Lembro-me bem de um dia frio de não sei já que Novembro, por volta das sete ou oito da noite. Combinara com amigos um espetáculo no São Carlos, e, talvez na Brasserie, uma ceia, a rematar. Nunca fui muito dado a estas coisas, e a idade, claro, nada veio alterar. Mas, uma vez não são vezes, e a rotina e a pasmaceira são sempre de afugentar.
Subia a Rua Garret pelo passeio da direita, quando ouvi, da
ombreira de uma porta, um daqueles "dê-me qualquer coisa p’ra comer"
que, de tão pouco naturais e tão frequentes, me fazem duvidar da motivação de
quem ali está.
Isto em mente, ignorei o pedido de esmola - "mais um" - e andei um pouco mais. Algo, porém, naquela voz sem rosto me fez
hesitar, estacar e, por fim, retroceder até ao ponto da rua em que se fizera
ouvir.
Foi, então, que a vislumbrei, na penumbra, meia tapada pela porta, na decrépita e escura entrada que escolhera para se abrigar.
Tal como da voz, transparecia do rosto um indizível sofrimento que dúvidas não podia deixar: aquela fome de alimento e de amor que nenhum rosto deixa disfarçar, que a miséria não é só falta de teto, de roupa, de comida, ou de dinheiro para a comprar.
Que poderia fazer, na pressa do relógio para o início do
espetáculo, a lucidez comprometida com o que acabava de se me deparar?
Dei-lhe umas quantas e apressadas moedas, umas breves palavras, de há tanto
tempo que foi sei lá quais! Pouco, muito pouco. O que bastasse para uma ou duas
refeições no McDonald's ali perto, por certo em nada comparáveis ao repasto que
me preparava para gozar; e, de conforto, nada, que consolar leva tempo que eu não tinha para gastar.
Mas, claro, lá veio o grilo falante soprar-me ao ouvido que deixasse lá, que
não se podia dar a todos; que, se desse muito, ia ser pior, porque
"eles" não estão habituados a ver dinheiro e muito mal o irão gastar;
que talvez até fosse tudo a fingir, como o "ceguinho" do Metro; que
tinha gente à espera... Que, que e mais que. Mais todos os outros
"ques" que, melhor ou pior, em semelhantes situações, sem grande sucesso a consciência
nos tentam lavar.
Já lá vai tempo. Muito tempo. Mas, não esqueço a voz, o
olhar, a torrente de palavras de gratidão pelo nada que acabara por lhe dar.
Nem esqueço o que deixei por fazer: pela Senhora sem Nome, e
por sei lá quantos que, aqui e ali, me estendem a mão.
Aqueles por quem passo sem olhar.

