"Seja qual for o ponto de vista de onde olhemos a questão,
mostra-se desrazoável classificar
como "excelente" o desempenho da maior fatia
dos docentes - ou de quaisquer outros trabalhadores"
"Pensará a dita personagem que os professores dignos de ser assim chamados
encaixarão, de ânimo leve,
o insulto à respetiva lucidez e capacidade
de análise, por parte de quem a eles acaba por, indelevelmente,
colar
a imagem de um discurso primário como este, sem qualquer base científica
em que se arrimar?"
Quando nos pedem um exemplo de demagogia, acabamos, quase invariavelmente, por
falar do discurso deste ou daquele dirigente partidário, de qualquer quadrante
político, que, com o intuito de impressionar o auditório - leia-se, "o
eleitorado"... - ilustra a parlenga com supostos casos práticos de substância
nenhuma, mas de forma suficientemente barroca e prenhe de aspetos mais ou
menos folclóricos para fazer emergir sentimentos, sejam eles de aquiescência
ou de aplauso, de mágoa ou de indignação.
Nesta arte, atrás dos dirigentes políticos não ficam, seguramente, os
sindicais, do que é exemplo recente o Coordenador do Sindicato dos Professores
da Região Centro, Conselheiro Nacional e Secretário-Geral da Federação
Nacional dos Professores (como esta gente gosta de títulos compridos e
pomposos!...), Dirigente da Frente Comum de Sindicatos da Administração
Pública e Membro do Conselho Nacional e da Comissão Executiva da
CGTP-Intersindical Nacional.
Talvez para fazer crer aos mais distraídos que alguma chama ainda arte no cada
vez mais enfezado Partido Comunista Português (PCP) - que, todas estas
importantes e representativas estruturas, agora na quase clandestinidade lá
vai continuando a manipular -, decidiu o pugnaz e pertinaz dirigente proceder,
em conferência de imprensa, a uma chaboqueira demonstração das limitações e da
ineficácia do Sistema Integrado de Avaliação de Desempenho da Administração
Pública (SIADAP) e do pauperismo a que, do seu ponto de vista, ela
condena os profissionais representados pela Federação que dirige, demonstração
essa que, antes de continuar a leitura, recomendo ao caro Leitor que aqui não deixe de apreciar.
Além de ter decidido enveredar, na apresentação, por ações tão violentas como
o partir pratos em público - atitude surpreendente vinda de alguém afeto a uma
estrutura tão pacifista como o PCP... -, recorreu o distinto
conferencista a uma indescritível demonstração baseada em três pratos de
laranjas pelos quais espalhou uma amostra de quinze delas.
Atribuiu-as desta forma: ao primeiro prato, sete peças de fruta; ao segundo,
"por exemplo, sei lá", cinco; e, ao terceiro, "vamos admitir"
três. Tudo muito cândido e descontraído, como se do mais natural do Mundo se
tratasse.
O senão desta aparentemente improvisada e ingénua distribuição reside,
todavia, no facto de, ao primeiro prato, ter feito corresponder a quantidade
de docentes que, na amostra, seria classificada com excelente (sete);
ao segundo prato, a que obteria muito bom (cinco); e, ao terceiro, quem
teria obtido, apenas, bom.
- x -
Dois vícios lógicos e objetivos logo saltam à vista, por dizerem bem do
descoco com que estas demonstrações são feitas, e da irremediável
fragilidade de uma argumentação eivada, quer de insanável erro no pressupostos
de facto, quer de notório e despudorado viés.
O primeiro vício consiste na patente falta de correspondência, com a
realidade, dos pesos atribuídos a cada classe, já que,
seja qual for o ponto de vista de onde olhemos a questão, se
mostra desrazoável classificar como "excelente" o desempenho da maior fatia dos docentes - ou de quaisquer outros
trabalhadores, o que, entre outros males, desde logo desvirtuaria o próprio conceito de excelência.
Excelència é a qualidade daquele que se destaca dos restantes, do
quase perfeito, do virtualmente inigualável, definição universalmente aceite e
que, inquestionavelmente, pulveriza qualquer tentativa de vulgarização em que
se procure confundir tão raro e sublime nível de desempenho com outro de mera
normalidade.
Por muito bom se designa, por sua vez, aquele que se não limita a
demarcar-se, em algum grau, do normal - como acontece com o simplesmente
bom -, mas que, embora sem atingir um patamar de excelência, o faz
de forma suficientemente expressiva para merecer que o adjetivo qualificativo
seja elevado a um grau superlativo - o que também pressupõe uma escassez
assinalável, na medida em que se aproxima do topo da escala.
Por si só, este escalonamento tornaria evidente que, a menos que passemos a
atribuir, a excelente e a muito bom, os significados
quase opostos dos atuais,
a distribuição proposta na conferência de imprensa é, meramente,
anedótica e pensada para consumo de pessoas suficientemente elementares
para, com tamanha parvoíce, não ficarem incomodadas; não, seguramente, para docentes dotados do sentido crítico indispensável a
quem trabalha para um ministério que se propõe educar.
Como se não bastasse a pouco invejável fase que a nobre profissão atravessa -
com uma carreira que se afigura pouco motivadora para aqueles que, com
qualidade, brio e dedicação a exercem -, pensará a dita personagem que os
professores dignos de ser assim chamados encaixarão, de ânimo leve, o insulto
à respetiva lucidez e capacidade de análise, por parte de quem a eles acaba
por, indelevelmente, colar a imagem de um discurso primário como este, sem
qualquer base científica em que se arrimar?
Ter-se-á, outrossim, o improvisado comediante esquecido de incluir os pratos
de laranjas correspondentes às restantes três classes do SIADAP:
suficiente, medíocre e mau? Ou será que a qualidade
dramaticamente elementar da aprendizagem manifestada pelo ror de alunos que
acaba, quase analfabeto, o ensino secundário permitirá, paradoxalmente,
concluir que não existem, em Portugal, professores com desempenhos
suficientes, medíocres e, muito menos, maus?
Considerará a dita pessoa ter, com tão triste espetáculo, prestado um serviço
útil e digno aos seus representados, cuja inteligência, afinal, ali apenas
foi, de alguma forma, insultar?
Ou serão os argumentos disponíveis tão escassos e débeis que se torne
necessário atirar para a frente com o folclore para, em desespero de causa,
tentar impressionar? É, pelo menos, a ideia com que se fica, queiramos ou não...
Ou tratar-se-á, mais simplesmente, do reconhecimento da completa incapacidade
para, de forma minimamente elaborada, sobre esses argumentos discursar?
Tendo presente que "a qualidade da expressão verbal consiste em ser claro sem cair na
banalidade", a ser a última a razão, a situação reveste-se de singular gravidade, dado
que tal incapacidade comunicacional residirá em alguém que, não nos
esqueçamos, além da tal lista de pomposos cargos é, também, professor. Ou foi?
Ou já se esqueceu de que foi?
Que exemplo dá aos alunos um docente que se vê forçado a recorrer a um
espetáculo destes, que muitos eles não deixarão de ver, para fazer passar uma
mera reivindicação salarial?
Que classificação ser+a de atribuir ao desempenho de um
comunicador destes, que prefere refugiar-se na vulgaridade de quem
entende que o gesto é tudo, a primar por alinhar devidamente as ideias e, de
forma articulada e minimamente elegante, com elas saber impressionar?
Suficiente, medíocre ou... mau?
* *
Bem, mas isto é nada, quando comparado com a epidemia de palavrões - ou de um certo palavrão - que por aí grassa graças a um desajeitado comentador da guerra, que não sabe quando deve ficar calado.