"Um rei fraco
faz fraca a forte gente"
Luís de Camões*)
(Lusíadas, III 138)
Referia-se o Poeta a
Dom Fernando I*), no tempo em que o poder executivo se encontrava nas mãos do monarca, e não
nas do chefe do governo.
Naquele tempo, não existiam eleições; tampouco partidos políticos aos quais, na sequência
de indesejáveis resultados daquelas, o rei tivesse de se coligar, ficando
refém de cedências desmesuradas e fortemente lesivas do interesse nacional.
Naquele tempo, também havia, por toda a parte, escaramuças, guerras e
invasões; mas, dominada pelo soberano, a população que aguentasse os impactos
bélicos, políticos, sociais e económicos, já que outro remédio não tinha, e a
vida fácil não passava de uma ilusão.
Naquele tempo, existiam ainda mais pestes e pragas sanitárias; mas o
incipiente estágio da medicina pouco ou nada permitia fazer para as controlar,
pelo que, sob esse aspeto, pouco importava se o rei era forte ou fraco,
competente ou não, já que impotente seria, certamente, para resolver problemas
de tamanha dimensão.
Naquele tempo, não havia, liberdade, direitos humanos, e eram muito
elementares a justiça, a educação e os outros pilares de uma democracia então
inconcebível, e da qual, hoje, muita gente não tem a mais ínfima noção.
Hoje, sabe-se que todas estas novidades existem; e que, mesmo em
detrimento da ordem pública e da paz social, muito tuga que
por aí anda delas chorudos proventos procurará extrair, em lugar de pensar
como poderá assegurar o respetivo gozo aos concidadãos.
Hoje, depois dos brutais impactos recentemente sofridos, há fundos europeus
generosamente distribuídos em volume suficiente para, não apenas procurar
minorar os efeitos daqueles, como para proporcionar oportunidades únicas de
suster o nosso já proverbial trambolhão económico, seja absoluto, seja
relativo face aos parceiros da União.
Hoje, mais do que nunca, tornou-se de suma importância, para o Estado, ter ao
leme um primeiro-ministro que seja, não apenas popular, habilidoso e flexível,
mas, pelo menos, um gestor convincente, recrutador eficaz, estratega
competente, administrador incorruptível, educador culto e informado,
legislador experiente.
Hoje, como naquele tempo, um governo chefiado por alguém ideologicamente
débil, politicamente elástico, gestor inseguro, justiceiro complacente,
comunicador fechado, planeador disperso, andarilho ausente, apenas faria
ainda mais fraca a nossa cada vez mais fraca gente.