sábado, 3 de janeiro de 2026


Debates, para quê?


Eleger André Ventura seria decapitar o Chega, forçando a extrema-direita à travessia do deserto,
a um recuo de, pelo menos, uma década na sua evolução

O verdadeiro patriotismo dos restantes candidatos consistiria em desistir a favor de Ventura, explicando muito bem porquê;
e o meu patriotismo consistiria em votar em Ventura.
Simplesmente, não consigo assim fazer


1.       Da Franciscana Pobreza
2.       Dos Títulos Escondidos
3.       Da Conversa Vazia
4.       Em quem Votar, afinal?


Da Franciscana Pobreza

Assisti, tão atento quanto aguentei, a todo aquele desfile de conversas sensaboronas chamadas debates preparatórios das eleições para o cargo de Presidente da República.

Fiquei exatamente na mesma no que respeita à decisão sobre em quem votar, como presumo que terá acontecido com a maior parte de quantos se sujeitaram a igual provação,

Em grande parte, por ter a maior parte das insípidas conversas evoluído ao sabor do maior ou menor narcisismo de moderadores com o sestro de interromper constantemente os debatentes, assim aniquilando a possibilidade de virmos a daquilo entender ou a aproveitar alguma coisa.

Moderar parece ser, para alguns mais emproados ou suscetíveis, levar para ali um rol de perguntas a formular, ficando-se seriamente melindrado quando os atores principais ocupam o palco, encarniçando-se a esgrimir as suas diferenças, e se afastam do tão ciosamente preparado guião.

As questões feitas – valha-nos Deus, que agora fala-se assim! – visam, aliás assumidamente, saber o que candidato pensa relativamente a este ou aquele assunto. Mas, não será esse o papel dos tempos de antena e das entrevistas? É que resulta, de facto, bem mais esclarecedor ouvir o que cada um tem a dizer num ambiente descontraído, sem necessidade de estar para ali preocupado em defender-se e esquivar-se de ataques, seja de pessoas educadas e bem intencionadas, seja de alarves arruaceiros e oportunistas que mais não almejam do que aproveitar o tempo para procurara obter, nas eleições vindouras, uma melhor faturação.

Transformados em meras sucessões de insípidas respostas às perguntas da lista do TDC1) do moderador, os pretendidos debates nada mais inspiram, afinal, do que um potente bocejo e a vontade de votar em branco… e de mudar de canal.

Admito: para ajudar a passar o tempo, dediquei-me menos a ouvir o discurso sensaborão dos candidatos, do que a tentar adivinhar as notas que, a cada um, atribuiriam os inevitáveis comentadores; notas essas que, diga-se, também para nada servem, nada dizem, na medida que são atribuídas por pessoas supostamente instruídas, informadas, em nada espelhando a opinião e o sentimento da brutalmente elementar generalidade dos eleitores.

Tiveram, enfim, estas vinte e oito tristes meias horas de inconsequente parlapié o efeito de evidenciar a qualidade profissional da moderadora da SIC, em absoluto contraponto com o moderador da TVI, e deixando algures ali para o meio os da RTP.


Dos Títulos Escondidos

Uma muito pouco subtil subtileza omnipresente nos debates tem sido a omissão dos títulos profissionais ou académicos dos candidatos; e é bom de ver porquê: doutores e engenheiros há muitos, ou “chapéus há muitos” - como o Senhor Santana dizia num vetusto filme português -, e a verdade é que, desta vez, quase todos os que debateram tinham colado ao nome um título académico.

A exceção era o título profissional do candidato militar, e quanto a almirantes, a coisa é mais séria: chamar Senhor Almirante a um candidato quando os outros apenas merecem, quando muito, um já banal Senhor Engenheiro ou Senhor Doutor, seria, nas mentes dos sagazes e popularuchos assessores de imagem, posicioná-lo, logo à partida, em lugar privilegiado; e, isso, não pode ser, pois então!

Vai daí, com a exceção de Marques Mendes no último debate, apenas Gouveia e Melo tratava os oponentes por Senhor seguido do título académico - como, aliás, me pareceria próprio na formalidade do debate, quer as pessoas se conhecessem mutuamente, quer não.

Já que falamos destas coisas protocolares: uma gravatinha, mesmo baratucha, em candidatos à Presidência da República não faria, certamente, grande mal. Ou será que a indumentária de empregado  num café familiar em que, aparentemente, se sente mais à vontade o Senhor Engenheiro, seria a escolhida para o acompanhar – Deus não permita! - no futuro desempenho da função?

"Originalidades", dirão...

Da Conversa Vazia

Fica-nos uma questão fundamental: além da venda de publicidade pelos canais televisivos - que, com alegado e mui propalado sacrifício económico, lá se entenderam para a ocasião -, qual a utilidade de promover debates destes, e em tão grande quantidade, antecedendo a eleição do Presidente da República?

Como, largas dezenas de vezes, a todos ouvimos ao longo destas quase trinta meias horas, não se trata de eleições legislativas, nas quais se tornaria absolutamente essencial conhecer o posicionamento político dos diversos atores.

Para a Presidência da República, basta-nos conhecer, muito ao de leve, a orientação tendencial da bússola política de cada um, ou do respetivo catavento, coisa que sabemos, de antemão, através da mais ou menos constante presença nas televisões dos principais de entre eles; e as candidaturas dos outros interessam, evidentemente, para coisa nenhuma, além do agitar da bandeira clubística das ideologias pretensamente originais com que nos acenam, porventura bem intencionadas, mas sem credibilidade ou viabilidade reconhecíveis, ainda que levemente.

Que importa saber como gostaria o candidato de remodelar a justiça ou o SNS, que ideias tem para resolver a crise da habitação, ou do pântano chamado educação, que não passa de um ensino desgovernado por parte de indivíduos maioritariamente com muito pouca autoridade, porque, também eles, tiveram ensino, mas muito pouca educação?

Que sentido fará dizer-se que isto são competências dos órgãos legislativos – um dos quais o Presidente da República, constitucionalmente, não é -, para de seguida bombardear os candidatos com interrogações para as quais qualquer resposta seria inútil perante a especificidade da função? Não admira, assim, que nos tenham aparecido, a debater, políticos que mais pareciam apóstatas, de tão independentes que se diziam dos respetivos partidos!

Importa é saber se se trata de um candidato com ânsias de protagonismo, que gosta de ficar na fotografia, ou de um indivíduo  moderado, ponderado, discreto, ativo e firme, mas com sentido de Estado.

Importa saber se ele se perde na procura, a todo o custo, de consensos impossíveis ou que não tem a mais pequena vocação para procurar, ou se, pelo contrário, se mostra capaz de, constatada tal impossibilidade, intervir ativamente e de forma ponderada no interesse de quantos com ele contam como garante último da liberdade.

Importa saber se a sua magistratura de influência se resumirá à intriga política e à ameaça do veto, ou se fará valer uma autoridade pessoal genuína, que emane, não apenas do conhecimento, mas, sobretudo, da educação e da formação. Se é um indivíduo empenhado e corajoso, ou se assistiremos a uma presidencial criptobiose que ainda agrave mais os inevitáveis e muito próximos desafios.

Importa, enfim,  conhecer a personalidade e a dimensão axiológica do candidato; mas isto não vai lá com debates e picardias.

O resto do que se pergunta e responde é mero folclore, guerrilha política a preparar futuras eleições, e mais receita em publicidade para as sacrificadas e patrióticas televisões.

Tratando-se, como se trata, de candidatos de terceiríssima ordem, como nunca tão fracos em eleições anteriores terá havido, foram ao ponto de se apresentar mediante uma espécie de casuística exemplificativa, alcandorada nos méritos de pregressos e mais ou menos colendos ocupantes do sólio de Belém.

Resultado: na falta de verdadeiro assunto, em cada debate, os mesmos candidatos acabavam, inevitavelmente, a repetir ad nauseam a mesma coisa; e, a serem constantes os critérios das sondagens, o efeito ersclarecerdor dos debates sobre as intenções de voto nos quatro principais candidatos tecnicamente empatados  foi… nulo.

Excetua-se Cotrim de Figueiredo, que alguma coisa terá ganho. Mas, convenhamos que tanto tempo, tanta paciência e tanta despesa para alterar uns míseros quatro ou cinco por cento nas sondagens relativas a um candidato, parece muita parra e pouca coisa uva. Haja pachorra!

De tudo aquilo, ficou-nos, embora na avelhentada retórica comunista, o humor elegante de António Filipe, a lógica inabalável e, digamos, muito própria de Jorge Pinto, o inegável talento de Catarina, o nervosismo de Cotrim, a comovente melancolia de Seguro, o ora anfibológico e caviloso, ora percuciente profissionalismo de Marques Mendes, o confrangedor, mas pertinaz, titubear de Gouveia e Melo… e muito, muito tempo deitado pela janela fora.

 

Em quem Votar, afinal?

Paradoxalmente, por incrível que, assim de repente, possa parecer, o voto útil na defesa dos valores democráticos seria o voto no Doutor Ventura. Porquê? Porque lhe estaríamos a assegurar a vitória na primeira votação, já se sabendo que, chegado à segunda volta, os anticorpos lhe negarão qualquer possibilidade de eleição.

Eleger André Ventura seria decapitar o Chega, forçando a extrema direita à travessia do deserto, a um recuo de, pelo menos, uma década na sua evolução, dando, nesse emmeio, mais uma oportunidade à democracia para encontrar um novo rumo, um novo fôlego, uma nova vocação.

Onde, de facto, seria possível encontrar, como sucessor, algúem tão eficaz como Ventura, com toda a sua anchura de autêntico bonecreiro dos lastimáveis satélites, parlamentares e não só, tão igualmente desprovido de, praticamente, tudo aquilo que convém à condução dos destinos da população?

A verdade, é que nem  o próprio Ventura, nem o Chega alguma vez quiseram vê-lo como Presidente da República, e a razão é bem simples: o Chega precisa do "André", e dirigir um partido político não é, seguramente, o papel do mais alto magistrado da Nação.

Já se sabe que sempre o pobre André Ventura de Mem Martins seria um primeiro-ministro fantoche nas mãos da cabalística retaguarda da extrema direita, do poderoso e abastado bentos por detrás do Chega: nas mãos de quem mexe e sempre mexerá os cordelinhos de toda aquela coisa, e, por interesse próprio, esteve na base da fundação do Partido.

Não obstante, enquanto primeiro-ministro, sempre deteria Ventura, ainda que formalmente, o poder executivo, o que lhe permitiria, pelo menos, tentar um dos seus proverbiais golpes de rins, acabando, quiçá, por virar o jogo a seu favor, deixando os atuais padrinhos na mão.

Por outro lado, o que poderia Ventura fazer por ele mesmo com os débeis poderes do Presidente da República Portuguesa? Nada, evidentemente. Seria, para o Chega, a morte lenta; para ele, a suprema e irremediável frustração.

A pensarmos assim, o verdadeiro patriotismo dos restantes candidatos consistiria em desistir a favor de Ventura, explicando muito bem porquê; e o meu patriotismo consistiria em votar em Ventura.

Simplesmente, não consigo assim fazer.

 

1) TDC - Trabalho de casa, feito em casa pelo aluno, na sequência do trabalho para casa, passado na escola pelo professor, o famigerado TPC.

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025


O Princípio e o Fim

Como já vos disse, não sou católico. Tampouco professo alguma religião.
Mas já fui católico. "Muito", até. Passei Natais em família. Muitos Natais em família. Encantadores para alguns, entediante rotina para outros.

Até que, de forma inesperada, alguém com obrigação de saber do que falava, disse algo que talvez não devesse ter dito.
Mas disse-o; e, embora tenha, nesse preciso instante, matado em mim a encantadora Fé e, com ela, a confortável Esperança, estou-lhe grato por ter dito o que disse, do alto do púlpito e com toda a autoridade da função.
Sem intenção, buscando, até, o efeito contrário, abriu-me os olhos.

Dessa luz radiante e pura, desse tempo infinito da Fé, desse aconchego de um pai invisível mas omnipresente e supostamente omnipotente que me livraria de todo o mal, separava-me, afinal, uma fração de segundo: primeiro, da dúvida dilacerante, das trevas efémeras dos que se dizem iluminados, esclarecidos; depois, da segurança calma e firme dos que sabem que, na Vida, apenas contam os que nos são próximos, a quem podemos fazer algum bem; da segurança dos que sabem ser nada, ter nada, e nada poder esperar, também.

A Fé é uma crença paliativa, que em nós gera belas ilusões.

Mesmo assim, e em memória desses Natais de outrora, trago-vos aqui a gravação, num disco velhinho e no meio de uma canção bem conhecida, de um singelo mas comovente poema, que não encontrei na Internet.

Com ele para encantar crentes e não crentes, ficam os meus melhores votos para este Natal.