
2.4.1. As Relações Sociais como
Objetivo Primeiro das Cartas
As Epístolas destinavam-se a ser lidas perante a assembleia durante atos de
culto evidentemente destinados a adultos e jovens a caminho da independência.
Não é, na verdade, concebível esperar que mensagens como “Filhos, obedecei a vossos pais” (Ef 6-1) se destinassem a crianças ou a adolescentes de tenra idade
inevitavelmente ausentes do ato de verdadeira temeridade que, em ambiente
fortemente adverso, era a participação nessas proibidas reuniões; e que, além
do mais, não teriam, ainda, maturidade para entender e apreender a essência
daquilo que as Cartas pretenderiam transmitir.
Cumpre, assim, concluir que a dita exortação à obediência filial não visava,
propriamente, a obediência de crianças no ambiente do lar onde, encorajadas
por oportuno corretivo, seriam facilmente impedidas de se portar mal: a
exortação à obediência – essencial à manutenção de um bom ordenamento social
ao qual sempre será essencial o conselho dos mais velhos - tinha como
destinatários os filhos menos jovens e os já adultos, cujo respeito e
obediência não poderiam ser impostos, apenas
promovidos pelo convite e pela
persuasão.
Na mesma linha, se tornaria desnecessária e inane a exortação à submissão das
mulheres se fosse entendido – como agora parece haver quem queira supor – que
ela poderia ser imposta pela força física no seio da família:
àquilo que é imposto pela força, será estúpido e inútil continuar a
convidar.
Aparece, assim, a referência à submissão mais como um convite a um ato maduro,
voluntário e unilateral, por parte da mulher, de aceitação da orientação do
marido, baseada no reconhecimento de um mais lato conhecimento da vida por
parte dele, do que como um supérfluo e inútil convite ao conformismo submisso
com uma situação consumada à qual as consortes não pudessem escapar
Tal como no caso dos conselhos aos filhos mais velhos, essa atitude
recomendada às esposas extravasaria, naturalmente, o comportamento nas
quatro paredes do lar, assim assumindo relevante papel na génese da nova
sociedade que se pretenderia edificar.
Estaríamos, desta forma, na Carta aos Efésios muito mais perante um código de conduta social do que a tratar de normas de relacionamento estritamente familiar.
2.4.2. A Motivação Escondida
na Polémica Passagem
Nenhum país, por mais tirânico, por mais numerosas equipadas e treinadas que
sejam as suas forças militares e de segurança, alguma vez conseguirá fazer
cumprir a lei e manter a ordem a não ser, antes de mais, graças ao temor do
castigo que, numa vida depois da morte - que poucos se atrevem a,
absolutamente, negar - sobre cada um poderá cair no caso de passar a vida
terrena a prevaricar.
As igrejas – por isso mesmo habitualmente ajudadas financeiramente pelos
estados - são, pois, indispensáveis como garante primeiro da estabilidade e da
paz, atuando as referidas forças da ordem como instrumentos de natureza
complementar, já que, sem o temor do que poderá vir depois da morte, não
haveria quem controlasse as forças da ordem nem orçamento do Estado para, em
quantidade suficiente de efetivos, as contratar.
Ora, é, precisamente, do combate a essa dissolução de costumes que a Carta aos Efésios vem ocupar-se, não sendo aceitável a lacuna hermenêutica de qualquer abordagem que a não contemple, sobretudo quando é o próprio Autor que expressamente o declara (Ef 1, 14-19), seja ele quem for.
Juntando a isto o que em 2.4.1 foi dito quanto a serem as relações sociais
aquilo que, com as epistolares exortações, se pretendia normalizar, a ideia de
as mulheres se submeterem às orientações dos maridos e de, como corolário,
estes amarem as suas mulheres parece muito mais provavelmente associada
a uma intenção inequívoca, porquanto tácita, de apelar à fidelidade de
umas e de outros, fidelidade essa já então, como hoje, obviamente
basilar na construção e preservação do modelo estável de sociedade sem o qual
a mensagem cristã será, em qualquer tempo, impossível de vivenciar.
Também a ideia de fidelidade estará na base do pedido de que os maridos
amem as suas mulheres, pedido que faz, aliás, tão pouco sentido como a
promessa de uns e outros se amarem, mutuamente, que é pedida a quem nos nossos
dias se casa. É que, sendo o amor um sentimento, e não um ato de
vontade, não é algo que se possa impor ou pedir, antes uma emanação do
espírito com a qual nenhum humano alguma vez se poderá comprometer: ama-se e
deixa de se amar, sem que tal possa ser entendido como quebra de uma promessa
de cumprimento à partida humanamente impossível de assegurar.
Submetei-vos, amai-vos, ou melhor, sede fiéis no interesse da sociedade que procuramos construir, parece, assim, ser tudo quanto, na rebuscada linguagem litúrgica, Saulo de Tarso ou alguém por ele pretendia transmitir; e vós, todos, “sede submissos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5, 21), ou depressa não vai haver quem tenha mão nisto - como, nos nossos dias, cada vez mais parece que já não há.
2.4.3. Alquimia
O problema que subjaz a toda esta discussão é o de que, como escreveu um
filósofo, psicanalista e sociólogo contemporâneo, “a maior parte das pessoas vê no problema do amor, em primeiro lugar, o
problema de ser amado, e não o problema da própria capacidade de amar”.
Por outras palavras, as pessoas juntam-se, casam-se como um meio para alcançar a própria felicidade, e não para, por amor, tudo fazerem para proporcionar a do outro. Não é que não queiram ver o outro feliz – sobretudo porque é um grande frete viver com alguém que o não é… -, mas querem ver o outro feliz apenas se não tiverem de mexer uma palha para o conseguir.
A alquimia do amor é, bem pelo contrário, a entrega mútua; e é, muito
provavelmente, à submissão, à entrega voluntária de cada um no que diz
especificamente respeito aos sacrifícios, por vezes enormes, a fazer para, em
todas as ocasiões nos mantermos fiéis - como tanto importa ao conjunto
de todos nós - que o autor da Carta aos Efésios se refere ao falar do amor dos
maridos e da submissão das mulheres.
Tudo o mais que se diga poderá fazer tão pouco sentido como pretender que a
Carta diz que uma mulher se deve submeter a um marido que, pela força bruta, a
domina – ou vice-versa… -, ou que alguma igreja ou estado tem o direito de
exigir, a quem quer que seja, que prometa, para sempre, amar alguém.
2.4.4. Valorização
Independentemente do sexo, a valorização do ser humano enquanto tal nasce e
desenvolve-se, não a partir dos atributos físicos, como acontecia com os
maridos ao tempo em que foram escritas as Epístolas, mas do estudo, da
reflexão, do massajar das meninges, seja qual for a área de interesse da
predileção de cada um.
Isto é válido no século XXI, tal como era válido então.
Por tal razão, há que entender que a força bruta dos maridos de então
valorizava-os tanto quanto atualmente mulheres e homens são valorizados pela
exibição patega da riqueza material, da supremacia corporal, dos bíceps
trabalhados, dos glúteos tonificados, dos seios enchumaçados, da última moda
de panos e berloques e da superior capacidade de enfiar uma bola minúscula
numa baliza enorme, à custa de muita pisadela, de muita canelada, de muito
palavrão.
Todos estes atributos e outros como eles não despertam o amor verdadeiro, apenas paixões levianas e efémeras em pessoas a eles sensíveis, depois à infidelidade, à separação, ao divórcio e, no fim da lista, à ainda mais indesejável desestabilização social.
Esses veículos existem nos nossos dias - livros, televisões, redes sociais -,
mas o que por lá se vê tem interesse muitíssimo reduzido ou nenhum para o que,
verdadeiramente, poderá contribuir para as clivagens culturais e os distúrbios
sociais atenuar, num ambiente de dissolução de costumes comparável ao da
antiga Roma.
Coisas estranhas afixadas por cabeças ocas, para as quais apenas conta o que se vê e o que se compra; gente que inunda as redes sociais com historietas das suas também ocas vidas, as quais intelecto e espiritualidade lhes faltam para preencher.
Era o corpo pela força bruta, antigamente; é, agora, o corpo por aquilo que
tem para exibir e que, em lugar de granjear respeito e admiração, apenas serve
para rebaixar quem na montra social diariamente se vai pavonear.
3. Prática Eclesiástica
3.1.
Duas Questões de Legitimidade
Toda esta trapalhada foi motivada, recorde-se, por uma leitura feita no
decorrer de uma celebração eucarística transmitida pela Radiotelevisão
Portuguesa (RTP) – ou a televisão do Estado, como alguns gostam de lhe
chamar.
Não faltou, assim, quem aproveitasse a embalagem para voltar a suscitar a
questão da legitimidade dessas transmissões alegando que são pagas pelos
impostos de todos nós, ao que as vozes da Igreja retorquiram, como
habitualmente, que, sendo a maioria da população católica, existe todo o
direito e, até, o dever de a comprazer.
Sabendo-se, porém, que esta maioria é tão verdadeira como é verdadeira a
declaração de “católico” aos Censos, a argumentação cai pela base, até
porque as igrejas vão estando cada vez mais vazias, e não parece que seja
porque os católicos resolveram ficar em casa a ver a missa pela televisão, em
vez de nela participa - não obstante as audiências que dizem ser relativamente
expressivas, tendo em conta que se trata de Domingo pela manhã.
Pelo menos, até que a exatidão das declarações aos Censos sejam averiguadas e
estes cristãos comecem a ser novamente lançados aos leões, desta
vez por prestarem falsas declarações.
- x –
Uma outra questão de legitimidade não pode deixar de ser aqui abordada, mais
propriamente a da legitimidade de, nos dias de hoje, passar a mensagem que
incita à submissão voluntária e espontânea da mulher perante o marido – o que
é substancialmente diferente de incitar ao domínio arbitrário e imposto do
marido sobre a mulher.
Quanto a este ponto, o que primeiro há a salientar é que, tratando-se de uma atitude voluntária, apenas interessaria à lei na medida em que pudesse, eventualmente, ser contrária aos bons costumes por aquela protegidos. Não sendo, como não é, o caso, nada obsta a que a Igreja se exprima, quanto a esta matéria como mais lhe agradar.
Do que aqui se trata é da polémica decisão de passar uma mensagem incómoda,
maioritariamente condenável na aparência se aplicada à atualidade e não aos
tempos da Carta aos Efésios, mas
que se encontra no âmbito do mais legítimo direito de qualquer organização
definir os pressupostos da sua existência e as normas de conduta que
preconiza ou exige para os seus aderentes.
Estamos, também, muito longe da situação resultante de um forte incómodo causado ao cidadão pelo Estado, face ao qual o único recurso fosse a decisão de emigrar, com todo o transtorno que isso implicaria, quantas vezes não apenas para o próprio, mas também para os seus mais diretos familiares.
No caso de uma igreja, quem não estiver satisfeito com o conteúdo da pregação
ou com a prática pode, num instante, abandoná-la sem qualquer incómodo
semelhante, ainda que remotamente, ao de emigrar.
Resta, pois, concluir que nada obsta, na lei ou na prática social, a que a
Igreja continue a mandar ler o tal trecho socialmente proscrito da Epístola,
tal como nada obsta a que, quem no seio daquela se não sentir bem, sem
qualquer inconveniente vá ouvir outros pregar.
3.2. A Questão da Utilidade
Falta, para terminar, refletir um pouco sobre a utilidade – e sobre a
verdadeira intenção - de ler, perante as assembleias de fieis, algo tão
polémico e retrógrado como estas passagens das Cartas aos Efésios, aos
Colocenses e mais uma ou outra que conste do tal calendário dos três em três
anos que, independente da conjuntura de cada momento, ninguém parece ter poder
para adaptar.
Diga-se, desde já, que a posição episcopal de que “os textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a atualizá-los”*) mais não plasma do que o incompreensível desconhecimento – apenas aparente, claro – por parte da hierarquia da Igreja Católica do baixíssimo nível intelectual, cultural e, sobretudo, do inexistente dom da palavra por parte de grande parte dos sacerdotes por isso mesmo colocados em pontos remotos, em paróquias de aldeia – e não só… -, alongando-se em homilias desmesuradas e desconexas, que já ninguém ouve, chegando a pontos de, quando o sacerdote começa a perorar, alguns fiéis saírem para fumar um cigarrito ou apanhar um pouco de ar, voltando depois.
Serão oradores deste calibre que irão educar os ouvintes ou os
leitores?
Tal pretensão apenas colheria se existisse, na pregação, um nível
uniformemente elevado dos educadores, o que não acontece, como bem se
sabe, assim não fazendo qualquer sentido – para não ir mais longe… - a
referida réplica episcopal.
Por outro lado, a ser o “educam-se” corretamente aplicado na forma reflexa, que capacidade terão para se educar-se, aos próprios, universitários cuja única e remota semelhança com os frutos da universidade pré-Bolonha e pré- outras coisas também parece ser o facto de usarem aquelas vestes negras sem significado que tanto gostam de exibir enquanto aprendem unicamente a empinar e a copiar, relegando os governantes do pelouro da educação para um plano mais do que secundário a vertente educacional e formativa de quem, na maior parte dos casos, em casa a não encontra? De quem nem interpretar sabe nem quer saber o “Filhos, obedecei a vossos pais”?
Ou, mais simplesmente, como alguém num destes debates que por aí houve sintetizou, que “a Igreja olhapara as mulheres como mãe ou virgem”*), revelando-se fundamentais os polémicos trechos de interpretação dúbia Efésios 5:22 e Colocenses 3:18 para, sub-repticiamente, esse entendimento nos levarem a, submissamente, aceitar e defender.
4. Conclusão
Em questões socialmente melindrosas, tão imprudentes se revelam as reações a
quente baseadas em afloramentos interpretativos à revelia da razão, como a
razão pobre de uma repetitiva, oficial, dogmática, confusa, rebuscada e nada
convincente interpretação.
A preponderância do conhecimento por parte do marido decorrente da maior
atividade social de quem, pela força bruta, mais apto se encontrava, naquele
tempo, a assegurar o sustento do lar e a necessidade urgente de normalizar,
designadamente no campo da fidelidade conjugal, os hábitos sociais degradados
da Roma de então poderão servir os referidos requisitos da fundamentação a
ponto de satisfazer intelectualmente boa parte daqueles que sobre o assunto se
questionam. Sobretudo numa sociedade hoje supostamente evoluída mas para a
qual amar cada mais parece ser amar-se, e não ao outro, a quem,
desgraçadamente, até ao divórcio muita coisa ainda se irá ter de aturar.
Da mesma forma que, sem grande incómodo, cada um é livre de decidir se e a que
igreja pretende associar-se, cada confissão religiosa é, necessariamente,
livre de pregar o que muito bem entender e como muito bem entender, desde que
tais ações, ou o seu resultado, ao foro criminal não acabem por
interessar.
Fica, não obstante, por explicar a razão verdadeira para a insistência da Igreja Católica em manter no calendário litúrgico leituras que repugnam logo ao primeiro contacto, a maior parte dos ouvintes, fiéis ou não, sabendo-se que a maior parte dessa maior parte ninguém alguma vez conseguirá, de forma convincente, educar, procurando fazer crer que é tudo a fingir, e que a Igreja acredita em algo bem diferente daquilo em que, manifestamente, mais até do que naquele tempo continua a acreditar.
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Passamos por seres inteligentes, sábios, sensatos, superiores?
Mandam, então, hoje como em qualquer tempo, essa inteligência, essa sabedoria, essa sensatez, essa superioridade, que cada um acate e siga a opinião do outro, mulher ou homem, nas áreas que melhor conhece, que melhor domina, nas áreas em que está mais apto a contribuir para um bom resultado, em lugar de procurar fazer prevalecer a decisão absurda de quem do assunto menos sabe ou nem desconfia, apenas porque é assim, porque um livro para alguns sagrado manda, porque uma religião que poucos praticam insiste em impor.
No casal, na família, na escola, no emprego, em qualquer manifestação social, seja onde for.
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Afinal, Deus existe mesmo, ou não passa de pura invenção de um ser humano que desespera com a efemeridade da sua existência? NÃO PERCA uma reflexão lógica, fundamentada, sobre o tema porventura mais elementar e decisivo da vida humana. |
A existir um deus, será ele o representado
no teto da Capela Sistina? Jeová? Alá? Manitou? Ou nenhum destes? |














