terça-feira, 11 de junho de 2024


Dicionário Alentejano

Abundam, na Internet, páginas intituladas "Dicionário Alentejano", ou coisa que se pareça. Parecem, no entanto, enfermar, umas de uns vícios, outras de outros, outras de uns e de outros.

Encontramos, amiúde, uma manifesta maior preocupação com a quantidade do que com o rigor, a qual gera, pelo menos, as seguintes indesejáveis situações:

  • Inclusão de vocábulos e de expressões que tanto são utilizadas no léxico popular alentejano como no de qualquer outro ponto do País, para não dizer que um pouco por toda a parte. São disto exemplos "apoquentado", "bajolo", "bem falante", "campo da bola", "dar de si", "mana" ou até "dá cá um bacalhau" entre largas centenas, para não falar de termos e expressões brejeiros e, até, alguns da maior vulgaridade, que não passam de manifestações da mais rasteira educação de Norte a Sul de Portugal.

  • Classificação como vocábulos de meras corruptelas, com especial incidência na pronúncia, e erros gramaticais, como "caféi", "emaili", "irmões", "nôti", "odepois", "pêxe" e outros que tais.

Trata-se, ainda, na maior parte dos casos, de listas de palavras e expressões, sem qualquer enquadramento ou exemplos de aplicação.

Ora, o que aqui se propõe também jamais será, evidentemente, um documento perfeito. É, antes, um esforço de coleção de vocábulos exclusivamente alentejanos ou utilizados com significado exclusivo do Alentejo, independentemente das terras em que são utilizados, ilustrados, sempre que possível, com exemplos práticos de aplicação na linguagem falada (entre aspas), ou com notas quanto ao significado ou à aplicação.

Também não será, alguma vez, um trabalho "completo", antes um documento em permanente evolução.

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Os termos e expressões foram recolhidos diretamente, ficando a questão da exclusividade alentejana e do rigor sob qualquer outro aspeto sujeitos à generosa validação do Leitor, para o que poderá utilizar o espaço de comentários, referindo, por exemplo, outras regiões portuguesas em que o tenha ouvido utilizar.

Ao Leitor não anónimo deixo, ainda, o pedido de enriquecimento com palavras ou expressões por si ouvidas no Alentejo, e que cuja exclusividade alentejana possa garantir.



D I C I O N Á R I O

Vocábulo ou ExpressãoSignificadoExemplos e Notas
ACasa, loja, oficina, local de trabalho, proximidade"Fui à dele". "Fui à de si". "Assim que eu chego, o cão vem logo cá à de mim"
À brutaMuito"Diverti-me à bruta!"
Abaixar-seDefecar"Quando os pais da gente eram pobres, era naquele canto que a gente se abaixava"
AbalarPartir, ir"A camioneta já abalou"
AjuntoAjuntamento-
AlpenduradaAlpendreIndependentemente da dimensão
AmanharAjeitar, comporAmanha-se, entre outros, um canteiro ou uma divisão da casa
Amiudar-seArranjar-se, maquilhar-se"Estava eu a amiudar-me, quando ele chegou"
AneximAlcunha-
AporcalhadoCom muitos enchidos e gorduras"Fomos comer uma couve bem aporcalhada"
ArranhadoFanático"É arranhado do Sporting!"
ArrojarArrastar"Aquela porta está a arrojar no chão"
AssomarEspreitar, aproximar"Assome-se lá aqui ao pé de mim"
AtabefeAlmece-
AventarAtirar"Avente lá isso para cá". "Isso é para aventar (para o lixo)".
BalseiroPreguiçoso, negligente-
BanquinhaMesa de cabeceiraTambém se utiliza 'banquinha de cabeceira'
BarrascoPorcov.'marrã'
BrandoMacio, fresco"Essa massa ainda está branda". "A terra está branda". v.'bruto'
BrinholFarturaBolo de azeite e farinha
BrutoDuro, rijo, zangado"O calor vai bruto". "Ficou bruto comigo" v.'brando'
CapachoGaspachoPor vezes, quando utilizado numa variante em que as diversas componentes são servidas à parte e mergulhadas, à mesa, no caldo
CarneForça de braços"É preciso carne para levantar esta pedra"
Carne cheiaEnchidos-
ChaboqueirãoPoço tosco, inacabado-
ChaparroSobreiro de pouca idade-
CortoCortadoUtiliza-se a forma caída em desuso do adjetivo (v. no Mosaicos 'Limpo ou Limpado'. "A carne já está corta"
CriadorViveiro"Joguei a semente toda num criador"
CurriolEspécie de erva invasora"O curriol vai bruto, este ano!"
Dar andamentoDespachar, acabar"Estava ardendo que aquilo desse andamento para me vir embora"
De rijoO m.q. "Á bruta"-"Chorou de rijo"
DerrochadoExtenuado"Tenho andado que me tenho derrochado"
DestarpalharDessarumar-
DizerFicar bem ou mal"Vamos lá ver o que é que ele (o material, o equipamento) diz", ou seja, "se fica bem assim". Utilizado em cozinhados, montagens, reparações, por exemplo.
EngenhoMotor"Avariou-se-me o engenho"
EnguiçarAborrecer"O que mais me enguiça é ter de fazer isto"
EscolherPerseguir"Até parece que me andam a escolher!"
EscôpaloEscopro-
EsmartuçadoDeteriorado, estragado"Aquela cadeira já está toda esmartuçada"
EsmilharEsfarelar, desfazer"Cuidado que o reboco pode esmilhar!"
EsparvalhadoEnlouquecido, alucinado-
FeiticeiraEspécie de borboletaPequena, castanha
Fazer malAtrapalhar"Estou-lhe a fazer mal?"
GanhãoTrabalhador agrícolaHabitualmente, pago à jorna; jornaleiro
Ganir à volta do coretoQueixar-se"Esta também não tem muito que ganir à volta do coreto!"
GarganeiroAmbicioso"A filha dele é muito garganeira"
Lá alémAli"O carro dela é aquele lá além"
LagariceLamaçal"Isto aqui está uma lagarice!"
LonjuraDistância-
MaresiaOrvalho"Ontem caiu muita maresia"
MarrãPorcaPorca pequena que já deixou de mamar (v. 'barrasco')
MatuloAlto, saliência"Se pintar por cima deste matulo fica-se a ver a diferença" (no reboco)
MimosoMimado, que gosta de carícias"É um gato muito mimoso"
MoitãoGrande quantidade"Jogou para aqui um moitão de pedras" (mais utilizado com materiais) v. 'remessa'
MonturoMonte"Há ali um monturo de lenha"
NotíciaPerceção"Não dei notícia da trovoada"
PescoçoNada"Isso não quer dizer pescoço"
PezinhoAcabamento fino da pintura, habitualmente junto ao chão ou no rodapé"Falta ainda fazer o pezinho"
PoejinhoHortelã da ribeiraTambém 'poejo do Guadiana'
PolvoróPolvorosa"Andava tudo num polvoró"
RecadoRalhete, reprimenda"Lá me vai a cliente dar um recado..."
RemessaGrande quantidade"Foi-me lá levar uma remessa delas" (mais utilizado com substantivos abstratos ex: uma remessa de casos) v. 'moitão'
SarriscaBrita-
Sopa depois do almoçoAto inútil ou vão"Desculpas, são sopa depois do almoço"
TitaradaTralha, confusão"Tenho de arrumar esta titarada"
Trazer paciênciaTer paciência"Eu, naquele dia, nem trazia paciência"
VasculhoVassoura de urze para varrer a eira, o cimentoO m.q. 'canheiro' noutras regiões
Ver deTratar de"Bem, vou ver do almoço" ou "vou ver dele"
VirotadaVezada"Fiz aquilo tudo de uma virotada"
ZambrinoBamboleante, instável"Aquela escada é muito zambrina"
ZorraRaposa-

Deixo, por fim, ao Leitor o cuidado de interpretar esta pérola que, na fila para a caixa de um supermercado alentejano, ouvi a um velhote como eu:

"Isso era quando eu e a minha Mulher tínhamos vontade!  Agora, ela quer é lonjura!"

sexta-feira, 29 de março de 2024


Tripolarização

Tal como sucede com muitos supostos neologismos que não passam, em boa verdade, de mais ou menos graves degenerações da língua portuguesa, aqui o erro é crasso e evidente, embora ninguém pareça preocupar-se muito com o assunto.

"Polo" é cada uma das duas (únicas!) extremidades, necessariamente opostas, do eixo imaginário da Terra.

"Polo" pode também ser, extensivamente, cada uma das duas extremidades opostas de um magnete, ou, em sentido figurado, qualquer dos elementos de um conjunto de duas realidades opostas entre si.

Claro que "polo" também pode ser - vá-se lá saber porquê... - cada um dos terminais de um acumulador elétrico, um desporto, uma peça de vestuário ou um modelo de uma popular marca de automóveis: mas não no sentido em que os supostos criadores da "tripolarização" o entendem, que é o único que interessa aqui.

Do que antecede, extrai-se, antes de mais, que os polos são, sempre, dois, o que conduz a também duas conclusões:

  • primeira: o amplamente dicionarizado termo "bipolarização" contém evidente redundância, pois, sendo os polos sempre dois, bastaria falar de "polarização" para qua a dualidade ficasse perfeitamente estabelecida, assim se mostrando, no contexto, o prefixo "bi" absolutamente inoperante e, como tal, indesejável;
  • segunda: a felizmente ainda não dicionarizada "tripolarização", em sentido próprio, que aqui nos traz - ou seja, a existência de três extremos, supostamente opostos entre si - não passa de uma impossibilidade material inopinadamente introduzida pelo prefixo "tri".

Há que mencionar, no entanto, a existência do termo "tripolar", também impropriamente utilizado, por exemplo, em física ou em psicologia, referindo-se, não a uma verdadeira polaridade, mas à mera diversidade, à margem da ideia de oposição, o que tampouco é admissível.

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Esta infeliz ideia da "tripolarização" política teve origem no ganho de preponderância de um pequeno partido quando da eleição legislativa portuguesa de Março de 2024, a qual lhe deu algum peso efetivo na contabilidade parlamentar. Terá, desta forma, deixado de existir, como até então acontecia, um quadro com dois partidos dominantes, para, ainda que forçando um pouco as coisas, se passar a poder falar de um trio.

Todavia, nem no anterior cenário parlamentar português a utilização do termo "polarização" - ou "bipolarização", se insistirem na redundância - faria qualquer sentido, dado que os tais dois maiores partidos se posicionavam no centro do espetro político, e não nas extremidades, como é pressuposto de uma polarização.

Ponhamos, assim, um freio à criatividade destemperada, absurda, geradora de neologismos chabouqueiros que a mais não levam do que à inapropriada "evolução" do português, e fiquemo-nos pelo "bipartidarismo", ou pelo "tripartidarismo". Ou, até, pelo "tetrapartidarismo" e por aí fora, que, dominantes ou não, sempre poderá haver tantos partidos quantos quisermos em democracia.

Polos, extremos opostos, é que não.