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sábado, 17 de abril de 2021


As Portuguesas e os Portugueses

"A gramática destina-se a fazer com que cada um entenda o que o outro está a querer dizer-lhe;
e o que diz a linguagem pseudo-inclusiva - mas, na verdade, divisionista - é que
existem dois tipos bem distintos de seres humanos, e não um único e indiviso,
ao qual uma regra manda referir, no plural, como  portugueses,
como a consulta da mais elementar gramática rapidamente esclarecerá"


   1. Perdeu-se a Noção do Ridículo
   2. Partidos Mendicantes Apoiam a Violação das Normas Constitucionais por Desnorteados Radicais
   3. A Gramática como Instrumento de Manipulação Política


1. Perdeu-se a Noção do Ridículo

...ou, para observar a regra da cortesia, “os portugueses e as portuguesas”, se for uma senhora a falar.

Quem se dedica à causa das animaizinhas e dos animaizinhos, não deverá, também, esquecer-se de dizer “as gatas e os gatos”, “as cadelas e os cães” e por aí fora, não vão as fêmeas dessas espécies achar que nos esquecemos delas; ou as donas e os donos das ditas fêmeas assim pensar;  e quando temos um aquário cheio de peixas e de peixes… o corretor ortográfico queixa-se com um impiedoso sublinhado encarnado.

Como, decididamente, nada disto vem de uma generalizada ignorância da gramática – designadamente por parte da Exmª Linguista que coordena um dos partidos que mais insistem nesta coisa -, todas estas alusões específicas aos elementos femininos não passam, desde a primeira que escrevi, de uma redundância patetoide e deliberada, apenas explicável como tentativa de manipulação comunicacional dos ânimos com o fim exclusivo e popularucho de angariar, quando muito, mais um punhado de votos junto de ingénuas apaixonadas e de ingénuos apaixonados por causas que não chegam a sê-lo, ou de almas hipersensíveis ao politicamente correto a ponto de se embevecerem com coisas destas.

A linguagem neutra em português não é arrimada na gramática, que sustenta, como bem se sabe, que o plural de um conjunto – ainda que parcialmente enumerado – se forma no masculino sempre que, pelo menos, um elemento deste género o integre.  Isto não é discriminação, não é sexismo, não é política: é gramática pura e dura*); e não é a política, mas a gramática, que deve determinar a nossa forma de escrever e de falar.

Não deixa, outrossim, de ser disparatado que esta forma rebuscada e bacoca de gastar mais tinta com descabidas redundâncias provenha, se a memória me não trai, da metade esquerda da bancada parlamentar, na qual tem assento, entre outros, o partido que teve, como destacado militante, o iluminado ser que promoveu e fez aprovar a patetice ortográfica vigente*), cuja única virtualidade parece ser, paradoxalmente, a de economizar uns quantos caracteres de tinta – boa parte dos quais indispensável à boa leitura e à compreensão do que se lê - que, aqui e ali, por artificiosa síncope, se foi tratando de amputar, diligência essa que a manipulada e estafada verborreia feminista de agora, obrigando-nos a gastar mais tinta, vem contrariar.

Como sou exagerado, dei comigo a pensar por que razão não teria o Hino Nacional*)sido, ainda, alterado em consonância com a nova moda: “Heroínas e heróis do mar” e por aí fora, assim irremediavelmente arruinando a métrica - e obrigando, mesmo, a escolher outra música, já que o Autor*) da atual não está entre nós para a poder alterar.  Heroínas e heróis”, “as tuas egrégias avós e os teus egrégios avôs”, quando fosse cantado por elementos masculinos; o inverso quando fosse cantado por elementos femininos e, num coro… a confusão generalizada. 

Lá acabei por concluir que a ideia era parva, quanto mais não fosse porque as egrégias avós não andavam embarcadas em cascas de noz*), privilégio esse então reservado às também egrégias – e heróicas - caras metades.

Convenhamos que, além de gramaticalmente incorreto, “portuguesas e portugueses” se apresenta excessivo na leitura.  No entanto, na linguagem falada de umas quantas políticas e de uns quantos políticos que não se importem de alardear chã ignorância a troco de um poucochinho de popularidade acrescida junto de setores mais permeáveis ao discurso demagógico…  por que não?  Até se faz, por aí, figuras bem piores, como aquela pirosice do Cartão de Cidadania*).  Ou deveria ser Cartona de Cidadã e Cartão de Cidadão?  Ou talvez a solução esteja na gíria das redes sociais*):  Cart@o de Cidad@o?  Sim, o @ não admite – ainda – o til.  É pena…

Já agora: como se lê est@ cois@?

Vendo bem, “Portuguesas e portugueses” poderá não ser, gramaticalmente, um pecado capital.  Mas onde, em qualquer ortografia do Mundo – mesmo naquela idiotice do acordo ortográfico – encontramos portugues@s, a não ser na linguagem abstrusa daquela cena das redes sociais?  Que tal, então, a ideia também abstrusa de substituir Direitos do Homem por Direitos Humanos?  O que muda, neste caso, se a raiz homo da nova palavra é a mesma da anterior?  Talvez Direitos Mulieranos e Humanos, então?

Se anthropos, em grego, significa homem, que nome irão dar, a partir de agora, à antropologia?

Mas anda tudo doido, afinal?

A propósito: já alguém ouviu um desses defensores desta desgraçada coisa dirigir-se-nos de viva vós dizendo "Cares Portugueses"? Ou espera-se que o ridículo seja só para nós?


2. Partidos Mendicantes Apoiam a Violação das Normas Constitucionais por Desnorteados Radicais

À míngua de resultados eleitorais dignos desse nome por parte da amálgama de movimentos radicais de esquerda, talvez toda esta antigramatical trapalhada acabe por captar mais uma meia dúzia de votos junto de quem mobiliza boa parte dos neurónios que lhe restam a magicar o que irá tirar da despensa para, ao magro salário, poder surripiar aqueles preciosos dez por cento indispensavelmente destinados à rotina quinzenal de nail art*)- em inglês, para sermos chic como gostam.

O problema com as radicais e com os radicais é serem obrigadas e obrigados a defender até ao fim determinada construção intelectual erigida em torno de um certo ideal ao qual sacrificaram toda a sua energia e, por vezes, toda a vida.  Não podem ceder um milímetro que seja, pois, fazer perigar essa construção, questionar esse ideal, seria, para elas e para eles, o mesmo que questionar a utilidade da sua própria existência; e há quem pense que não há maiores radicais do que as idealistas e os idealistas, principalmente as e os que defendem as minorias contra as maiorias.

Ocorre, porém, que as mulheres não são uma minoria*).  Bem pelo contrário:  são, em Portugal, uma – embora ligeira – maioria; e acontece, também, que os indivíduos de um sexo dizerem mal dos do outro é prática habitual desde tempos imemoriais, por mera picardia e sem que algum prejuízo sério seja conhecido como decorrente dessa prática.  Ademais, sendo este maldizer próprio, quer das mulheres, quer dos homens, ao não se intrometer está o Estado Português simplesmente a dar cumprimento à alínea h) do artigo 9º da Constituição*), que o obriga a “promover a igualdade entre homens e mulheres”.

Entre parênteses, direi que, como tantas outras, esta disposição constitucional corre sério risco de ser considerada, em si mesma, discriminatória, uma vez que refere primeiro os homens e só depois as mulheres.  Haverá, assim, que rever e substituir este discriminatório preceito machista por “promover a igualdade entre @s portugues@s de ambos os sexos” - fazemos figura de parvos em tantas coisas que, mais uma, menos uma, a ninguém fará grande impressão.

Fechando os parênteses, e com o devido respeito, aquilo que diz a Constituição japonesa interessa-me tão pouco como o que diz a Constituição portuguesa poderá interessar ao japonês médio.  Mas já me interessa, e muito, que algumas portuguesas e alguns portugueses achem muito bem que, semanas atrás, o Presidente do Comité Olímpico Japonês tenha sido forçado a demitir-se*), nada mais, nada menos, do que por ter dito mal das mulheres – por, na sua opinião, tenderem a retardar o andamento dos trabalhos ao falar bastante mais do que os colegas homens, nas reuniões.

Por alguma razão que desconheço, é verdade que a Constituição da República Portuguesa não reconhece, expressamente, a liberdade de expressão individual, a qual parece ser prerrogativa exclusiva da comunicação. Não obstante, o seu artigo 16º é bem claro ao dispor que “os direitos fundamentais consagrados na Constituição não excluem quaisquer outros constantes das leis e das regras aplicáveis de direito internacional”, e que “os preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados e integrados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem*).

Por força do mesmo artigo 16º é, assim, aplicável o que diz o artigo 19º da Declaração Universal: “Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão”.

O n.º 2 do artigo 13º da Constituição portuguesa impõe que “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão (…) do sexo (…)”.  Conjugado com quanto antecede, quer isto dizer que nem as mulheres podem ser impedidas de dizer mal dos homens, nem os homens podem ser impedidos de dizer mal das mulheres.

Pretender que não se pode opinar livremente acerca das mulheres é desmerecer a nobre motivação e a corajosa atuação dos movimentos feministas*), nascidos para promover a igualdade de direitos entre os sexos e para pôr cobro aos maus-tratos de que eram vítimas as mulheres; não, decididamente, para fomentar a coscuvilhice e o diz que disse, e muito menos para coartar o direito de expressão dos masculinos.

O Mundo foi criado por um homem ou por uma mulher?  Criador masculino ou Criadora feminina?  Embora, com esta parvoíce linguística supostamente feminista, passem o tempo a discutir o sexo dos anjos, uma tal sandice parece que ainda ninguém se lembrou de suscitar…


3. A Gramática como Instrumento de Manipulação Política

A gramática destina-se a fazer com que cada um entenda o que o outro está a querer dizer-lhe; e o que diz a linguagem pseudo-inclusiva - mas, na verdade, divisionista*)- é que existem dois tipos bem distintos de seres humanos, e não um único e indiviso, ao qual uma regra manda referir, no plural, como  portugueses, como a consulta da mais elementar gramática rapidamente esclarecerá.

Os excessos só levam a afastar cada vez mais as pessoas umas das outras: a que olhem umas para as outras como um incómodo, ou como alguém de menor capacidade que se tem de, como se de crianças se tratasse, olhar com carinho e proteger. A vitimização desrazoável e descabida equivale a um autêntico atestado de menoridade passado, paradoxalmente, por quem pugna por se libertar – ou, mais propriamente, por se evidenciar – com a preciosa ajuda das revistas que, para fomentar a igualdade e o equilíbrio, publicam artigos sob o título “As 100 Mulheres Mais Poderosas do País*).

Mas não tem, mesmo, esta gente coisas mais interessantes com que se entreter, coisas verdadeiramente importantes a tratar?  Têm, mesmo, de perder tempo a assassinar a sangue-frio a língua que falamos, numa terra onde tanto se fala e, havendo tanto para fazer, tão pouco se faz?

Só não discriminando garantimos que os outros se não sintam discriminados: não, mediante a utilização de uma assim chamada linguagem inclusiva,  cujo primeiro e imediato efeito é, paradoxal e inevitavelmente, nada mais, nada menos do que lembrar constantemente ao discriminado que, efetivamente o é, que contra ele existe discriminação.  Não passa, assim, de tremendo e oportunista disparate, esta linguagem inclusiva, esta politiquice primária, parola e... contraproducente.

Agora, muito à séria (que horror!) e muito a sério…

Escreveu um filósofo suíço do século XVIII que “no que têm de comum, ambos os sexos são iguais; no que têm de diferente, não são comparáveis*).

Ora, além de ser manifesto erro tratar como igual o que é tão diferente como as Portuguesas e os Portugueses, perante tão flagrante ausência de argumentação válida querer mudar, através da forma de nos exprimirmos - a assim chamada linguagem inclusiva -, o que vai nas cabeças das eleitoras e dos eleitores afigura-se caminho bem pobre, muito redutor, de duvidosa eficácia, quase subversivo, até;  sobretudo na cabeça das eleitoras prospetivas e dos eleitores prospetivos, assim se deseducando a juventude na direção pretendida por umas quantas e por uns quantos… poucas e poucos, esperemos.

Nada disto passa, evidentemente, de uma forma sinuosa mas despudorada de manipulação dos espíritos, mediante a inversão da tendência natural e saudável para ser a língua a acompanhar, a par e passo, a evolução da cultura e das mentes, como quase sempre aconteceu e penso que, no respeito pelos princípios e pelas regras gramaticais, deveria continuar a acontecer.

Ou será que, perante a generalizada resistência à mudança, não passará toda esta fantochada do canto do cisne, do grito de desespero de quem cada vez encontra menos eco para a sua deriva para os temas fraturantes, num derradeiro e patético atirar de poeira aos olhos das menos esclarecidas e dos menos esclarecidos, das menos sensatas e dos menos sensatos, impondo-lhes expressões inventadas à revelia da gramática e que, com a realidade, pouca ou nenhuma correspondência acabam por ter?

Mudar o Mundo é difícil, mas mais difícil ainda sempre será tirar a derradeira tábua de salvação da mão de um político prestes a afundar-se.  Ou de uma política.

Convém, não entanto, que as políticas desesperadas e os políticos desesperados não esqueçam aquilo que, apesar de tudo, boa parte dos seres humanos ainda sabe: que uma mulher que se comporta como um homem tem, para um homem, tanto interesse quanto para uma mulher tem interesse… um homem que se comporta como uma mulher.

Portuguesas e portuguesas significa que existem mulheres e homens; e que não são iguais.

sábado, 20 de fevereiro de 2021


Vende-se ou Vendem-se?

A resposta é "Vende-se casas",
não apenas como manda o imperativo de evitar a desambiguação mas,
sobretudo, por ser esta, por dedução lógica, a correta formulação gramatical



   1. Casos de Ambiguidade Semântica

   2. Uma Possível Origem da Confusão
ref
   3. Comentários à Fundamentação Encontrada
       3.1. Ao Argumento do "Soa Melhor"
       3.2. Ao Argumento do Exemplo de Autores de Séculos Há Muito Passados
       3.3. Ao Argumento da "Cópia do Francês"
       3.4. Ao Argumento do "Reforço da Ideia de Pluralidade"
       3.5. Ao Argumento de Terem o Mesmo Significado a Voz Ativa e a Voz Passiva
       3.6. À Classificação da Voz Ativa como "Voz Passiva Sintética"
       3.7. Ao Argumento da "Regência de Preposição"

   4. Em Jeito de Conclusão

   5. Proposta

1. Casos de Ambiguidade Semântica

Casos de Ambiguidade
Comecemos por ilustrar com o cenário imaginado de, na margem de uma pequena lagoa, existir uma tabuleta com os dizeres “Aqui lavam-se cães”.

O que significa isto? O que quer transmitir-nos quem aquilo ali escreveu?

Se seguirmos a lusitana propensão para nos escusarmos a refletir, recorrendo à mais elementar lógica, sobre estas coisas da língua falada e escrita, seremos livres de entender como bem nos aprouver o que a tabuleta reza… e seremos livres de cair no erro ao interpretá-lo, também.

No entanto, se preferirmos a precisão e a clareza, leremos “Aqui lavam-se cães” como um aviso para não nos banharmos naquele lago porque os simpáticos animaizinhos têm o hábito de ali se lavar… cada um por si ou uns aos outros.
Inversamente, se nos identificarmos com o que parece ser a tendência cada vez mais generalizada para, mesmo com o verbo no plural, considerar o se, não como pronome reflexo, mas como pronome indefinido - ou, como se habituaram a chamar-lhe, partícula apassivante, partícula apassivadora ou pronome apassivante - quem escreveu “Aqui lavam-se cães” terá podido querer dizer que alguém ali costuma lavar os cachorros, ou que alguém ali presta esse serviço.

O que daqui importa reter é que, se considerarmos aceitáveis ambas as formas, se Tanto faz! , ser-nos-á impossível conhecer a intenção de quem escreveu “Aqui lavam-se cães”, uma vez que deixaremos caminho aberto a qualquer das interpretações: que, a eles próprios, os cães se lavam ali, ou que lá os lava alguém.

- x -

Imaginemos, agora, uma sala nas instalações de uma fábrica cuja atividade produtiva represente especial risco para a integridade física de quantos lá trabalham.

Durante a apresentação a um visitante, o guia informa: “Nesta sala, tratam-se os trabalhadores”, querendo transmitir que, quando algum se fere, ali vai tratar-se - a si próprio -  recorrendo, por exemplo, à caixa de primeiros socorros disponível na sala. No entanto, a aceitarmos ambas as interpretações acima enunciadas, também esta frase poderia tornar-se ambígua, na medida em que poderia significar que algum trabalhador com conhecimentos na área da saúde à mesma sala acederia sempre que necessário, a fim de tratar, não as próprias feridas, mas as de colegas que se lesionassem, uma vez mais se gerando a confusão entre o reflexo e o indefinido, entre o próprio ou alguém por ele.

Lista de Palavras
Anexa a este texto existe uma listagem que, apesar de incompleta, contém dezenas de situações de ambiguidade possíveis, como  o caso de uma escola que publicite “Aqui formam-se profissionais competentes e qualificados", pretendendo focar o esforço e o brio dos seus alunos.  Ora, a admitirmos a utilização do verbo no plural, poderia a escola, recorrendo à mesma frase, estar afinal a pretender elogiar, não o empenho dos alunos na própria formação - forma reflexa -, mas o esforço de professores não nomeados, indefinidos, para a formação daqueles.

- x -

Este risco sério de ambiguidade semântica ocorre, na voz ativa, em presença de verbos reflexivos correspondentes a ações que possam ser praticadas por uma pluralidade de pessoas ou de animais tendo como objeto os próprios ou idênticos a eles (se como pronome reflexo ou recíproco), sempre que essas ações forem também materialmente suscetíveis de ser sobre eles desencadeadas por um ou por vários terceiros indefinidos (se como pronome indefinido, a tal partícula apassivante que a alguns alunos tanta confusão faz, e bem).

Nos três exemplos acima, a dúvida quanto à real intenção dos autores das frases apenas poderá ser afastada se, para significar que alguém lava cães na lagoa, se anunciar, no singular, “Aqui lava-se cães”, e não "Aqui lavam-se cães"; se se utilizar “Nesta sala trata-se trabalhadores” para dizer que alguém trata os trabalhadores, em lugar de se tratarem eles; e se a escola publicitar: “Aqui forma-se profissionais competentes e qualificados” referindo-se à atividade docente e formam-se - a si mesmos - para a discente.

Estar-se-á, desta forma, a referir sempre com o verbo no singular a ação empreendida por alguém indefinido sobre um qualquer objeto, seja este singular ou plural, ficando as formas plurais lavam-se, formam-se e tratam-se reservadas para quando a ação de lavar, formar ou tratar for desencadeada, sobre os próprios ou reciprocamente, por vários animais ou pessoas atuando como sujeitos.

Com o verbo no plural, se opera como pronome reflexo, significando os próprios. Com o verbo no singular, se opera como pronome indefinido, significando outrem, alguém.

- x -

Um último exemplo, que recentemente encontrei: entende um dirigente de topo de um partido português que “só devem ser vacinados os deputados que se consideram vitais”. Mas consideram-se eles vitais a si mesmos, uns aos outros, ou refere-se o dirigente àqueles que se considera – ou seja, que alguém exterior ao conjunto dos deputados considera - vitais ?

Eis, pois, definitivamente, estabelecida a confusão e instalada, por via do facilitismo, a ambiguidade semântica - e não apenas a sintática, como alguns pretendem -, e explanada a razão desta reflexão.

2. Uma Possível Origem da Confusão

Origem da Confusão
Além do reflexivo ou recíproco vendem-se e do indefinido vende-se, existe uma terceira construção que, por utilizar o verbo no plural, poderá ter dado origem à forma incorreta vendem-se pretendendo significar que alguém, que não os próprios, vende. Trata-se do mais simples vendem, significando, na voz ativa e com sujeito também indeterminado, que há pessoas que vendem.

Encontramos esta formulação em expressões como "vendem por aí casas boas e baratas", também no sentido de que há quem por aí venda casas boas e baratas. Ou seja: existe uma forma do verbo no plural da terceira pessoa que, é verdade, exprime, de forma gramaticalmente correta, a ideia de que alguém age sobre as casas, vendendo-as.

Note-se que esta terceira forma tem, relativamente ao degenerado vendem-se, a única diferença de não incluir o se - seja lá como for que queiramos classificá-lo.

Porventura por, dada a inexistente diferença de significado entre eles, ter havido quem confundisse este vendem com o seu sinónimo vende-se, terá a forma vendem acabado por degenerar em vendem-se, não por tal corresponder a um aperfeiçoamento lógico, racional, criterioso do idioma, mas apenas por facilitismo, por se haver abdicado de pensar nestas coisas da língua e assumido, erroneamente, que, afinal...  Tanto faz! 

Não encontrei qualquer referência à razão pela qual terá sido inventada a designação partícula apassivante para algo que, com o verbo no singular, não passa, afinal, de um pronome indefinido, classificação bem mais adequada a este se que, muito simplesmente, faz as vezes do indiscutível pronome indefinido alguém. Penso, no entanto, que o assunto é relevante e digno de consideração, se quisermos ficar com uma ideia abrangente sobre a problemática em discussão.

3. Comentários à Fundamentação Encontrada

3.1. Ao Argumento do "Soa Melhor"

Encontrei, por essa Internet, quem diga que há linguistas que preferem a forma vendem-se casas - e outras coisas que a si próprias ou umas às outras não podem ser vendidas - porque soa melhor, ou porque subjaz uma suposta intenção estilística de valorizar a ação, e não o agente*).

Ondas do Mar
Sempre com o devido respeito, a estes direi que, no momento em que linguistas começarem a defender determinada formulação gramatical fundamentando em meras questões de estilo ou no facto de soar melhor, toda a teoria se terá esfumado no ar, a gramática terá perdido as suas regras - que, a partir de então, poderão ser ignoradas e violadas ad libitum - e sido transformada em não mais do que um registo histórico de uma evolução anárquica dos idiomas. Terá, nesse dia, o chamado ensino do Português nas escolas passado a ser olhado como o ato de, simplesmente, impingir matéria para tortura, tédio e perda de tempo de mestres e alunos.

A Língua Portuguesa está, como qualquer idioma vivo, em constante transformação, tal como os seres humanos que a criaram e desenvolveram o estão; mas, tal como os seres humanos, está, também ela, sujeita a regras, a leis, cuja inobservância sistemática - em nome de uma suposta liberdade, criatividade ou o que queiram chamar-lhe - a nada mais conduzirá do que à perda da identidade, como cada vez mais acontece com a língua que falamos em Portugal.

3.2. Ao Argumento do Exemplo de Autores Consagrados

Esta questão é importante, uma vez que existe a presunção quase generalizada de que um autor, por muito consagrado, se interessa necessariamente pelas mais polémicas questões da gramática - ou de todas elas, pelo menos, se apercebe.

Ora, o que, antes de mais, ocupa um escritor que se preze não é o estudo da gramática, antes a reflexão sobre a estrutura do texto, o conteúdo ideológico daquilo que escreve e a forma mais ou menos convincente como o irá apresentar, podendo para tal recorrer, quase até ao absurdo, às chamadas liberalidades, direito que lhe é genericamente, socialmente e, até, pelos linguistas reconhecido. A teoria e o rigor gramaticais aparecem-lhe, depois, como algo bem menos importante do que o facto de soar melhor já aqui referido, do que a preocupação de mais intensamente o leitor   impressionar.

Torna-se, pois, substancialmente abusivo pretender olhar-se para autores que escrevem em Português como se de puristas da língua se tratasse: não o são, e insistir nesta postura será subscrever a tese facilitista de que um idioma se forma, antes de mais, a partir da prática que, sem limites, é deixada à solta para se sobrepor à lógica, à teoria, à regra.

Se assim fosse, sendo as redes sociais o maior repositório de produção escrita dos nossos dias, haveria, mais tarde ou mais cedo, que reconhecer o há-des e o há-dem como formas... sabe-se lá de quê.

Ou será sabem-se lá de quê?

Evolução do Idioma
Um linguista escreve sobre linguística, e ai dele se o não fizer seguindo, rigorosamente, os cânones da gramática. Qualquer outro autor escreve sobre aquilo que bem lhe aprouver, e preocupa-se tanto com a lógica gramatical como a maior parte dos seus leitores - que vão intuindo como regra gramatical qualquer liberalidade recorrente dos seus autores favoritos...

Tudo isto para não falar, claro está, do paradoxo em que, inevitavelmente, caem aqueles que pretendem que um idioma evolui, não pelo desenvolvimento do raciocínio lógico subjacente à regra gramatical, mas pela absorção dos usos de escritores cuja arte se caracteriza, entre outras coisas, precisamente por esse salvo conduto para violar as regras.

Assim, a referência a autores apenas servirá para, a jusante, ilustrar a aplicação desta ou daquela regra: nunca para, a montante e mediante o processo inverso, se invocar a sua produção literária como manancial de informação relativa à forma como, em Português correto, nos devemos exprimir.

- x -

A fonte por excelência da regra gramatical é a lógica, e o seu livro a teoria a partir dela deduzida, sem a qual estaremos condenados ao desnorte próprio de quem deambula sem rumo.

Como deixou escrito um notável italiano, "todo aquele que se apaixona pela prática, sem ligar ao conhecimento, é como o marujo, que entra no navio sem leme ou bússola, e nunca sabe ao certo para onde vai".

Fica, por fim, a pergunta: quererá, mesmo, quem assim argumenta exemplificando, por exemplo, com o Padre António Vieira, que voltemos a exprimir-nos no Português de então? É que, se Vieira e outros são invocáveis para argumentar a favor do vendem-se, haverá, se quisermos parecer minimamente coerentes, que segui-los em tudo o mais, também...

"Como é inclinação natural no homem apetecer o proibido e anelar ao negado, sempre o apetite e curiosidade humana está batendo às portas deste segredo, ignorando sem moléstia muitas cousas das que são, e afetando impaciente a ciência das que hão de ser".

Será caso para se dizer "escrevei assim nas redes sociais e não vos espanteis com o que vos irão responder!"


3.3. Ao Argumento da "Cópia do Francês"

A Regra em Francês
Naquele tom mais ou menos inflamado que nada convém à discussão, que se pretende serena, desta e das outras coisas, sustentam alguns que, quem defende que se é sujeito da oração e pronome indefinido, se limita a, obedientemente, transpor para o Português a regra francesa de utilização do verbo no singular a seguir a on - como em "on vend des maisons".

A estes haverá que dizer que é mais provável que se trate de algo bem diferente, por muito que tal possa desagradar-lhes: por ser a classificação do se e do on como pronomes indefinidos a correta, também os franceses concluíram assim. E, já que falamos disso, também os brasileiros e, por exemplo, os alemães, com o man em "Wo kann man gute Sachen verkaufen?" - e não können -, ou em "Man verkauft Güter" - e não verkaufen.

Ora, isto está bem à vista de qualquer um capaz de uma abordagem desassombrada e cristalina do problema - mesmo que ensine francês há por aí quem diga como garantia de qualidade do absurdo em que insiste.


3.4. Ao Argumento do "Reforço da Ideia de Pluralidade"

Existe, também, quem pretenda que “Vendem-se casas” e “Vende-se casas” significam exatamente a mesma coisa, devendo-se a terminologia escolhida ao facto de, no primeiro caso, supostamente resultar reforçada a ideia de pluralidade relativa a casas*).

Ora, salvo melhor opinião, direi que, do ponto de vista gramatical, tal posição não é aceitável, uma vez que, em “Vendem-se casas”, a ideia de pluralidade estaria reforçada no lugar errado, no complemento direto, em casas, naquilo que se vende, e não no sujeito indeterminado da voz claramente ativa alguém, como cumpriria - uma vez que o que se pretende significar com o se é que "alguém vende casas".

Não manda, de facto, a gramática que é o sujeito, e não o complemento direto, que condiciona a forma do verbo? Ou também aqui a gramática é para ser só a brincar?

Com os pronomes indefinidos invariáveis (algo, cada, nada, ninguém, outrem, tudo e o  alguém que o se aqui substitui ), o verbo é sempre conjugado no singular, pelo que não existe qualquer razão para que com o substituto se tal não acontecer. Sendo o aqui sujeito alguém (se) indeterminado, o verbo há de com ele concordar na forma ativa da terceira pessoa do singular – vende-se casasalguém vende casas -,  e não, no plural, como em alguém vendem ou alguéns vendem, se quisermos disparatar.

Repetição do significado
Ademais, esta coisa de reforçar a ideia de pluralidade viola frontalmente o princípio da economia linguística, uma vez que, estando o plural já clara e obrigatoriamente estabelecido em casas, o alegado reforço - aliás, incorreto - mais não constitui do que manifesta redundância – figura aqui e ali tolerável por uma questão de estilo mas à qual me parece jamais dever ser atribuída a dignidade de regra gramatical. Redundância essa que, saliente-se, nada tem a ver com o processo morfo-sintático legítimo de concordância do predicado com o sujeito, processo que segue a regra gramatical.

Além do mais, qual a utilidade semântica de, em todas as situações - porque de uma regra se trata - reforçar a ideia de pluralidade? Não seria bem mais útil e adequado, nos casos em que tal se justificasse, reforçar a ideia com um modificador? "Vende-se muitas casas" reforçaria muito mais a ideia do que o "Vendem-se casas" que alguns insistem em advogar.


3.5. Ao Argumento de Terem o Mesmo Significado a Voz Ativa e a Voz Passiva

Sustentam outros que vende-se casas na voz ativa equivale a casas são vendidas na voz passiva*).

Isto é verdade: a frase é reversível. Mas é-o apenas quanto à ideia, ao significado: não quanto à classificação sintática dos elementos daquela, já que "voz ativa" e "voz passiva" são expressões que dizem unicamente respeito à forma, e não ao conteúdo, à ideia expressa na oração.

Soçobra, assim, inteiramente a pretensão de que, significando "vende-se casas" (ou "alguém vende casas") e casas são vendidas precisamente o mesmo, casas será o sujeito de ambas as frases: isto é gramaticalmente errado, uma vez que, na voz ativa, o sujeito é quem atua, quem executa a ação, enquanto, na passiva, o sujeito é quem a suporta, quem sofre o efeito da mesma às mãos do agente.

O Complemento Direto e a Forma Verbal
Ora, como parece ninguém contestar, a transformação de uma frase da voz ativa para a passiva implica que o sujeito (alguém) da primeira assuma o lugar de agente da passiva da segunda*), e que o complemento direto (casas) da primeira assuma o lugar de sujeito da segunda. No processo inverso - a conversão da voz passiva em voz ativa -, o agente da passiva (alguém) torna-se sujeito na ativa, e o sujeito da voz passiva (casas) torna-se, na ativa, complemento direto, assim não conservando a qualidade de sujeito*).

Dado que, na voz ativa, está em causa uma ação desencadeada sobre algo ou alguém por um terceiro, não é com casas (complemento direto), mas com alguém (sujeito) que a forma verbal vende há de concordar; e se alguém, um terceiro indeterminado age, a forma verbal aplicável é, como vimos, invariável e deve sempre, assumir o singular.

Assim, se as casas fossem vendáveis a si mesmas ou umas às outras, na voz ativa o verbo poderia estar no plural, exprimindo uma ação reflexa, sobre as próprias, que delas mesmas afixariam imagens nas montras das agências imobiliárias e a elas próprias se transacionariam, sem intervenção humana; mas, sendo o ato de vender materialmente impossível a uma casa, nunca ela poderá ser o sujeito de tal oração.

Nunca é uma casa que se vende a ela mesma: é, necessariamente, alguém que o faz por ela, quem age, o sujeito, mais especificamente o sujeito humano materialmente capaz de a vender.

Vende-se casas, porque nunca se vendem as casas - a elas próprias.

3.6. À Classificação da Voz Ativa como "Voz Passiva Sintética"

Convém, ainda, dirimir a questão da chamada voz passiva sintética, como há quem classifique a forma "vendem-se" por oposição à forma dita analítica "são vendidas".

Não me parece que esta classificação faça qualquer sentido: estando a ideia de passividade sempre presente na voz ativa quando o verbo é transitivo, é redundante pretender que em "vende-se casas" - ou seja, em "alguém vende casas" - a componente passiva está mais presente do que em "João vende casas": as casas são sempre vendidas, passivamente, seja por alguém, seja pelo João.

Vendem-se casas - Partícula Apassivadora
se é, pois, simplesmente indefinido, e não apassivante, porque, nem transforma a voz ativa em passiva (sintética), nem, ao menos, naquela introduz uma componente de passividade, como já vimos inevitavelmente presente quer numa, quer noutra voz.

"João vende casas" é uma forma ativa em que o sujeito é João.

"Vende-se casas" e "alguém vende casas" são, igualmente, formas ativa em que o sujeito é quem vende.

A voz - forma, estrutura - passiva apenas se encontra presente na oração "Casas são vendidas" quando exatamente assim formulada, ou seja, na estrutura que corresponde à forma dita analítica da voz passiva, embora nela se não vislumbre qualquer resquício de análise que justifique tal denominação.


3.7. Ao Argumento da "Regência de Preposição"

Por fim, àqueles que, sempre sem apresentar fundamentação além do axiomático porque é assim, defendem que a forma do singular apenas é aplicável quando o verbo antecede preposição, direi que tal postulado me não parece fazer qualquer sentido, já que dúvida não pode haver de que o sujeito indeterminado de "vende-se casas" e o de "precisa-se de operários" é exatamente o mesmo: o tal misterioso e indefinido alguém.

Neste caso, a regência depende, unicamente, de qual o verbo utilizado como predicado da oração, nada tendo a ver com a voz ativa ou passiva, com o pronome reflexo ou indefinido, ou com qualquer outra consideração, apenas contribuindo para aumentar a já de si preocupante confusão.

Ambiguidade Semântica
Como digo, não encontrei qualquer fundamentação para esta pretensão, seja na boa e desejável lógica, seja em qualquer raciocínio mais ou menos abstruso e idealizado para servir, especificamente, tal alegação.


4. Em Jeito de Conclusão

Voltando à questão da ambiguidade semântica, ninguém duvida de que, independentemente da forma adotada e dado que, de facto, as casas se não vendem a si mesmas ou umas às outras, com esta gramaticalmente errada expressão “Vendem-se casas” estamos a querer significar que “Alguém vende casas”, assim não ocorrendo ambiguidade neste contexto específico - o das casas a venderem-se a elas mesmas ou a serem vendidas por alguém.

Mas não é menos certo que, nos caso dos quatro exemplos com que iniciei este texto – e também,  nomeadamente, no dos verbos reflexivos enganar-se, maquilhar-se, pentear-se e nas dezenas restantes que integram a relação que se segue -, este Tanto Faz!, que mais não expressa do que endémico facilitismo, nunca deixará de gerar a incerteza e a ambiguidade semântica que qualquer regra gramatical deve cuidar de eliminar.

Dado que a generalidade dos autores que vejo pronunciar-se sobre estas coisas não parece ter o hábito de se arrimar na lógica, limitando-se, neste como em outros temas, a procurar legitimar - com recurso a mais ou menos fabulosas e irracionais invenções e procurando fazer valer, como axioma, uma ou outra suposta solução para o problema que lhe pareça mais plausível e fácil de entender - a evolução mais ou menos errática e anárquica que observa, não encontrei qualquer apoio ou elucidação de natureza teórica sustentável para a convicção, que parece quase generalizada, de que qualquer das formas do verbo, singular ou plural, é aceitável, ou, até, de que é "vendem-se" a correta ou, pelo menos, a preferível.

Isto, numa área como a gramática em que, atualmente, parece valer tudo e mais alguma coisa, até que, de uma vez, deixemos de nos fazer entender ao escrever ou falar.

Tão infundadas e erróneas conclusões parecem, assim e além do que já aqui foi dito, de afastar, também por falta de fundamentação, além do que a extensa lista de casos possíveis de ambiguidade diz bem da necessidade premente de se definir, de uma vez por todas, uma clara e consensual posição.

A resposta à pergunta de partida é, pois, "Vende-se casas", não apenas como manda o imperativo de evitar a desambiguação mas, sobretudo, por ser esta, como por dedução lógica se procurou demonstrar, a correta formulação gramatical.


5. Proposta

O débil e pouco útil efeito colateral de reforçar, pelo recurso à mera redundância, a ideia de pluralidade sempre haverá de ceder perante os imperativos maiores do respeito pela classificação sintática, da observância do princípio da economia e do imperativo de prosseguir o importante objetivo de procurar a clareza através da fundamentação lógica e coerente, unica forma legítima de eliminação da ambiguidade.


Propõe-se, assim, que, caso oposição fundamentada e convincente não seja apresentada, se adote como regra que:

     i) quando a ação é executada pelo sujeito sobre o próprio ou entre idênticos, encontramo-nos na voz ativa e perante o pronome reflexo ou recíproco se, devendo o verbo concordar em número com aquele, seja ele singular ou plural;

   ii) quando a ação é executada pelo sujeito sobre terceiros não idênticos (complemento direto), estamos também na voz ativa - e não numa impropriamente chamada voz passiva sintética -, mas, desta vez, perante o pronome indefinido se - impropriamente designado partícula apassivante -, devendo em tal caso ser o verbo utilizado unicamente na forma singular, por imperativo de concordância, na terceira pessoa, com o sujeito indeterminado (alguém, ninguém).

Dado que o contrário resultará, sempre, na falta de concordância, quanto ao número, do verbo com o sujeito, a regra agora proposta deverá ser de aplicação geral, mesmo nos casos insuscetíveis de gerar ambiguidade - como o tal das casas que a si mesmas ou umas às outras não são materialmente suscetíveis de se vender.

Quanto à relevância e importância da questão, a expressiva quantidade de casos possíveis de gerar ambiguidade, não deverá deixar grandes dúvidas de que se trata de um problema que urge resolver.

Ou continuaremos a encontrar, em peças jornalísticas, pérolas como "Tratam-se, portanto, de situações delicadas que"... dizem bem do pouco cuidado que há com estas coisas do falar e do escrever.

* *

Por que terá de continuar a ser assim? "Por que terá?" ou "porque terá?"

Eis outra dúvida omnipresente no espírito atento de quem escreve, e no espírito crítico de quem lê.

(continua aqui a discussão deste tema)


A gramática de um idioma define-se pela estrutura lógica,
e não pela utilização mais ou menos própria que, aqui ou ali,
um ou outro escritor dela fará

Casos Suscetíveis de Gerar Dúvida na Conjugação no Singular ou no Plural,
(por a ação poder ser executada sobre o próprio agente ou sobre terceiros)

(caso lhe ocorram outros, por favor ajude a completar esta lista informando no espaço "Comentários")

aborrece-se ou aborrecem-se
acomoda-se ou acomodam-se
acorda-se ou acordam-se
adormece-se ou adormecem-se
assume-se ou assumem-se
assusta-se ou assustam-se
atira-se ou atiram-se
barbeia-se ou barbeiam-se
cala-se ou calam-se
cansa-se ou cansam-se
casa-se ou casam-se
cata-se ou catam-se
chama-se ou chamam-se
corrige-se ou corrigem-se
considera-se ou consideram-se
corta-se ou cortam-se
cura-se ou curam-se
deita-se ou deitam-se
deixa-se ou deixam-se
despe-se ou despem-se
despede-se ou despedem-se
desperta-se ou despertam-se
dirige-se ou dirigem-se
emenda-se ou emendam-se
encontra-se ou encontram-se
encosta-se ou encostam-se
enfurece-se ou enfurecem-se
engana-se ou enganam-se
enoja-se ou enojam-se
entristece-se ou entristecem-se
envergonha-se ou envergonham-se
estima-se ou estimam-se
faz-se ou fazem-se
fere-se ou ferem-se
forma-se ou formam-se
lava-se ou lavam-se
leva-se ou levam-se
levanta-se ou levantam-se
maquilha-se ou maquilham-se
mete-se ou metem-se
molha-se ou molham-se
move-se ou movem-se
muda-se ou mudam-se
ocupa-se ou ocupam-se
olha-se ou olham-se
penteia-se ou penteiam-se
pinta-se ou pintam-se
põe-se ou põem-se
preocupa-se ou preocupam-se
refere-se ou referem-se
retira-se ou retiram-se
reúne-se ou reúnem-se
rompe-se ou rompem-se
seca-se ou secam-se
segura-se ou seguram-se
tem-se ou têm-se
tranquiliza-se ou tranquilizam-se
trata-se ou tratam-se
vê-se ou vêem-se
vende-se ou vendem-se
veste-se ou vestem-se

A existência de regras gramaticais perde todo o sentido se, em lugar de definir como devemos exprimir-nos, a gramática se limitar a observar como vamos facilitando a expressão, preferindo levar à conta da chamada hipercorreção qualquer tentativa de resistência à degeneração