“Eleger André Ventura seria decapitar o Chega, forçando a extrema-direita à travessia do deserto,
a um recuo de, pelo menos, uma década na sua evolução”
“O verdadeiro patriotismo dos restantes candidatos consistiria em desistir a favor de Ventura, explicando muito bem porquê;
e o meu patriotismo consistiria em votar em Ventura.
Simplesmente, não consigo assim fazer”
2. Dos Títulos Escondidos
3. Da Conversa Vazia
4. Em quem Votar, afinal?
Da Franciscana Pobreza
Assisti, tão atento quanto aguentei, a todo aquele desfile de conversas sensaboronas chamadas debates preparatórios das eleições para o cargo de Presidente da República.
Fiquei exatamente na mesma no que
respeita à decisão sobre em quem votar, como presumo que terá acontecido com a maior parte de quantos se sujeitaram a igual provação,
Moderar parece ser, para alguns
mais emproados ou suscetíveis, levar para ali um rol de perguntas a formular,
ficando-se seriamente melindrado quando os atores principais ocupam o palco, encarniçando-se
a esgrimir as suas diferenças, e se afastam do tão ciosamente preparado guião.
As questões feitas – valha-nos Deus, que agora fala-se assim! – visam, aliás assumidamente, saber o que candidato pensa relativamente a este ou aquele assunto. Mas, não será esse o papel dos tempos de antena e das entrevistas? É que resulta, de facto, bem mais esclarecedor ouvir o que cada um tem a dizer num ambiente descontraído, sem necessidade de estar para ali preocupado em defender-se e esquivar-se de ataques, seja de pessoas educadas e bem intencionadas, seja de alarves arruaceiros e oportunistas que mais não almejam do que aproveitar o tempo para procurara obter, nas eleições vindouras, uma melhor faturação.
Transformados em meras sucessões de insípidas respostas às perguntas da lista do TDC1) do
moderador, os pretendidos debates nada mais inspiram, afinal, do que um potente
bocejo e a vontade de votar em branco… e de mudar de canal.
Tiveram, enfim, estas vinte
e oito tristes meias horas de inconsequente parlapié o efeito de evidenciar a qualidade profissional da moderadora da SIC, em absoluto
contraponto com o moderador da TVI, e deixando algures ali para o meio os da RTP.
Dos Títulos Escondidos
Uma muito pouco subtil subtileza omnipresente nos debates tem sido a omissão dos títulos profissionais ou académicos dos candidatos; e é bom de ver porquê: doutores e engenheiros há muitos, ou “chapéus há muitos” - como o Senhor Santana dizia num vetusto filme português -, e a verdade é que, desta vez, quase todos os que debateram tinham colado ao nome um título académico.
A exceção era o título profissional
do candidato militar, e quanto a almirantes, a coisa é mais séria: chamar Senhor
Almirante a um candidato quando os outros apenas merecem, quando muito, um já banal Senhor
Engenheiro ou Senhor Doutor, seria, nas mentes dos sagazes e
popularuchos assessores de imagem, posicioná-lo, logo à partida, em lugar
privilegiado; e, isso, não pode ser, pois então!
Vai daí, com a exceção de Marques
Mendes no último debate, apenas Gouveia e Melo tratava os oponentes por Senhor
seguido do título académico - como, aliás, me pareceria próprio na formalidade
do debate, quer as pessoas se conhecessem mutuamente, quer não.
Já que falamos destas coisas protocolares: uma gravatinha, mesmo baratucha, em candidatos à Presidência da República não faria, certamente, grande mal. Ou será que a indumentária de empregado num café familiar em que, aparentemente, se sente mais à vontade o Senhor Engenheiro, seria a escolhida para o acompanhar – Deus não permita! - no futuro desempenho da função?
"Originalidades", dirão...
Da Conversa Vazia
Como, largas dezenas de vezes, a
todos ouvimos ao longo destas quase trinta meias horas, não se trata de
eleições legislativas, nas quais se tornaria absolutamente essencial conhecer o
posicionamento político dos diversos atores.
Que importa saber como gostaria o
candidato de remodelar a justiça ou o SNS, que ideias tem para resolver a crise
da habitação, ou do pântano chamado educação, que não passa de um ensino
desgovernado por parte de indivíduos maioritariamente com muito pouca
autoridade, porque, também eles, tiveram ensino, mas muito pouca educação?
Que sentido fará dizer-se que isto são competências dos órgãos legislativos – um dos quais o Presidente da República, constitucionalmente, não é -, para de seguida bombardear os candidatos com interrogações para as quais qualquer resposta seria inútil perante a especificidade da função? Não admira, assim, que nos tenham aparecido, a debater, políticos que mais pareciam apóstatas, de tão independentes que se diziam dos respetivos partidos!
Importa é saber se se trata de um
candidato com ânsias de protagonismo, que gosta de ficar na fotografia, ou de
um indivíduo moderado, ponderado,
discreto, ativo e firme, mas com sentido de Estado.
Importa saber se ele se perde na
procura, a todo o custo, de consensos impossíveis ou que não tem a mais pequena
vocação para procurar, ou se, pelo contrário, se mostra capaz de, constatada tal impossibilidade, intervir ativamente e de forma ponderada no interesse de
quantos com ele contam como garante último da liberdade.
Importa, enfim, conhecer a personalidade e a dimensão
axiológica do candidato; mas isto não vai lá com debates e picardias.
O resto do que se pergunta e
responde é mero folclore, guerrilha política a preparar futuras eleições, e mais
receita em publicidade para as sacrificadas e patrióticas televisões.
Tratando-se, como se trata, de
candidatos de terceiríssima ordem, como nunca tão fracos em eleições anteriores
terá havido, foram ao ponto de se apresentar mediante uma espécie de casuística
exemplificativa, alcandorada nos méritos de pregressos e mais ou menos colendos
ocupantes do sólio de Belém.
Resultado: na falta de verdadeiro assunto, em cada debate, os mesmos candidatos acabavam, inevitavelmente, a repetir ad nauseam a mesma coisa; e, a serem constantes os critérios das sondagens, o efeito ersclarecerdor dos debates sobre as intenções de voto nos quatro principais candidatos tecnicamente empatados foi… nulo.
Excetua-se
Cotrim de Figueiredo, que alguma coisa terá ganho. Mas, convenhamos que tanto tempo, tanta paciência e tanta
despesa para alterar uns míseros quatro ou cinco por cento nas sondagens relativas a um candidato, parece muita parra
e pouca coisa uva. Haja pachorra!
De tudo aquilo, ficou-nos, embora na avelhentada retórica
comunista, o humor elegante de António Filipe, a lógica inabalável e, digamos, muito própria
de Jorge Pinto, o inegável talento de Catarina, o nervosismo de Cotrim, a comovente
melancolia de Seguro, o ora anfibológico e caviloso, ora percuciente
profissionalismo de Marques Mendes, o confrangedor, mas pertinaz, titubear de
Gouveia e Melo… e muito, muito tempo deitado pela janela fora.
Em quem Votar, afinal?
Eleger André Ventura seria decapitar o Chega, forçando a extrema direita à travessia do deserto, a um recuo de, pelo menos, uma década na sua evolução, dando, nesse emmeio, mais uma oportunidade à democracia para encontrar um novo rumo, um novo fôlego, uma nova vocação.
Onde, de facto, seria possível
encontrar, como sucessor, algúem tão eficaz como Ventura, com toda a sua
anchura de autêntico bonecreiro dos lastimáveis satélites, parlamentares e não
só, tão igualmente desprovido de, praticamente, tudo aquilo que convém à condução
dos destinos da população?
A verdade, é que nem o próprio Ventura, nem o Chega alguma vez quiseram vê-lo como Presidente da República, e a razão é bem simples: o Chega precisa do "André", e dirigir um partido político não é, seguramente, o papel do mais alto magistrado da Nação.
Já se sabe que sempre o pobre
André Ventura de Mem Martins seria um primeiro-ministro fantoche nas mãos da
cabalística retaguarda da extrema direita, do poderoso e abastado bentos por
detrás do Chega: nas mãos de quem mexe e sempre mexerá os cordelinhos de toda
aquela coisa, e, por interesse próprio, esteve na base da fundação do Partido.
Não obstante, enquanto
primeiro-ministro, sempre deteria Ventura, ainda que formalmente, o poder
executivo, o que lhe permitiria, pelo menos, tentar um dos seus proverbiais
golpes de rins, acabando, quiçá, por virar o jogo a seu favor, deixando os atuais padrinhos na
mão.
Por outro lado, o que poderia Ventura fazer
por ele mesmo com os débeis poderes do Presidente da República Portuguesa? Nada,
evidentemente. Seria, para o Chega, a morte lenta; para ele, a suprema e
irremediável frustração.
A pensarmos assim, o verdadeiro
patriotismo dos restantes candidatos consistiria em desistir a favor de
Ventura, explicando muito bem porquê; e o meu patriotismo consistiria em votar
em Ventura.
Simplesmente, não consigo assim
fazer.
1) TDC - Trabalho de casa, feito em
casa pelo aluno, na sequência do trabalho para casa, passado na escola
pelo professor, o famigerado TPC.




