quarta-feira, 30 de junho de 2021


Gabriel García Márquez

Gabriel García Márquez sobre ajudar o próximo


   "Um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo
para o ajudar a levantar-se
"

"Un hombre sólo tiene derecho a mirar a otro hacia abajo
cuando ha de ayudarle a levantarse
"

Gabriel García Márquez*)




No entanto, bem sabemos que nem sempre tratamos os outros como iguais.

Leia aqui uma reflexão abrangente e objetiva sobre o
Racismo em Portugal


sábado, 26 de junho de 2021


Racismo: O Homem Cor de Rosa


"Tal como é condenável a rejeição liminar de um ser humano
por outro que dele difere num aspeto ou noutro,
também se não pode, a coberto de uma falsa ideia daquilo que é
ou deixa de ser politicamente correto, fechar os olhos a desmandos e ilicitudes
que a ninguém podem ser permitidos porque, muito simplesmente,
são contrários ao costume e, acima de tudo, à lei que a todos deve obrigar
"


     1. O Ideal Cor-de-Rosa
     2. Causas Remotas do Racismo em Portugal
     3. O Escandaloso e Falso Mito da Inferioridade Intelectual do Negro
     4. Excessos no Ataque ao Racismo e Tiros no Pé
     5. A Aberrante Linguagem Pseudo-Inclusiva
     6. Ambiguidade à Esquerda
     7. O Estafado Chavão das Quotas
     8. Não Há Negros Comunistas? Ou Só Faltam na Polícia?
     9. O Dever Universal de Respeitar o Próximo
   10. Conclusão


O Homem Cor de Rosa

1. O Ideal Cor-de-Rosa

Partilho do ideal da superioridade do branco.

O branco é alvo, puro, superior, calmo, tranquilo, positivo, alegre, desinfetado e dá até aquela ideia de muito limpinho que fica bem em qualquer lado; e é, por isso, a cor quase sempre escolhida para representar os mais puros sentimentos, as mais angélicas criaturas, os mais sofisticados ambientes e lugares.

O branco resulta da junção de todas as cores, reúne em si quanto de alegre, de puro e por aí fora existe na natureza: o branco é, todo ele, seriedade, honestidade, integridade, generosidade, amabilidade.  O homem branco não comete crimes, acode a quem precisa, não se porta mal, é educado, devendo ser por todos seguido, cuidado, acarinhado, protegido, até privilegiado, preferido, idolatrado.

Quando um dia encontrar um homem branco – entenda-se, de alma branca -, não me vou limitar a olhar para ele:  vou segui-lo, vou observá-lo, vou escutá-lo, vou procurar imitá-lo no que puder. Porque uma alma branca, pura é um exemplo para quantos, como todos nós, a têm de outra cor.

- x -

Acontece, porém, que, tal como ocorre com as almas, também na pele não há homens brancos - a não ser, porventura, um herói wagneriano, o palhaço rico ou um daqueles infelizes que ganham a vida a simular estátuas, contendo as comichões e retendo o fôlego a troco da pequena esmola atirada pelos basbaques do costume para uma esfarelada caixinha de cartão*).

Pela minha parte, tendo, no Verão, para o acastanhado e, no Inverno, para algo a puxar para o cor-de-rosa.  Mas não me importaria de ser até verde como os marcianos, porque, quando falamos da cor da pele, o ideal do homem branco é um perfeito disparate, como o é o do homem preto.  A cor da pele não é, nem faz sentido ser, um ideal.

O problema dos racismos, venham de onde vierem, não me parece estar na cor ou no tom da pele, antes residindo na convicção de alguns, mais centrados em si mesmos, de que os seres humanos se dividem, unicamente, em dois mundos: o mais restrito grupo dos que são como nós, e o dos outros, aqueles que não apreciamos, não valorizamos, nos incomodam, nos inquietam e nos desagradam. Não por qualquer razão específica - como o tom da pele, que até pode ser igual ao nosso -, mas, simplesmente, por não serem como gostaríamos que toda a gente fosse: igual a nós.

Lidamos muito mal com a diferença
A verdade é que, embora sejamos todos diferentes, lidamos muito mal com a diferença, a ponto de nos sentirmos ameaçados por ela. Admiramos e invejamos os que consideramos maiores do que nós, e desprezamos os que consideramos menores do que nós; e tememos os que consideramos ao mesmo nível que nós, mas são diferentes de nós e, se nos apanham distraídos, possivelmente irão subir a pulso por cima de nós.

A par do primário instinto de sobrevivência, mostra a experiência que o patético deslumbre pelo próprio umbigo – seja o seu barrigudo proprietário branco, amarelo, encarnado, preto ou às riscas cor de rosa e azuis - pode, com alguma facilidade, evoluir para patologias sociais com raiz na tendência quase generalizada para nos assustarmos com as diferenças que abalam a concha, a redoma a que é agora uso chamar-se zona de conforto.

Não conhecemos, não estamos habituados, não nos interessa, estamos muito bem assim, vão lá para as terras deles antes que isto acabe por dar para o torto porque com esta gente nunca se sabe” parece exprimir o egoísmo dominante, porventura justificado, em parte, pelo temor alimentado pela desenfreada proliferação de formas de conduta censuráveis nas populações de qualquer parte do Mundo.

Esquecemo-nos de que recear alguém ou a sua influência é sentirmo-nos inseguros perante esse alguém – logo, inferiores a ele -, o que à partida anula qualquer veleidade de supremacia de determinado grupo social ou étnico sobre outro ou outros, já que, quem teme algo ou alguém, nunca pode considerar-se-lhe superior; nem é.

Lembremo-nos, também, de que, não só não existem homens pretos ou brancos ou de qualquer outra cor absolutamente definida, como muitas vezes é, na prática, no que toca a negros e brancos quase impossível discernir onde acaba o castanho e começa o cor-de-rosa ; e vice-versa. A despeito da altura, do peso, da cor da pele e do mau feitio ou não tão mau assim, ninguém é o que quer que seja além da própria essência e dos acertos que a vida nela fez.

Penso, assim, que haveria, para uns e outros, uma certa vantagem em procurar esgravatar um pouco as profundezas das causas, das origens de tão tenebrosa problemática, de toda esta estupidez racista - cientes, embora, do eventual dano para a oportunidade única que a sua exploração política oferece a certos partidos que desesperam na demanda de causas que lhes permitam equilibrar-se numa cada vez mais periclitante balança eleitoral.

Causas Remotas do Racismo em Portugal

2. Causas Remotas do Racismo em Portugal

Racismo Não!” é boa ideia, está muito bem; mas, se for dirigido a seres inteligentes, há que explicar por que é que “Racismo Não!”, ou não passaremos do impasse, do preconceito rasteiro, da parvoíce do “ambos temos razão, porque tu dizes que sim e eu digo que não”: os pretos não gostarão dos brancos porque não, os brancos não gostarão dos pretos porque não, tal como um sportinguista não gosta do Benfica e um benfiquista não gosta do Sporting. "Porque não! *)"

Emoções à flor da pele, instintos, palermices. Onde leva isto? Não leva. São, apenas, manifestações tíbias de cérebros em permanente hibernação, que não levam a parte alguma, a não ser à mútua destruição.

No tempo em que os Up WithPeople *) cantavam What Color Is God’s Skin? *), um tuga cor de rosa olhava para um preto e associava-o, imediatamente a um dos mais indiferenciados trabalhadores da construção civil, dotados de menores ou de nenhumas habilitações ou literárias ou profissionais.

Esquecia-se, naturalmente, o mesmo homem cor de rosa de que era, precisamente, assim que o mais comum cidadão de qualquer país desenvolvido e recetor de imigrantes portugueses olhava para ele*), logo o associando aos mesmos baldes de massa e à picareta que ele, por sua vez, ao preto tinha por hábito associar – quando não ia ao ponto de lhos atirar à cara para o humilhar.

Esta eructação de impulsos primários e selváticos que a civilização, supostamente, serviria para anular ou, pelo menos, atenuar nos humanos, não passa, pois, de presunção e água benta, de um complexo de superioridade – ou será o contrário? - que tem muito mais a ver com diferenças económicas, sociais e culturais do que com um mais ou menos pigmentado tom de pele. Ou alguém se lembra de ouvir queixar-se de ser vítima de racismo um daqueles abastados cidadãos de origem africana que para cá vêm fazer grandes vidas e assoalhar a riqueza, fazendo os tugas pelintras babar-se de inveja, e os não tão pelintras bajulá-los na tentativa desesperada de captar-lhes os milhões que, em certos casos, por processos bem portugueses aprenderam a ganhar?

De África – porque o racismo em Portugal tem mais a ver com brancos europeus e pretos africanos -, parece existir a ideia distorcida de que só para cá vêm os muito pobres e ignorantes ou os muito ricos e poderosos, porque só de uns e de outros se fala: uns como matéria-prima de quem tudo faz para se salientar agitando freneticamente a bandeira do racismo, os outros também nem sempre pelas melhores razões.

Up With People
Bem sabemos, porém, que não é assim: residem hoje em Portugal milhares de pessoas que para cá migraram vindas dessas paragens ou que desses primeiros migrantes descendem, e vivem hoje integradas na sociedade e na cultura portuguesas sem que isso implique o esquecer e, muito menos, o renegar das origens que legitimamente cuidam de perpetuar e de divulgar na sua nova terra. Divulgar, mas em plena liberdade, entenda-se, sem impor, já que, tal como não posso ser obrigado a gostar de cachupa*) ou a ouvir com agrado música africana, ninguém é obrigado a gramar o meu Beethoven, ou a deliciar-se com umas sardinhas acabadinhas de assar; e a ninguém assiste o direito de, a pretexto do direito de impingir a sua cultura, uns ou outros incomodar.


3. O Escandaloso e Falso Mito da Inferioridade Intelectual do Negro

Defendem, por aí, certos partidos políticos emergentes a alegada supremacia branca, invocando terem estudos supostamente científicos concluído que, em média, a população negra é dotada de um quociente intelectual inferior ao do homem cor de rosa – ou ariano, expressão porventura suscetível de mais lhes agradar.

Ora, nos anos já não tão recentes, em que tais estudos terão sido levados a cabo, bem assim poderia acontecer, atendendo a que, durante tempos esquecidos, a segunda população alarvemente explorou a primeira e dela abusou, negando-lhe, entre tantas outras coisas, o acesso à educação e à formação, logo, a meios essenciais ao adequado desenvolvimento das capacidades intelectuais latentes.

Não nos esqueçamos de que, tal como acontece com os músculos, o cérebro também só se desenvolve se for estimulado, se trabalhos exigentes lhe forem solicitados, o que não é, seguramente, compatível com a brutalidade da escravatura e, abolida esta, com a exploração do trabalho braçal mal remunerado e apartado de qualquer formação, específica ou não – do qual, atualmente e por razões alheias à cor da pele, podem queixar-se pretosbrancos e de qualquer outra cor, sem distinção.

A serem esses estudos efetivamente científicos, e a ser acertada e validada a respetiva conclusão, esse défice, em média, de capacidade intelectual nada teria, pois, a ver com a raça, com a cor da pele, mas sim com a vida miserável imposta a seres humanos por seres supostamente humanos que, em lugar de pedir desculpa, ainda daqueles o infortúnio vêm mofar.

O Escandaloso e Falso Mito da Inferioridade Intelectual do Negro
Acontece, porém, que, mesmo nos já estereotipados e preconceituosos inícios do século XX, se escrevia que “a raça negra não é certamente das mais mal dotadas da humanidade. O negro tem, geralmente, uma imaginação viva, aprende depressa, é sangüíneo, sensual, não é mau no fundo, é muito impulsivo mas pouco perseverante. Assinala-se o seu gôsto do extravagante e o desordenado das suas ideias; aliás falta-lhe a energia necessária para tirar partido das suas capacidades intelectuais. Os negros não são selvagens: formam estados e têm até grandes cidades. As guerras crueis e o tráfico de escravos perturbam-lhes o estado social1.

Ademais, se é verdade que não foi entre a população negra que, mormente por falta de condições, primeiro singraram a investigação científica e o desenvolvimento industrial, não nos esqueçamos de que tal epifania também não terá acontecido, propriamente, em Portugal... o que não impede que, com o andar do tempo, cada vez mais migrantes africanos e portugueses europeus se tornem proeminentes na ciência, na técnica, na gestão bancária e em altos cargos políticos de projeção universal.

Como os tempos recentes parecem vir, insofismavelmente, demonstrando, a situação inicial de eventual maior capacidade – efetiva, prática, oportunista - da população cor de rosa, acaba, até, por se inverter em presença de negros em situações de igualdade de oportunidades e de circunstâncias, tornando legítimo acreditar que, com a explosão da Internet e com o acesso generalizado à informação que ela proporciona – lida por olhos pretos, castanhos, verdes, azuis e outros -, tudo tenderá a homogeneizar-se; e tenderá, também, a desaparecer a última motivação para a existência dessa coisa insana chamada racismo.

 

4. Excessos no Ataque ao Racismo e Tiros no Pé

A própria necessidade de alguns passarem a vida a dizer que existe racismo sugere que ele cada vez menos é sentido, cada vez mais nos olhamos como iguais, e que, abstraindo da exploração mediática levada a cabo por certos partidos políticos e seus satélites, não é já tão intensa assim a implementação, na sociedade, do abominável estigma.

Existem, no entanto, obstáculos sérios à diluição e, desejavelmente, à erradicação da própria ideia de racismo, até chegar ao ponto de dele passarmos a falar como hoje nos referimos à tuberculose ou a outro mal extinto qualquer. Se, tão cedo, se não extinguir completamente, isso bem poderá ficar a dever-se à exaltação do racismo que acaba por acontecer como reação a excessos no ataque ao racismo, ao permanente radicalismo com que o tema é tratado por aqueles que se ensoberbecem ou politicamente sobrevivem à custa do combate que, de forma mais ou menos arrojada, dizem fazer-lhe.

Excessos no Ataque ao Racismo e Tiros no Pé

Para começar: porquê esta mania de evitar dizer pretos ou negros, preferindo cidadãos de origem africana? Será que quem assim fala também vê filmes de “cowboys e cidadãos de origem americana”?

Eu, que sou cor de rosa, cara-pálida, não fico particularmente feliz quando dizem que sou branco ou, sequer, caucasiano, mas não me sinto por isso discriminado, perseguido. Importa a forma como trato os outros e eles me tratam. O resto, a forma como, sem má intenção, me chamam, não tem qualquer importância.

Dado que, com já disse, não há, entre os humanos, pretos nem brancos, nenhum dos termos tem correspondência na realidade, pelo que incomodarmo-nos com estes pormenores de linguagem não passa de tiros no pé, de atroz e primária patetice, fortemente favorável à causa de quem pretende, da essência do tema, desviar-nos a atenção.

Cidadãos de origem africana é, além de ridículo, fortemente inexato e discriminatório relativamente aos outros negros: não importa, então, o racismo dirigido, por exemplo, a negros timorenses ou jamaicanos? Ou estará, quem utiliza aquela expressão, a referir-se, também, aos brancos africanos? Que importa ser eu um cidadão de origem europeia ou de outro continente qualquer? E que importa chamarem-me brancocaucasiano ou cara-pálida, ou outros serem chamados pretosnegros ou de cor?

Ou vamos ter de adotar designações como a localidade Paço dos Cidadãos de Origem Africana *), a Rua do Poço dos Cidadãos de Origem Africana *)… a Loja do Gato de Origem Africana *)? Ou vamos a Sintra comprar queijadas à Casa do Cidadão de Origem Africana *)? Vamos ter de mudar o nome da nossa Avó Branquinha? Ou da Dona Branca *)? Deverá a personagem de Walt Disney passar a chamar-se Mancha de Origem Africana *)?

O que importa não é o vocábulo utilizado, mas a intenção com que um termo é escrito ou proferido: referirmo-nos a alguém como branco ou como preto ou como qualquer que seja a cor, é um inaceitável ato racista e discriminatório se o fizermos com acinte. Já falar, genericamente, de brancos ou de pretos, ou de um branco ou de um preto pode, em certos casos, não passar de uma incorreção verbal, concetual - e, se quisermos, social -, apenas nessa medida censurável, como tantas outras incorreções.

A expressão “bando de preto safado” não passa de uma demonstração abjeta de racismo primário e virulento; mas punir um desportista apenas porque chamou a um amigo “meu preto querido” é radical tontice*), perseguição intolerável que mais não faz do que desvalorizar a causa nobre do combate à discriminação.


A Aberrante e Contraproducente Linguagem Inclusiva
5. A Aberrante e Contraproducente Linguagem Inclusiva

A propósito, toda esta imbecilidade da aberração gramatical chamada linguagem inclusiva *) dos “amigues”, do ”cartão de cidadania” ou do “Cart@o de Cidad@o” – como já escrevi*)–, e dos “cidadãos de origem africana” não passa de uma invenção destinada a, de forma contraproducente, potenciar uma ação já de si tímida e ineficaz, que se resume a apelos aparentemente desesperados por parte desta nova geração de partidos mendicantes, que não perdem um pretexto para procurar confundir exigência vã com causa verdadeira, assim procurando captar a esmola de mais um precioso voto junto dos seus mais ou menos esgrouviados e aluados simpatizantes.

Nestas coisas, como em tantas outras e sem desvalorizar o rigor da expressão, o que conta é o conteúdo e a intenção com que é expresso, o que se diz, e não tanto a forma como se diz.

A simples ideia de inclusão é, aliás, aberrante e contraproducente, já que, pelo simples facto de existir, ela própria reconhece a existência de diferenças entre pessoas: não é necessário esforçarmo-nos por incluir o já faz parte por ser genuinamente igual. No caso do intolerável racismo, ao falar de cidadãos de origem africana, o que estamos, efetivamente – e impropriamente -, a dizer é: "pessoas que, como nasceram em África e têm a pele escura, não são como nós".

Será que, agora, além de preto dizer negro também é racismo? Que, em vez de chocolate preto ou negro, vou ter de passar a pedir chocolate de origem africanamesmo sabendo que o cacau que maioritariamente o compõe é originário da América do Sul*)?

Ou irão chamar-me racista se não gostar de chocolate negro? E, se não gostar de chocolate branco, também vão? Chocolate negro parece ser a alternativa dita inclusiva a chocolate preto. E a alternativa inclusiva a chocolate branco? Qual é? Chocolate alvoCor de rosa?

O que há de condenável em preto que não há em negro, quando, com qualquer dos termos, queremos significar precisamente a mesma coisa? Ou entre branco e alvo? Ou entre o cidadão de origem europeia e o cidadão de origem africana?


6. O Estafado Chavão das Quotas

Depois, se não se vê assim tantos negros na Polícia, isso deve-se, muito provavelmente, ao facto de, com toda a naturalidade e toda a legitimidade, uma menor quantidade deles se ter interessado por uma profissão que, pelos vistos, mais seduz os cor de rosa como eu, hipótese elementar que, de tão natural, apenas poderá ser afastada da mente do homem médio em presença de prova que demonstre que, às forças de segurança, concorreram muitos cidadãos de origem africana e que foram eles rejeitados sem válida razão.

Ou será que, para ficarem mais garridas as cores das bandeiras de certos movimentos e partidos, todos, independentemente da cor da pele, devemos interessar-nos igualmente por todas as profissões? Vamos começar a impor quotas também para obrigar igual quantidade de negros, amarelos, encarnados, brancos e verdes a dedicar-se a cada ocupação, a isso chamando combate ao racismo estrutural e institucional? Ensandeceram todos?

Combate ao Racismo Estrutural e Institucional
Se é abatido um branco ou um negro relativamente conhecido*), mas com reduzida notoriedade, será de estranhar ou de nos revoltarmos pelo simples facto de os meios de comunicação não haverem dado ao facto uma cobertura sensacional? A comunicação social vive, hoje em dia, da espetacularidade da notícia, que lhe assegura o ganha-pão, não lhe interessando fazer favores à causa deste ou daquele, nem a injustificada discriminação positiva exaltaria tal causa como quer que fosse - além do que é, manifestamente, abusivo conotar com racismo a expressão “volta para a tua terra”, também usual e frequente entre caucasianos autóctones que, com razão ou sem ela, se sentem incomodados por alguma atitude de caucasianos forasteirospor parte de tugas xenófobos dirigindo-se a brancos estrangeiros*).

Será, digam-me lá, com patetices destas que pretendem, junto de seres um bocadinho menos irracionais, romper a crosta da indiferença, acender a chama da adesão? O que importa é proibir a discriminação, e não, mediante a imposição de quotas, promover a incompetência e a desmotivação.

Fala esta boa gente, dos movimentos e dos partidos, de liberdade e de autodeterminação…

 

7. Ambiguidade à Esquerda

Não vejo qualquer mal em, num dia por ano, as camisolas dos jogadores de futebol intervenientes em desafios televisionados ostentarem, em lugar do nome de cada um, os dizeres “Racismo Não *); já a defesa cega e repetitiva ad nauseam de slogans associados a uma causa só a prejudica, como os partidos radicais e as associações vocacionadas*) bem deveriam saber.

Por outro lado, se seres humanos superiores existirem, serão certamente aqueles que se aproximam dos outros neles buscando afinidades intelectuais e espirituais, assim procurando enriquecer-se culturalmente, e não os que se furtam a, ao menos, encará-los só porque são diversos a capacidade económica, os dotes intelectuais, o substrato cultural, o local de residência, as vestes que envergam, o tom da epiderme, assim se envolvendo numa demonstração das mais básicas intolerância e estupidez, próprias dos espíritos pequeninos que por aí vemos embrulhados qualquer cor de pele.

Aliás, para lugares de responsabilidade, há por aí muito cor de rosa que, num processo de recrutamento e seleção, eu rejeitaria ao primeiro olhar, e muito cidadão de origem africana que contrataria sem hesitar; e, já agora, o inverso também é verdadeiro.

Ambiguidade à Esquerda
A diferença não reside na cor da pele, do cabelo ou dos olhos: está no espelho da alma que, seguindo dizem e toda a gente sabe, é o olhar; e tudo poderia ser bem mais fácil para certos políticos não inscritos, de ressabiados olhos esbugalhados de jactância e que para aí atiram parvoíces a esmo, se entendessem que o carisma do primeiro presidente negro do África do Sul*) não advinha do acinte da fala, do veneno da verve, mas da bondade do exemplo, da doçura do sorriso com que nos contemplava, da moderação e brandura pelas quais regia uma sua vida que lhe era imposta em condições miseráveis, enquanto, por seu turno, certos radicais e  supostamente aguerridos defensores das minorias, os que se escandalizam afirmando falsidades - como não se ver negros em forças policiais que, na verdade, com eles contam -, em nada contribuem para a serenidade que a nobreza de tão elevada causa requer.

Por falar neles: onde estavam esses defensores nas quase desertas manifestações promovidas, no Porto*) e em Lisboa*), no primeiro dia da Primavera de 2021?

Alguém lá fora se lembra de inventar o pomposo nome “Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial*) – até parece nome de ministério português*), disto, daquilo e mais daqueloutro, como se, quanto mais termos se encavalitasse no cargo mais competente o ministro fosse … -; outro alguém se lembra de que um Portugal em bicos de pés deveria ter também as suas manifs, pois então; e, entre as duas maiores cidades do País, nem cento e cinquenta pessoas foi possível arregimentar para os eternos chavões gritar e umas vuvuzelas fazer bramar!

Até as Manifs contra o confinamento pareceram, pelos números, bem mais importantes e concorridas do que estas*), já para não falar dos autocarros que, em plena crise sanitária, de todo o pais chegam para as iniciativas políticas do Partido Comunista e para as peregrinações a Fátima. Quanto ao racismo, porém, o interesse parece já tão escasso - leia-se “tão poucos os que se sentem, efetivamente, excluídos” -, que, porventura por não valer a pena, nem a extrema-direita aproveitou para lá ir perturbar a manifestação

Será assim?

Onde andava, então, aquele partido – perdão, movimento - supostamente muito à esquerda e pendurado nas minorias cujas bandeiras ainda são a única vela que os faz navegar? Será que as previsíveis escassas migalhas de protagonismo e a meia dúzia de letras ou segundos neste ou naquele jornal lhe não despertaram o apetite para a exibição? Não?

Pois não, uma vez que era mais do que previsível o fiasco, a deserção.


8. Não Há Negros Comunistas? Ou Só Faltam na Polícia?

Não Há Negros Comunistas?
Por falar em partidos…

Lembram-se daquele deputado negro do Partido Comunista Português?*) Não se lembram, pois não: foi só um, e há tanto tempo, já... O facto de o PCP não ter voltado a apresentar candidatos ditos de cor nas suas listas significará que o racismo já chegou à esquerda?  Ou será, antes, porque mais nenhum negro com apetência, ou vocação, ou ambição, ou queda para a política no Partido se inscreveu? Tal como na Polícia, talvez? Ou em qualquer outra organização?

Nem uma deputada negra nas hostes do Partido ou a falar na televisão... Vamos também, perguntar-nos por que não se vê, no PCP, mais cidadãos de origem africana? Vamos insinuar que o Partido Comunista é racista? Ou não?...

Claro que, em menor ou maior grau, há racismo latente, racismo manifesto, todas as variantes que queiram enumerar; e continuará enquanto forem tão desajeitados, radicais e exagerados os esforços para o debelar. Mas, perante manifs desertas, forçoso se torna concluir que, no Portugal dos nossos dias, o racismo é menos abrangente e a intensidade é, felizmente, já outra.

Tirando o racismo primário e parolo fundado no ódio irracional que só as bestas também irracionais valorizam, lá bem no fundo todos vão reconhecendo, mesmo que nem com todos se identifiquem uns com os outros nem todos mutuamente se admirem – nem, em liberdade, a tal são obrigados -, que, voltando aos Up With People, “everyone is the same in the Good Lord’s sight*).

O Dever Universal de Respeitar o Próximo

9. O Dever Universal de Respeitar o Próximo

Resta lembrar a, por vezes muito esquecida, condição essencial que jaz indelevelmente associada à aceitação espontânea e aberta por qualquer pessoa ou comunidade de pessoas de outras comunidades, sejam elas quais forem: o respeito.

Se, no que é essencial, estrutural, inexiste qualquer distinção com base no tom da pele, nos traços morfológicos ou noutra característica fisiológica, antes operando preponderantemente as diferenças culturais e civilizacionais, há, outrossim, que respeitar e acautelar a defesa dos valores da estabilidade, da segurança e da identidade que estruturam as sociedades que recebem e acolhem, sem prejuízo de quanto de saudável e enriquecedor na diferença houver.

Se é verdade que a solidariedade, a disponibilidade e a boa vontade para com o próximo devem sobrepor-se a qualquer objeção mais ou menos comezinha à plena aceitação de um ser humano por outro, o velho brocardo “em Roma, sê romano” deve estar sempre presente na mente dos que buscam acolhimento, já que manda a mais elementar cortesia que, não só quando visitamos alguém devemos observar as normas e os costumes dos nossos anfitriões, como se espera que nos abstenhamos, em qualquer circunstância, de a eles impor a nossa vontade, os nossos gostos, as nossas convicções, designadamente àqueles com quem um dia venhamos a coabitar, por maioria de razão.

Uma coisa é todos terem a liberdade de escolher, em função da adequabilidade às necessidades e objetivos de vida de cada um, o país para onde pretendem emigrar.  Outra, muito diferente, é escolher-se uma terra como alvo ideal para a disseminação e imposição indesejada dos costumes próprios do país de onde, por alguma razão, alguém se viu obrigado a emigrar – o que, em última análise, sempre será contraproducente, dado o risco de, dessa forma, se acabar por transformar a terra de adoção precisamente em algo muito parecido com aquela de onde se tiver tido de retirar.

No plano social, este dever de respeito opera, desde logo, na absolutamente legítima exigência do estrito cumprimento das normas jurídicas e da observação dos costumes locais, já que nenhum ser humano tem o direito de sujeitar qualquer outro, de diferente ou igual etnia, à imposição brutal de comportamentos por ele indesejados, ainda para mais escudados numa inaceitável discriminação positiva por parte dos tais partidos políticos ou grupos de pressão que cavalgam a suposta defesa de minorias por mais não terem no que se evidenciar – discriminação positiva essa que pode fácil e indesejavelmente ser conotada com a, em alguns latente, ideia de menoridade de uma ou outra população, ideia essa que, paradoxalmente, se pretende afastar.

Oligarquias marginais e não representativas
Afigura-se, por exemplo, inadmissível a existência, em plena catástrofe sanitária, de muito concorridos eventos de índole familiar que forças militares não têm como interromper*); de veículos de tração animal que, a passo de caracol, inesperadamente se nos deparam ao dobrar uma curva da estrada pondo em risco vidas de animais e de pessoas, designadamente as das crianças de tenra idade e dos adultos que,muitas vezes, a pé e ao lado, esses veículos vão a acompanhar*); de zonas de criminalidade comprovada e injustificadamente excessiva, promovida no interesse exclusivo de oligarquias marginais e não representativas das boas gentes de qualquer etnia; de bairros em que até as forças policiais pensam muitas vezes antes de entrar.

Não me causa especial alarme o racismo primário defendido por meia dúzia de ignorantes, indignos de qualquer crédito ou de que os ouçam, sequer. O que me preocupa é a generalização irracional do racismo decorrente de comportamentos lastimáveis e fortemente condenáveis por parte de uma outra meia dúzia de indivíduos de certas etnias que assim contaminam, junto de fatias consideráveis da população autóctone, a imagem de todo um grupo, ou de diversos, em idênticas circunstâncias.

Em certos casos - talvez não poucos -, a motivação dessa meia dúzia radica, já se sabe, na forma discriminatória como os olhamos e para com eles agimos, enquanto sociedade. Não obstante, o tratamento condenável por parte de meia dúzia de pessoas cor de rosa não justifica ou legitima a violência da reação, à qual, nesse caso, todos teriam direito, do que resultaria um caos maior ainda do que aquele a que assistimos em certos lugares e momentos não tão raros assim.

Quanto a mim, sou, decididamente, racista para com essa raça de indivíduos de todas as culturas, religiões e credos que, independentemente da cor mais ou menos rosa ou acastanhada da pele, indiferentes aos direitos daqueles por quem querem ser tratados como iguais, para com eles se comportam selvaticamente, deliberadamente agredindo, insultando, incomodando, escarnecendo, desprezando, como certos tugas hooliganizados com que nos cruzamos com indesejável regularidade - a maioria dos quais caucasiana.

 

10. Conclusão

Toda e qualquer postura ou atitude de agressão social é inaceitável. Se queremos, efetivamente, erradicar o racismo, cumpre, se necessário, rever a legislação vigente; e, com a maior urgência, nos casos por ela já contemplados, sensibilizar para a necessidade do seu estrito cumprimento toda a população, as autoridades e os poderes judiciários, bem como dotar de meios coercivos as forças policiais com atribuições e competências para a aplicar.

Entre tantos outros, os exemplos que referi - alguns deles comuns a indivíduos de variadas etnias - ilustram bem a impossibilidade prática de confundir, com impunidade laxista ou com anarquia a qualquer preço, o princípio geral de que qualquer cidadão de qualquer outra terra é livre de nos visitar e de, observados determinados requisitos, aqui se radicar: tal como é condenável a rejeição liminar de um ser humano por outro que dele difere num aspeto ou noutro, também se não pode, a coberto de uma falsa ideia daquilo que é ou deixa de ser politicamente correto, fechar os olhos a desmandos e ilicitudes que a ninguém podem ser permitidos porque, muito simplesmente, são contrários ao costume e, acima de tudo, à lei que a todos deve obrigar.

Princípio da Igualdade
A lei é legitimada pela mesmíssima Constituição que consagra esse princípio geral da igualdade que, ora com mais, ora com menos propriedade, anda nas bocas de todos e é essencial à efetivação da consagração teórica da diferença. Representa, pois, séria violação do mesmo princípio da igualdade acolher determinados preceitos constitucionais – os que proíbem a discriminação – enquanto se rejeita outros – os que obrigam ao cumprimento de todas as leis comuns – só porque não nos convêm ou porque, politicamente, fica melhor no retrato.

Num estado de Direito, qualquer cidadão, nativo ou oriundo de outra parte do Mundo, está vinculado ao primado da lei. Isto é algo que ninguém, em qualquer momento ou lugar poderá legitimamente esquecer ou ignorar, sob pena de estar, afinal, a praticar a discriminação que diz condenar.

Em ambos os sentidos, a cada um assiste o direito de se não sentir atraído por pessoas de outros grupos, bem como de não admirar determinadas características culturais ou comportamentos dos mesmos. Tal não confere, todavia, a uns o direito de maltratar e, muito menos, de procurar banir os respetivos representantes que aceitem e observem as leis e os costumes das sociedades que visitam ou os acolhem no seu seio; nem, a estes, o de agir como se, em lugar de convidados, fossem anfitriões, ainda para mais rudes, pouco educados, e felizes por assim se quererem conservar.

Tu deves porque eu quero’ é um absurdo; mas ‘tu deves porque eu devo’ é um objetivo legítimo e a base do Direito 2;  e, perante tais desmandos, tanto as maiorias, como as minorias, têm direito a indignar-se.

- x -

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Chantepie de la Saussaie, Pierre Daniel – “Lehrbuch der Religiongeschichte” (Freiburg im Breslau, 1887–1889) – ”História das Religiões” – Editorial Inquérito – Lisboa, 1940 – pp.31

2 Seume, Johann Friedrich – "Prosaische und poetische Werke" - G. Hempel - 1899 - Vols 6-8 – pp.169 

quarta-feira, 23 de junho de 2021


Camilo Castelo Branco

Camilo Castelo Branco diz que não há sentimento nas cidades

"Nas cidades é que já não há sentimento de originalidade nenhuma.

As paixões de lá, boas e más,
têm tal analogia que parece haver uma só manivela
para todos os corações
"

Camilo Castelo Branco*)
Vinte Horas de Liteira"*)


sábado, 19 de junho de 2021


Orgulho e Pompa sem Circunstância

 

"Por haver constatado que um espião de leste operava no seu gabinete,
demitiu-se sem hesitar um outrora chanceler da República Federal Alemã.
Por haver, com dolo ou negligência, sido praticado um ato de espionagem
pelos Serviços, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa não se demitiu.
Sendo as situações equivalentes, atentas a importância relativa dos dois cargos,
a diferença de atitudes apenas revela que muito pouco de comum existirá
entre o outrora Chanceler e o atual Presidente da Câmara Municipal"

Merece pouco crédito um país no qual se tende a olhar para os governantes mais como gente que prefere governar-se a governar. Mas não será esta a nota dominante da sociedade de faz de conta em que estamos mergulhados e na qual, por uma ou outra razão, muitos de nós são obrigados a continuar a viver?

Não é simplesmente a capacidade de registar a tradição pela escrita que distingue os povos civilizados, mas a capacidade de, individual e coletivamente, elevar o espírito um pouco que seja acima da preocupação com o carrito acabado de sair do stander ainda com o capum a brilhar; acima das imagens de carantonhas horrivelmente feias com esgares supostamente sorridentes a olhar para os basbaques em redes sociais onde pontificam relatos com imagens mal enquadradas de glúteos musculados, peitos descaídos, cochas moldadas em celulite em estado de negação; acima da ostentação básica, primária, de quem, por ter aprendido a dar uns toques na bola acena com milhões a populações esfomeadas e sanitariamente enfraquecidas; acima da vaidade desmesurada e da febre de protagonismo de quem nem miolos tem para olhar para o Mundo e entender o que lhe está a acontecer.

-x-

No caso específico dos políticos e dos aspirantes a políticos, é conhecida a tendência para uma espécie de justificado evemerismo relativamente aos pais fundadores dos respetivos partidos, embora ele apenas se manifeste em colagens à imagem dos seus deuses particulares, sem que tal aproximação para consumo mediático corresponda ao mais ténue propósito de os bons exemplos lhes seguirem.

Havia, entre os povos bárbaros, quem pensasse que, por vezes, os deuses adormeciam para voltar um dia em toda a sua pujança e poderio. Nos partidos políticos, todavia, sabe-se que os  deuses particulares, os seus chefes endeusados, quando desaparecem, é para sempre - e para alívio de uns quantos alarves vazios de valores, de ideais e de ideias, que apenas sonham subir a pulso por patológica necessidade de os seus complexos de inferioridade mitigar, mandando nos outros com um poder vazio de autoridade, e com o planeamento, a disciplina e o rigor próprios das ondas do mar.

Cientes, lá bem no fundo, da própria incapacidade para se guindar e manter em funções cujos requisitos excedem, largamente, as suas capacidades intelectuais, emocionais e educacionais, praticam e fomentam a prática do big brother que lhes convém enfaticamente condenar - e muito bem - nos sistemas ditatoriais, espiando os comportamentos, perscrutando os segredos mais íntimos, ordenando escutas, transmitindo a regimes totalitários dados confidenciais acerca dos respetivos opositores, assim lançando o anátema sobre os países ou cidades que administram*) na forma incompetente de quem apenas cuida de acumular créditos junto daqueles de quem, em regimes aparentemente democráticos, dependem para a contagem dos votos.

Pouco importa se a indiscrição vem de cima, do meio ou de mais abaixo: se o ato é deliberado, é crime com dolo eventual, a existir prática firmada e sobejamente conhecida, por parte do regime que governa o Estado beneficiário da informação, da perseguição política indo não raramente até ao homicídio; se o ato não é deliberado*), a simples possibilidade de ocorrência da fuga de informação diz bem da efetiva indiferença com que a questão dos direitos fundamentais - designadamente da segurança e da privacidade - é encarada por gnomos subservientes de olhar perdido e sem vontade própria, além da vontade de ficar bem visto aos olhos do chefe ou do patrão e, se possível, também da mal governada população.

Tempos houve em que, independentemente da responsabilidade direta, havia o bom hábito de os superiores hierárquicos em cargos públicos se afastarem na sequência de faltas dos seus subordinados, fosse pela prática de crimes, fosse por atos de espionagem*), fosse, ainda, por responsabilidade em catástrofes na sequência de erros técnicos ou de mera incúria funcional*).

Nestes quadros, tal como no de partilha, com outros países, num ato facilmente equiparável a espionagem, de dados pessoais que possam comprometer a segurança, a liberdade e, mesmo, as vidade pessoas que lutam pela liberdade de terceiros*), substituir a demissão espontânea por um débil pedido de desculpas públicas*) - expressão intensa mas inane - não passa de mera hipocrisia, de mais um expediente para salvar um residual de imagem; e um punhado de votos.

Por haver constatado que um espião de leste operava no seu gabinete, demitiu-se um outrora chanceler da República Federal Alemã. Por haver, com dolo ou negligência, sido praticado um ato de espionagem pelos Serviços, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa não se demitiu*). Atenta a importância relativa dos dois cargos e sendo as situações equivalentes, a diferença de atitudes apenas revela que muito pouco de comum existirá entre o outrora Chanceler e o atual Presidente da Câmara Municipal.

No entanto, o papel de um autarca de Lisboa não se limita a preocupar-se (pouco) com a situação da Rua Maria Pia*) ou do Bairro das Murtas*); a deixar morrer, como o fez um seu antecessor, prematura e inutilmente ícones como o Teatro Vasco Santana*) e a Feira Popular*); a assobiar para o lado perante edifícios que apodrecem, como o Hospital de Arroios*), o antigo Liceu Rainha Dona Amélia*), ou o Palácio das Águias*), ou a desprezar a Tapada das Necessidades*), já para não falar da vergonha do estacionamento na Avenida Almirante Gago Coutinho*) e do maná garantido pela EMEL em zonas em que os parquímetros estão bem longe de se justificar*).

Ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa cumpre zelar pela honra e pela dignidade da Cidade e de quantos lá mora, em lugar de negligenciar medidas elementares que assegurem a salvaguarda dos direitos constitucionais dos cidadãos que lá moram, em lugar de procurar alijar responsabilidades procurando fazer, de forma insidiosa, classificar como mero erro burocrático *) um flagrante e muito grave incumprimento da lei.

- x -

Certas pessoas vivem imersas em orgulho e pompa, mas sem circunstância; e não é gloriosa a sua egocêntrica e, por vezes, despudorada guerra.

A ânsia de ser eleito para, dessa forma, poder servir uma organização ou uma comunidade deu lugar à ânsia de ser eleito ou promovido para assim poder servir-se de uma mole humana impreparada e cada vez mais indiferente, também ela preocupada apenas em fazer-se valer, quanto mais não seja no papel de capacho, de chega-me isso, de satélite de bem mais competentes manipuladores. É bem verdade que “a melhor forma de te não dizerem pequeno é dizeres dos outros que são grandes. Sobretudo se for mentira *)”.

Basta lembrarmo-nos do indescritível sentimento que experimentamos quando vemos e ouvimos supostamente ilustres mas notoriamente impreparados e pouco capazes deputados da Nação balbuciar os escritos que lhes põem à frente, hesitando nas palavras difíceis, na pontuação, errando a entoação.

As coisas são o que são e, quase sempre, são também aquilo que parecem: “La radio et la télévision fabriquentdes grands hommes pour de petites gens *)”.

O mal não se restringe à classe política: é endémico, na sociedade portuguesa e também lá por fora, tendendo a corrupção e o nepotismo a grassar incontrolavelmente. Os seus efeitos manifestam-se, seja na administração pública, seja em empresas nas quais o interesse dos investidores cede perante a doentia sede de autopromoção de dirigentes que, de gestores, apenas têm, em cartões de visita mais ou menos folclóricos, a designação por baixo do nome. Num e noutro caso, geralmente em países económica e socialmente falidos - como não será difícil exemplificar.

A questão de fundo é, no entanto, de uma simplicidade para muitos quase atroz: a inevitável ignorância da origem, da essência, da finalidade, do destino, próprios, de todos os outros e de todas as coisas. Mas como entender que a fragilidade imanente desse estado de dúvida não resulte, inversamente, na necessidade de dar, de apoiar, de consolidar, de valorizar o tempo que todos sabemos que, tarde ou cedo, para cada um de nós irá acabar, em lugar de tirar desta vida aquilo que se habituaram a dizer que é o que, para a tumba, ainda podem levar?

Se for verdade que a verdadeira imortalidade é a que resulta da memória com que os outros ficam da passagem de cada um de nós pelas suas vidas, bem melhor fariam certos lastimáveis palermas cheios de si em passar uns minutos a imaginar – já que gostam tando da mais ou menos parola imagem - que bela imortalidade para os seus vindouros irão deixar.

A menos que esses vindouros não sejam melhores seres humanos do que eles, o que, da maneira como isto para aí vai, não será, seguramente, uma hipótese a descurar.

quarta-feira, 16 de junho de 2021


Elizabeth Barrett Browning


Elizabeth Barrett Browning sobre as citações

"Quando a poeira da morte emudece a voz de um grande homem,
as mais simples palavras por ele proferidas transformam-se num oráculo"

"When the dust of death has choked a great man’s voice,
the common words he said turn oracles"





sábado, 12 de junho de 2021


Por que Não? Porque Não!

"Quando a escrita se altera para acompanhar alterações na linguagem falada,
estamos perante uma evolução; mas, se a escrita muda por si só,
porque nem se foi ver, porque a gramática pouco importa, assim se caminhando
para o desconhecimento generalizado de determinada regra e das outras todas
e das razões que lhes subjazem, somos levados a pensar em indiferença,
em descaso, ou em mera ignorância gramatical
"


   1. O que por Aí Vai
   2. Exemplos de Autores Portugueses
   3. Comparação com Outros Idiomas Europeus
   4. Ao Ler, Como Entoar?
   5. Da Alegada Ausência de Objeto
   6. Uma Lacuna Teórica
   7. Conclusão


1. O que por Aí Vai…

Esclareça-se, antes de mais, que este texto não aborda a forma interrogativa por que? no sentido de por qual?, matéria que nada de útil acrescentaria ao debate, uma vez que, a despeito da aplicação frequentemente errada de porque?, a existência de uma regra que manda utilizar, nestes casos, por que? parece ser, entre quem escreve sobre gramática, consensual.

Limita-se, assim, o âmbito do artigo à expressão da interrogação quanto à razão de ser, à causa do facto, à motivação da ação - que também ora encontramos introduzida por por que?, ora por porque?-, omitindo-se, propositadamente, o tema da formulação de perguntas quanto à forma, ao modo ou a outra variável àqueles respeitante que possam ser iniciadas por por qual?

- x -

A Internet é vasta e, em termos práticos, quase infinita, pelo que não tenho a pretensão de, na pesquisa a que procedi, ter consultado, sobre o tema, todas as páginas disponíveis.  Devo, no entanto, afirmar que, entre todos os defensores do porque interrogativo, não encontrei um único que fundamentasse a sua posição no livro de gramática de um conceituado linguista: ou, simplesmente, não citam, ou citam autores a partir de finais do século XX, também cada um dizendo a sua coisa sem qualquer fundamentação lógica que a sustente.

Demonstração maior da confusão que grassa é, precisamente, o facto de cada um classificar o famigerado porque interrogativo a seu bel-prazer: para uns é “conjunção interrogativa porque”, para outros “advérbio interrogativo porque?”;  há também quem lhe chame “pronome interrogativo porque?” e, como imaginação não falta, nem faço ideia do que mais por aí poderá haver.

Também encontrei quem citasse um autor que, num discurso emotivo, pretende não existir em por que? qualquer lógica ou análise viável, por não se saber a classificação daquele que, parecendo ignorar, talvez porque não procurou ou não encontrou, que aquele que não tem existência própria, antes sendo uma das componentes da locução adverbial “por que?1.

Esclarecendo o que diz a gramática1, os pronomes interrogativos são: que, quem, qual, quantos (pp.367).  Porque pode ser conjunção coordenativa explicativa (que, porque, pois, porquanto - pp.595),  conjunção subordinativa causal (porque, pois, porquanto, como [= porque], pois que, por isso que, já que, uma vez que, visto que, visto como, que, etc - pp.600) ou conjunção subordinativa final (para que, a fim de que, porque - pp.601).  Já os advérbios interrogativos são por que? (de causa), onde? (de lugar) como? (de modo) e quando? (de tempo).

Assim estabelecem Celso Cunha e Lindley Cintra duas coisas, que os que estudaram e publicaram antes do pântano de indefinição em que vivemos sabiam também:

a)   que tanto conjunções como advérbios podem ser formados por uma ou mais palavras, assim tornando inane e improdutiva a objeção pela – falsa – impossibilidade de classificação do que em por que?;

b)     que os pronomes também podem assumir a forma de locuções (pp.371);

c)  que por que? é o advérbio interrogativo causal (por que? ) ou o pronome interrogativo (que? ) que deve ser empregado em interrogações diretas e indiretas – e não porque?  (pp.557)

Não sou eu que o digo, são dois dos mais lidos, celebrados e consagrados linguistas;  e, antecipando alguma objeção baseada na teoria peregrina, que já por aí vi, de que o por que? é a forma utilizada no Brasil, há que dizer que Lindley Cintra era português e que, embora editada a Gramática no Rio de Janeiro, os Autores distinguem os casos em que regras diferentes vigoram em Portugal e no Brasil.  Mas não fazem, neste este caso qualquer diferenciação.

O mesmo acontece, aliás, na edição portuguesa2, na qual por que? é inequivocamente referido como “advérbio interrogativo de causa” (pp.366).

Fontinha3 considera, por seu turno, tratar-se de um pronome interrogativo sem, todavia, deixar de defender a grafia por que? (pp.90, n.º 204), enquanto, também entre os que defendem a classificação como pronome – neste caso, unicamente do que -. Torrinha4 explica que “os pronomes relativos têm um consequente claro ou oculto; mas, quando oculto, pelo sentido facilmente se subentende” (pp.160, n.º 313).

Esta última posição permite-nos, pois, concluir que, no caso do interrogativo por que? - seja ele pronome ou advérbio – estamos, muito simplesmente, perante um consequente oculto como razão, motivo ou outro, sendo esta a única diferença entre, por exemplo, por que razão? e por que (razão)?, assim não podendo a mera ocultação do consequente servir para legitimar uma forma diferenciada porque?. Lembra, ainda, o Autor que “os advérbios dizem-se simples se constam de um só vocábulo; compostos ou locuções adverbiais, se constam de um grupo de palavras a que se pode atribuir o valor dum advérbio” (pp.253, n.º 473), assim respondendo à objeção de quem defende a inexistência de lógica em por que? por não se saber a classificação daquele que.

Já Gomes5, sempre sem unir o por ao que, considera estarmos perante a preposição por e o pronome relativo que no caso de “este é o motivo por que te digo isto”, e, tal como Cunha e Cintra, de um advérbio interrogativo no caso de “diz-me por que não vieste mais cedo” (pp.262), deixando ao porque somente o papel de conjunção subordinativa causal (pp.105).

Ressalvadas as diferenças na classificação, temos assim autores de diferentes épocas do séc.XX a defender a separação do por e do que sempre que empregues na forma interrogativa direta ou indireta, e independentemente da eventual ocultação do consequente.

Voltando aos que defendem o porque? Interrogativo – os quais me dispenso de referir, de tantos que são, ultimamente, por essa Internet e não só, a seguir fielmente uns o que, arbitrariamente, dizem os outros -, até li quem, quiçá por não encontrar uma lógica clara e uma fundamentação precisa, se contentasse em sustentar que numa frase parecida com "porque não vieste?" não há objeto, logo, a frase implica causa, assim manifestando aparente incapacidade para ver além do óbvio, designadamente identificando a elipse do consequente.

Mas que nexo de causalidade poderá existir entre a alegada falta de objeto e a suposta aquisição da componente causal?  E, se uma interrogação visa questionar sobre a causa, como pode pretender-se que a ideia da última não está na primeira, indelevelmente incluída desde a formação da questão?

Adiante revisitarei este assunto.

 


2. Exemplos de Autores Portugueses

Presumir positivamente é grave erro científico, mas, como terá dito um filósofo romano do século II d.C., é impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.

Ora, curiosamente, os eruditos que, certamente com a melhor das boas vontades, se propõem, em sítios na Internet, esclarecer dúvidas de língua portuguesa a quem as tem, citam exemplos de autores consagrados para a conjunção porque, mas, que eu tenha encontrado, nunca para o porque? interrogativo cuja existência insistem em defender, assim parecendo presumir que se trata, em ambos os casos, da mesma coisa.  Também isto algum significado há de ter…

O resultado da polémica é que, aparentemente, tanto o por que? como o porque? parecem estar a caminhar para a extinção, já que não são assim tão raros por essa Internet textos em que, porventura para fugir à polémica, os autores a eles preferem, sempre ou quase sempre, uma forma com o consequente expresso (cf Torrinha, 1946): “por que motivo?” ou “por que razão?”, relativamente às quais a polémica não existe.

Exemplos de frases de mestres da nossa literatura poderão acrescentar alguma humildade ao esforço dos já citados teóricos eruditos, o que amplamente contribuirá para dignificar e credibilizar as suas posições:

Ø  Quem soubera/Por que tudo passou e foi quimera,/E por que os muros velhos não dão rosas!” (Florbela Espanca, “O Meu Orgulho” in “A Mensageira das Violetas”)

Ø  por que é que não andamos, perguntou” (José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”)

Ø  Não entendia por que se demorava a mulher tanto” (idem, ibidem)

Ø  Por que te assustas de cada vez?” (José Régio) 1

Ø  Mas por que para este infame comboio?” (Eça de Queiroz, “A Cidade e as Serras”, no tempo em que o atual porquê? também ainda era por quê?)

Ø  Por que não ergue ferro e segue o atino/De navegar, casado com o seu fado?” (Fernando Pessoa, “A Minha Vida É Um Barco  Abandonado”, in “Cancioneiro”)

Ø  Por que lhes dais tanta dor?!” (Augusto Gil) 1

Ø  Mas por que não lhe telefona logo à noite, por que não recomeçam a velha e quase esquecida amizade?” (Augusto Abelaira) 1

Ø  Por que vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a cruz ensanguentada do calvário?” (Alexandre Herculano) 1

Em contrapartida, quantos porque? encontrarão os defensores desta inovação em autores anteriores a ter começado este gramatical desvario que ninguém parece querer fazer parar?  Muito poucos, por certo; e não parece ajuizado defender minorias quando elas estão objetivamente erradas, como poderá ser aqui o caso.

A menos, claro está, que, como dizem que não há maior cego do que o que não quer ver, os defensores do porque? estejam todos certos e, comigo, Herculano, Abelaira, Gil, Régio e os outros completamente errados, até porque ninguém encontrei que encare o porque? Interrogativo como uma evolução, mas, simplesmente, como uma intemporal realidade.

Importante será, ainda, referir que Cunha e Cintra (2002)1 nem uma vez utilizam porque? para iniciar uma interrogação direta ou indireta, o que não pode ser considerado sem significação.

Apesar de tais exemplos, entre tantos, tantos outros, se me afigurarem inquebrantável evidência da correção da forma interrogativa por que? também em situações de omissão do consequente de que fala Torrinha (1946)4, intensificarei, de seguida, a defesa da minha posição, dado que, embora fragilizada pela generalizada falta de uniforme, coerente, sustentável  e válida fundamentação,  é ainda grande a oposição.

 

3. Comparação com Outros Idiomas Europeus

Dado que não estamos sozinhos no Mundo nem falamos só para nós – experimentemos ver a cara de espanto de:

- um francês, quando lhe perguntarmos: “parce que ne pas aller voir une comédie?

- um inglês, perante: “because are you here?

- um alemão, ao nos ouvir dizer: “weil den nicht?”

 

Pois não, não veremos qualquer cara de espanto, mas pela simples razão de, por não querermos fazer triste figura, alarvidades tamanhas nos não atrevermos a pronunciar.

Idioma

Forma Interrogativa

Forma Causal

Português

Por que?

Porque

Espanhol

¿Por qué?

Porque

Francês

Pourquoi?

Parce que

Inglês

Why?

Because

Alemão

Warum?

Weil

Já em português - o nosso idioma nativo! - não parece ter qualquer importância a progressiva corrupção da grafia do advérbio interrogativo por que? para porque?, própria e exclusiva da conjunção coordenativa explicativa e das conjunções subordinativas causal e final.

 

4. Ao Ler, Como Entoar?

A fluidez é um imperativo da boa leitura mas, para que ela seja possível, necessário se torna que quem escreve cuide de, com a antecedência possível, transmitir ao leitor a entoação afirmativa, negativa ou interrogativa que deverá adotar, ao ler para si;  ou para os outros, por maioria de razão.

Tomemos, como exemplo de uma hipotética fala, “Porque não conhecemos, de Lisboa para Coimbra, o horário dos comboios, não sabemos a que horas iremos chegar”.

A entender-se que porque deve ser utilizado quer na forma afirmativa, quer na interrogativa, ao começar a ler “Porque não conhecemosserá impossível saber por qual das duas entoações deveremos optar, podendo, facilmente, enveredar pela entoação apropriada a “Por que não conhecemos, de Lisboa para Coimbra, o horário dos comboios?”, já que, ao começar a ler, não sabemos como a frase irá terminar.

Já se adotarmos, como forma interrogativa direta, por que? - e não porque? -, logo à primeira palavra “Porque” da frase do nosso exemplo ficaremos cientes de que a entoação afirmativa deve ser aplicada, enquanto, se a fala começar por “por que”, será de imprimir um tom interrogativo ao que se lhe seguirá.

Esta objeção tem razão de ser tão evidente quanto a certeza de não haver como, na prática, a contornar.  Dispenso-me, pois, de para ela outros exemplos, de entre inúmeros possíveis, aqui indicar, ficando, assim, demonstrado que, além da objeção gramatical propriamente dita, a indiscriminada e indiferente utilização do porque causa, também à fluidez da leitura, prejuízo claro e evidente, que cumpre evitar.

 

5. Da Alegada Ausência de Objeto

Voltando à alegada ausência de objeto (cf 1. supra) em, por exemplo, “por que não vamos passear?”, fácil se torna concluir que ela não ocorre, antes se tratando do recurso à elipse do mesmo – ou “omissão do consequente4 -, por comodidade de expressão.

Por que razão não vamos passear?” significa, precisamente, o mesmo que “por que [razão] não vamos passear?”, dado que a dúvida suscitada é, precisamente, a mesma, como precisamente a mesma é a causa que se pretende conhecer e precisamente a mesma será a resposta a obter.

Sendo a pergunta e a resposta iguais, não há como argumentar que num caso não existe objeto.  Existe; simplesmente não se encontra expresso, foi elidido, omitido.

Ora, salvo melhor opinião, existindo o objeto e sendo ele o mesmo, nenhum fundamento existe para que sejam escritas ou classificadas de forma diversa uma e outra interrogações;  tampouco para, de forma absolutamente arbitrária, quebrar uma vez mais, do idioma, a estabilidade e a clareza essenciais à adequada e universal compreensão.

Se, ao me perguntarem quando me irão tratar um dente, eu responder apenas “Tratam amanhã”, garanto que a elipse não gera falta de objeto.  Pelo menos, na cadeira do dentista, onde o vou sentir da mesma forma que se tivesse respondido “Tratam o meu dente amanhã”.

Simplesmente, tal como acontece quando, a seguir a por que? omito motivo ou razão, me terá parecido que o facto de cortar uma palavra ou duas não prejudicaria o significado nem o sentido da oração, o que é um facto.

Só porque escolho não mostrar alguma coisa, ela não deixa de existir.  Seria bom, por exemplo, se, para que o que é mau deixasse de existir, nos bastasse escondê-lo...

 

6. Uma Lacuna Teórica

Quando, como aqui acontece, queremos demonstrar a alguém a nossa razão, importa que seja firme e honesta a nossa convicção, havendo, outrossim, que esgotar, a favor e contra, a possível argumentação.

Devo, assim, sempre com o devido respeito, salientar que Celso Cunha e Lindley Cintra – e, com eles, a generalidade de quem sabedor escreveu sobre gramática - poderão não ter previsto todas as possibilidades ao classificar unicamente por que?, onde?, como? e quando?  como advérbios interrogativos.

Isto, porque apesar de também serem expressões interrogativas formadas por uma preposição seguida do pronome que, não se encontra, percorrendo a sua obra1, classificação para até que?, com que?, de que?, em que? entre que?, para que?, sem que?, sob que? e sobre que?.

Fica, pois, ao leigo a inevitável dúvida quanto à razão pela qual por que? merece a classificação própria de advérbio interrogativo causal, enquanto as outras expressões não são, por exemplo, para que? um advérbio interrogativo final e até que? um advérbio interrogativo temporal?  Ou, inversamente, por que não é por que?, como elas uma mera preposição seguida do pronome que?

Para esta aparente dualidade de critérios não encontrei, nas fontes consultadas, qualquer explicação.

Note-se, porém, que a dúvida se refere, unicamente, à classificação gramatical, é meramente adjetiva, e não afeta, de forma alguma, quanto aqui se disse relativamente à questão substantiva da indispensável utilização diferenciada do por que? Interrogativo e do porque unicamente causal.

Esta aparente opção dos Autores por uma análise menos transversal do problema não deixa de sugerir, no plano prático, uma derradeira questão: se se insiste, atualmente, em transformar por que? em porque?, por que não fazem o mesmo com atéque?, conque?, deque?, emque?, entreque?, paraque?, semque? e sobreque? ?

Ridículo?  Sem dúvida, tal como o porque? o será também.

 

7. Conclusão

Toda esta polémica em redor da forma interrogativa por que? é notoriamente injustificada e vazia de fundamentado conteúdo, além do que que, sobre o tema, existe doutrina bem firmada na gramática portuguesa.

O perigo verdadeiro está naquilo para que me não tenho cansado de alertar: a arbitrariedade, a arrogância com que qualquer um se atreve a, com o maior dos à vontades, “esclarecer”, como dizem, os leitores mergulhados na dúvida – cada vez mais legítima dada a proliferação de informação errada – por ação de meras opiniões não fundamentadas, expressas como se autênticos dogmas fossem as respetivas conclusões.  Tudo isto agravado – e muito - pelo facto de o corretor do Word em que escrevo sugerir a utilização de porque sempre que escrevo por que; e aqui pode estar uma bem importante causa da estonteante proliferação do erro.  Note-se que falo do mesmo infalível Word que não se coíbe de contar como uma palavra qualquer coisa que seja ladeada de espaço, antes e depois, ainda que se trate de uma consoante isolada ou um simples hífen.   Experimentem lá… E é esta coisa que dita, atualmente, as regras da gramática portuguesa!

Eis, pois, belíssimos exemplos das razões que - na perspetiva do leigo que, por isso mesmo, se sustenta em autores consagrados - me levaram a dedicar algumas linhas à reflexão sobre o crescente facilitismo na utilização da Língua Portuguesa.  Eis, também, por que, no texto de apresentação da mesma, falo de liberdade e ambiguidade, de indiferença e facilitismo, de falta de fundamentação.

A verdade por detrás de toda esta discussão estéril parece bem simples: agravada pela tendência social crescente para o “Tanto faz !“, a manifesta dificuldade, devido à deficitária consciência gramatical da generalidade da população, em destrinçar o que separa o por que? interrogativo do porque causal – sem interrogação - tem levado a que, nos anos mais recentes, o primeiro tenha sido substituído por uma espúria forma supostamente interrogativa porque?

Apesar da enormíssima asneira que tal representa – não só pela ambiguidade como pela inútil dificuldade que introduz na leitura -, a pouco laboriosa investigação por parte de quem, de forma empenhada a deveria ter empreendido antes de, supostamente ex catedra, se pronunciar, terá levado a que certos linguistas se tenham encontrado num beco sem saída, pleno de classificações criativas mas inexistentes em qualquer gramática que por eles não haja sido escrita – ou por outros como eles nestes mesmos tempos mais recentes -, entre elas diferindo substancialmente:  ora pronome, ora conjunção, ora advérbio porque?

Confundidos, foram procurar justificações numa alegada mas inexistente perda de objeto, num suposto tratamento diferente em Portugal e no Brasil – sem explicar que o mesmo se deveu, simplesmente, ao facto de o Brasil se não ter (ainda) deixado levar na onda de degeneração do advérbio -, até, quiçá ignorantes da existência de locuções, argumentar com a impossibilidade de classificação gramatical do que em por que?

Ora, quem se queixa da alegada impossibilidade de classificar, individualmente, o que de por que?, como classificará o que de para que? ? Ou deveremos, mesmo, adotar o paraque? ?

A investigação foi, também, descuidada ao não ter analisado a realidade de algumas das línguas europeias mais comummente faladas entre nós, nas quais existem, sempre, termos diferenciados para a interrogação – direta ou indireta – e para a afirmação causal;  e descurou, até, a comparação da evolução de outras interrogativas formadas por preposição seguida do tal inclassificável que – como para que? -. também elas possíveis locuções interrogativas.

Aos que discordam da afirmação de que a ignorância e o facilitismo se encontram na génese da confusão, lembrarei quem tem "nada porque viver", "aquilo porque passei", "porque caminho vais?", e outras das mais chãs manifestações de gente que não sabe escrever, tão correntes na imprensa e nas legendas que, diariamente, nos entram na mente através da televisão. Não tarda, andará por aí quem esclareça dúvidas da língua portuguesa com base no advérbio ou pronome interrogativo de lugar poronde, e outras originalidades que tais...

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Quando a escrita se altera para acompanhar alterações na linguagem falada, estamos perante uma evolução; mas, se a escrita muda por si só, porque nem se foi ver, porque a gramática pouco importa, assim se caminhando para o desconhecimento generalizado de determinada regra e das outras todas e das razões que lhes subjazem, somos levados a pensar em indiferença, em descaso, ou em mera ignorância gramatical.

Em prol da manutenção da clareza e da estabilidade da língua, bem como da essencial fiabilidade da mensagem, proponho que o Word corrija o seu corretor, e que quantos se manifestaram a favor do porque? Interrogativo apaguem os seus esclarecimentos dos sítios em que os afixaram - já que nos livros pouco haverá a fazer -, ou me corrijam fundamentando devidamente em autores consagrados da gramática portuguesa as suas tão criativas opiniões.

Proponho, também, que a forma interrogativa porque? seja, definitivamente, erradicada da escrita, mantendo-se a utilização de por que? interrogativo que sempre foi; e que, querendo quem manda, sempre será.


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1 Cunha, Celso e Cintra,Lindley  – “Nova Gramática do Português Contemporâneo” – 7ª edição, 2016 – Lexicon Editora Digital, Rio de Janeiro

2 Cunha, Celso e Cintra,Lindley – “Breve Gramática do Português Contemporâneo” – 15ª edição, 2002 – Edições João Sá da Costa – Lisboa

Fontinha, Rodrigo Fernandes – “Gramática Portuguesa Elementar” – 2ª edição, 1951(?) - Editorial Domingos Barreira – Porto

4 Torrinha, Francisco – “Gramática Portuguesa” – 7ª edição, 1946 – Edições Marânus – Porto

5 Gomes, A. - “Lições Práticas de Gramática Portuguesa” – Livraria Simões Lopes - Porto