sábado, 9 de outubro de 2021


Matusalém - A Relíquia Comunista Portuguesa

 "Não há no resultado em Lisboa qualquer mérito para o Partido Comunista
ou para o seu eterno Candidato, nem tal prenuncia qualquer surpresa agradável
para uma eleição posterior: simplesmente, aconteceu
"

Não se entende como há, no Partido Comunista Português,tantos ateus que, ao mesmo tempo,
dizem ser tão crentes 
e fiéis seguidores de tamanhos dislates

Não é livre nem defensável um estado de onde as pessoas não podem sair
para outro que seja povoado por quem livremente escolheu lá ficar


  
Plano do Ensaio

   1. Capitalismo e Socialismo
   2. Comunismo
   3. Engodo
   4. Delírio
   5. O Enigma Português
   6. O Partido de Hoje
   7. O Futuro sem Partido

1. Capitalismo e Socialismo

Já se sabe que uma boa parte dos portugueses anda para aí insolvente, falida, endividada até mais não poder ser. Alguns, devido a percalços familiares ou sanitários que não há como antever ou evitar, mas, porventura, a maior parte porque gastou mais do que podia e devia, pressionada por uma premente necessidade de embasbacar a vizinhança com a viagem à inevitável República Dominicana, ou com o carrito novinho em folha “mais potente e maior que o teu, que até já tem uma matrícula do mês passado”.

Dá, até, ideia de que estes lusitanos que tão bem cuidam da própria imagem não são minimamente inteligentes ou detentores de uma instrução básica, requisitos mais do que suficientes para se saber muitíssimo bem que, primeiro, se cria riqueza e, só depois, se distribui o que se amealhou; que primeiro se ganha e só depois se gasta, sob pena de, talvez por uma vida inteira, ficarmos reféns do crédito e, connosco, quem connosco vive e quem em nós confiou.

Isto, qualquer pessoa minimamente formada e com dois dedos de testa é capaz de entender; e nisto se baseiam, dito de forma muito simples, os sistemas capitalistas que, privilegiando a racionalidade na governação, se opõem aos regimes socialistas que pretendem, a qualquer preço, distribuir pelos trabalhadores a riqueza antes de a ter. Falo, naturalmente, dos regimes socialistas puros, e não daquela alaranjada coisa portuguesa que, além do punho fechado e da desafinada cantilena “Portuguesas e Portugueses”, de socialista só o nome ainda tem.

Esquerda Mais à Esquerda
Por isso mesmo, nunca chegam os estados governados por estes regimes da esquerda mais à esquerda a acumular o pecúlio mínimo necessário à viável, prudente e relativamente segura gestão económica das populações, já que, tal como os portugueses que compram com o dinheiro dos outros mais tarde ficam a saber, rapidamente tais regimes se afogam em dívida soberana que nunca irão pagar, diariamente engordada por juros que não param de se acumular, assim absorvendo qualquer valor acrescentado que pudesse, um dia, contribuir para a prometida, desejável e saudável riqueza popular.

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Como também toda a gente sabe, o grande problema do capitalismo está em, sabendo ele – e se sabe! - criar riqueza, muitas vezes se esquecer de, ainda que por via dos salários ou dos impostos, parte dela distribuir por aqueles graças a cujo esforço é amealhado aquilo que o bem sucedido capitalista acumulou.

Alguns, não distribuem porque se esquecem, ou porque nem tal coisa lhes passa pela cabeça. Outros, porque a instrução primária e a educação em casa não foram grande coisa, e na escola do capitalismo não se ensina a distribuir. Em qualquer caso, torna-se, por causa desse recorrente lapso, essencial que quem trabalha se organize em partidos políticos ou em grupos de pressão contra o tendencial domínio de um capitalismo cada vez mais predador.

Como escreveu um conhecido e polémico sacerdote português do séc.XVII, "entre todas as injustiças, nenhumas clamam tanto ao Céu, como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres, e as que não pagam o suor aos que trabalham"*)

Sucede, porém, que, tal como há capitalismo bom e capitalismo pior do que mau, também há socialismo bom e socialismo pior do que mau. Quanto a isto, não tenhamos ilusões.

O capitalismo bom e o socialismo bom são, afinal, uma e a mesma coisa, tal como tudo o que é verdadeiramente bom, aquilo que habita em qualquer de nós que seja sensível ao estado de necessidade em que vive a maior parte da população mundial e se disponibilize, pobre ou rico, a partilhar aquilo que tem.

Não se trata, aqui, de sistemas de organização social, mas daquela bondade, pura e simples, que, se fosse universal, dispensaria a existência de capitalismos e de socialismos, de esquerdas e de direitas, de fações e dessas coisas todas com que diariamente os meios de comunicação social, para vender publicidade, nos enchem os há muito saturados ouvidos nas rebuscadas mas vazias palavras de politólogos e de outros sabichões, muitas vezes contratados apenas para preencher tempo de antena nas televisões.

A verdade é que, se não fosse o facto sem remédio de cada um se preocupar apenas com o seu umbigo, bastaria uma organização elementar e consensual do Estado para que todos vivessem com a comodidade e o conforto necessários ao desempenho voluntário e empenhado de tarefas socialmente relevantes, bem como ao lazer e à produção lúdica e artística, essenciais àquela pausa que a cada vez mais martirizada mente sempre requer.

Utopia do Partido
Não passando isto de utopia, resta a eterna querela entre o capitalismo*) mau e o socialismo*) mau, o segundo exigindo do primeiro aquilo que este não quer distribuir; e cuja posse, muitas vezes, nem detém, seja porque o capitalista individual não tem como aumentar regalias e salários, seja porque o capitalista Estado que não tem como… fazer o mesmo, um e outro, simplesmente porque ainda não amealharam o suficiente, ou porque tiveram de despender mais do que o esperado.

Para o socialismo mau, no entanto, isto são pormenores, como se sabe, já que reivindica incessantemente tudo, como se nada tivesse um custo, atirando, depois, a responsabilidade pelos inevitáveis desequilíbrios causados pelos seus desmandos para os ombros dos governantes que tiverem acabado por ceder à ameaça de sucessivas greves e à infernal gritaria de braço esticado e punho erguido.

A diferença reside, afinal, na opção quanto ao momento de gastar: loucamente, antes de ter, ou sensatamente depois, quando já se tem.

 

2. Comunismo

Um pouco além do socialismo, temos o comunismo*) a procurar impor, se necessário pela força, a distribuição igualitária dos bens e dos rendimentos, num mundo - para os seus defensores, ideal - em que cada um colabora em função das respetivas capacidades, mas recebe unicamente de acordo com as suas necessidades.

Por outras palavras, para os comunistas, cada um é obrigado a dar tudo o que pode e, se puder mais, acaba por receber tanto ou menos do que os outros; o que, olhando para dentro de nós mesmos e para a cara de cada um com que na rua nos cruzamos, se vê logo que não é, de facto, o sistema político e social mais adequado para quem quer ser feliz

Exemplificando, seria esse um mundo idílico em que, designadamente, os milionários que ganham a vida a dar pontapés numa minúscula bola para a enfiar naquelas gigantescas balizas lá teriam de trocar o magnífico Porsche do último modelo por um carrito do povo, como o Volkswagen carocha do meu tempo. Mais ou menos isto…

Claro que há burros em todas as ideologias, da mais à esquerda à mais à direita. Todavia, como só alguns comunistas é que são burros, a grande maior parte está cansada de saber que tamanho disparate é de concretização impossível, e que, mesmo no imaginário, só há mais de cem anos atrás poderia ter feito algum sentido, quando não havia redes sociais, nem ao menos informática de uso doméstico, e o futebol era coisa para verdadeiros desportistas e da qual apenas começava a ouvir-se falar.

Sabedoria
Sabendo, como sabem, tudo isto, os que se dizem comunistas, conhecem minimamente a natureza humana e não são burros só podem estar na política de má-fé, a enganar.

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O facto de ser, evidentemente, tolo o ideário comunista não obsta, porém, a que, como já se disse, para fazer face aos desmandos capitalistas reste, a quem trabalha, organizar-se em partidos políticos, em sindicatos, em outros grupos de pressão.

A solução não passa, porém, pela existência de um partido único de esquerda, muito menos um partido cuja cartilha considere normal a liquidação de quem com ele se não identifique ou lhe não obedeça, liquidação essa por vezes até física, como é inevitável em quem advoga a tomada do poder pela força.

Tal é a ideia muito sua que os verdadeiros comunistas têm de liberdade e de democracia, de progresso, de abertura de espírito, daquilo a que alguns chamam democracia avançada, entre outras coisas que não podem deixar de nos trazer à lembrança a prática dos talibãs - que também já se dizem avançados e modernos*).

Tampouco pode a dignificação do trabalho e de quem o executa – ou seja, o reconhecimento de que a mão de obra não equivale à mera instrumentalização por uns da pessoa humana de outros - ser promovida à custa do esbulho de património alheio legitimamente detido e, muito menos, da liberdade ou da vida dos respetivos detentores, os maiores dos direitos fundamentais de qualquer membro da chamada Humanidade, como atualmente (ainda) julgamos conhecê-la.

Não pode, também, a solução ser imposta à bruta, como durante décadas o foi – e ainda o é… -sobretudo em lugares lá mais para o Oriente, mantendo-se os seus supostos promotores entrincheirados atrás de um muro constitucional e legal de privação de direitos, e de outros muros bem reais, de rede ou de betão, impiedosamente apartando famílias pela força, pelo terror de apanhar uma bala; famílias, note-se bem, maioritariamente dos mesmos trabalhadores que os regimes comunistas deveriam proteger, de Leste ou de Oeste ou, na sua maior parte, de lado nenhum.

Não é livre nem defensável um estado de onde as pessoas não podem sair para outro que seja povoado por quem livremente escolheu lá ficar.

 

3. Engodo

Goradas todas as tentativas viáveis de negociação com as ditaduras à margem das quais os ideais socialistas floresceram, descredibilizada a ação política tradicional e pacífica de uma oposição de esquerda, como levar as massas ignorantes a aderir à luta que alguém por elas se proponha travar? Só mesmo acenando com o poder das armas contra a ditadura opressora.

Força bruta como meio
O argumento da força bruta como meio eficaz de subjugar o adversário sempre será convincente e apetecível junto das massas incultas, pelo menos junto de quem pensa que, para ganhar contra uma equipa que joga melhor à bola nada como inutilizar o adversário com uma mais ou menos subtil pisadela com os pitons da bota bem cravados nos tendões e nos músculos da perna do infeliz futebolista, por forma a enviar para as boxes o craque principal, impedindo-o de continuar em jogo.

A mensagem da tomada do poder pela força bruta aceitava-se há uns cinquenta e tal anos, quando ainda escassos sessenta tinham passado sobre a Revolução Russa.  Hoje, apenas serve a nostalgia de uns poucos que se lembram desses tempos, e para inflamar os ânimos de uns quantos, bem mais jovens, que também têm, da função social do desporto, uma leitura inqualificável.

Quanto ao resto, a cada vez mais mirrada quantidade de votos mostra bem que, por todo o Mundo, em democracia são incomensuravelmente mais os chamados pela causa da liberdade do que os escolhidos pelos ideologicamente desnorteados eleitores que se dizem comunistas até que, desiludidos, começam a votar em partidos… da extrema direita em que também não acreditam.

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Talvez os promotores dos muros – a Leste e, agora, também a Oeste, na fronteira com o México*) - não comam criancinhas ao pequeno-almoço, mas não deixa de ser verdade que sempre souberam e continuam a saber muito eficazmente tratar da saúde das suas mamãs e papás...

Além das sucessivas violações dos mais elementares direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, todas as experiências ditas comunistas que foram tentadas em qualquer parte do Mundo redundaram em retumbantes fracassos sociais e económicos, quer ainda se arrastem graças aos bons ofícios do carrasco, quer tenham soçobrado e sido os partidos que as promoveram extintos ou reduzidos à mais simbólica expressão.

Dificilmente assim não aconteceria com regimes que, longe de efetivamente defender trabalhadores e pensionistas, a coberto da doutrina marxista-leninista acenavam com essa suposta defesa a indivíduos maioritariamente pouco instruídos e muito relativamente dotados do ponto de vista intelectual; regimes em que, uma vez tomado o poder, rapidamente passavam os seus detentores a oprimir e a reprimir também os mesmíssimos trabalhadores e pensionistas que neles votaram, a par dos tais capitalistas que constituíam o seu principal alvo – e, alegadamente, o único.

A tentação é grande
A verdade é que a tentação é grande, e diz a História que o poder e o dinheiro transformam igualmente o comportamento e a atitude perante a vida de capitalistas, de socialistas e de comunistas, apesar da já tão gasta desvalorizada e risível promessa de que, elegendo verdadeiros socialistas ou comunistas, as benesses e o dinheiro irão todos para os operários e para os trabalhadores.

Onde, de facto, alguma vez terá existido semelhante paraíso na Terra? Pois…

Defender as classes trabalhadoras dos excessos do capitalismo sustentando-se ideologicamente - e contra a mais elementar lógica - na irracionalidade e na negação da evidência para além dos limites da mais pobre lucidez, parece, não apenas incompetência e loucura, como despudorada má-fé para com os tais menos esclarecidos e instruídos seguidores, que vão sendo mantidos na mirífica ilusão de uma vida melhor, aparentemente com o fito único de politicamente sustentar o poder ilegítimo de quem enganosamente nas suas mãos ávidas o tomou.

 

4. Delírio

Os recentes acontecimentos em Cuba*) não passam de mais uma demonstração, entre tantas outras, de que, de tanto andar por aí nu, o rei comunista morreu, porque a pneumonia demagógica há muito o fez soçobrar.

Certo é que a situação da economia cubana foi fortemente penalizada pela quebra de uma atividade turística da qual quase exclusivamente depende e que, em tempos de pandemia, praticamente desapareceu; mas não é menos certo que de igual dependência do turismo padece este Portugal onde, apesar de tudo, um regime (ainda) não comunista parece ter evitado um descalabro económico comparável ou, sequer, parecido.

Não nos esqueçamos, porém, de que, em qualquer parte do Mundo e seja qual for o sistema político vigente, a defesa dos interesses dos mais pobres e desfavorecidos é, em si mesma, causa de dignidade tamanha que não necessita de suporte, ideológico ou não, além da insofismável evidência daquilo que o coração nos diz.

Não há, aliás, programa político que, de boa ou de má-fé, a não alardeie, ainda que apenas por estar bem ciente de que, caso o não fizesse, nenhuma esperança de sucesso um partido poderia ter numa democrática eleição, por serem os pobres muito mais do que os ricos.

A fim de assegurar a pluralidade e evitar qualquer possibilidade de domínio ilegítimo, importa, no entanto, garantir um quadro democrático e pluralista no qual, em lugar de um partido comunista único, marxista-leninista, existam partidos que pugnem por que esses sentimentos elevados sejam plasmados, não apenas em programas eleitorais, mas na prática social quotidiana e na governação.

Pai Natal
Não faz, porém, qualquer sentido que, comunistas ou não, partidos de uma certa esquerda demagógica, indiferentes à sobejamente conhecida inexistência de capital suficiente nas empresas ou no Estado para satisfazer as suas desvairadas reivindicações, nestas teimem, adotando a atitude pueril de quem quer muito defender os méritos do seu brinquedo escangalhado, ou de quem, sabendo impossível vir a ter um novo, continua a pedi-lo ao Pai Natal.

Agem tais partidos num estado de delírio, de negação idêntico ao que poderia levar um cientista a continuar a insistir em algo que, há décadas produzisse resultados negativos, não se vislumbrando a mais remota possibilidade de chegar a outro resultado, ou a mais remota racionalidade económica em continuar a experimentação.

Perante a esmagadora evidência do clamoroso desastre das muitas populações já condenadas à miséria pelos seguidores da doutrina socialista e da prática comunista, já nem o conhecimento aprofundado da teoria tem qualquer interesse prático: apenas interesse histórico, este, bem relevante, para evitar que alguém volte a cair em tão alucinadas loas.

Mesmo assim, insidiosamente e contra a mais elementar razão, continuam os partidos comunistas a impingi-las aos menos afortunados, aos espoliados, aos explorados, a toda essa panóplia de adjetivos artificiosos e coloridos com que, à falta de melhor, procuram, em vão, apimentar um discurso cada vez mais anquilosado e sediço, que já ninguém de juízo é capaz de suportar.

Numa civilização ocidental que se diz cada vez mais instruída, os poucos alvos que restam para a besta comunista são, convenientemente, os representantes menos educados e menos informados da população, suficientemente néscios e ingénuos para acreditar que, uma vez atingido o poder, pelo voto ou pela força, eles mesmos, os iludidos desafortunados, o poderão exercer; que os outros os deixarão, efetivamente, mandar e que se lá chegarem, acabarão por copiosos frutos tirar das aberrantes reformas então implementadas e da sua impreparada e incompetente gestão.

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Não é, naturalmente, de excluir por completo a possibilidade de existir gente ingénua ou mal informada, mas genuinamente revoltada com a injustiça e o sofrimento de outros, que se filia em organizações ditas comunistas pensando que nelas se poderá entregar com denodo à causa do bem-fazer. Mas também não pode deixar de se suscitar as maiores dúvidas quanto à eficácia e à qualidade da governação de um país num dia em que essas abnegadas mas ingénuas ou mal informadas almas que facilmente se deixam embalar pela irracional e desrazoável cantilena socialista – a pura e dura, não a lusitanamente travestida – ocuparem funções de destaque na gestão da coisa pública de qualquer natal torrão.

5. O Enigma Português

Da ineficácia prática dos propósitos comunistas tivemos, por cá, um belo exemplo na Reforma Agrária do final dos anos setenta do século passado*), bandeira fortemente agitada pelo então pujante Partido Comunista Português (PCP).

De então para cá, a inexistência de vocação capitalista do Estado tem vindo, por sua vez, a ser cabalmente demonstrada no retumbante fracasso económico da generalidade das empresas públicas, inevitavelmente condenadas à bancarrota a menos que passem a vida a tomar gigantescas injeções de adrenalina vindas do supostamente inesgotável dispensário do centro de saúde do Tesouro, alarvemente alimentado pelos nossos impostos.

No PCP de outrora, a evidente capacidade maior do Secretário-Geral então reinante granjeava-lhe o temor e o respeito de quem, para primeiro dirigente, não via alternativa minimamente credível àquela diferenciada pessoa que tanto se preocupava com o caminho capitalista que entendia estar a sociedade dele coeva a tomar.

Tinha, também, o Partido, comparativamente aos comunistas de hoje, a superior vantagem de, ao tempo do seu período áureo, termos estado bem mais próximos do que agora da data da Revolução, pelo que muita fé havia ainda nas monocórdicas promessas interminavelmente projetadas pela cassete nos megafones aparafusados nos tejadilhos dos automóveis dos solícitos e prestáveis camaradas.

Se não houvesse fé, havia, pelo menos o benefício da dúvida relativamente a pressupostos e a teorias que, aos menos atentos ou esclarecidos, não ocorria serem, já então, velhinhas de quase três quartos de século, e provirem de uma cultura substancialmente diferente da portuguesa, desenvolvida em condições e em conjunturas que evoluíram a largos milhares de quilómetros de distância e que com as nossas gentes nada tinham a ver; condições essas que, nesta sociedade de brandos costumes, muito a Oeste, com outro clima cultural, político e, até, atmosférico seria impossível estabelecer. Quanto mais agora, tanto tempo depois, em que a cultura do facilitismo, da anestesia política, dos influencers e das cada vez mais pategas redes sociais, todo o entusiasmo pela defesa de quaisquer verdadeiros valores vertiginosamente faz esmorecer.

O Secretário-Geral de antanho sabia-o bem, porque, inteligente como poucos, não podia deixar de o saber; e, sabendo-o, sabia também que a via da conquista do poder pelas armas já então era uma impossibilidade quase material, nem sequer o crédito de uma utopia podendo merecer.

Entendimento
Como, então,  entender que este homem superior, esta alma aparentemente boa, artística e estruturalmente honesta, tenha assumido e aceitado manter durante tanto tempo a liderança de uma força política que agora cumpre cem anos a lutar contra a ditadura... enquanto, dissimuladamente, não desiste de procurar implementar uma outra?

Um ser humano bondoso e dotado de superior inteligência jamais acreditaria na eficácia do chorrilho de disparates que o aranzel marxista-leninista indubitavelmente é. Terá, então, a capa comunista do Secretário-Geral sido meramente instrumental na sua luta pela liberdade e pela  igualdade?

Dá que pensar…

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Astérix*) lutava contra o invasor. O irredutível PCP lutou e luta para nos impor legisladores e governantes ideologicamente imbuídos de uma fé cega e ácida em postulados anquilosados e ruinosos, que o trato do tempo arrasou, mostrando, na prática, a inevitabilidade do desastre social e económico a que levaria a tresloucada e alienada insistência na sua imposição – como em Cuba e em outros malogrados países levou.

Tão impossível é explicar pela lógica quem é Deus, como os fundamentos da defesa comunista de regimes como os da Coreia do Norte e de Cuba ou da Venezuela. Não se entende, pois, como há, no Partido Comunista Português, tantos ateus que, ao mesmo tempo, dizem ser tão crentes e fiéis seguidores de tamanhos dislates.

Não pode, todavia, acusar-se o outrora Secretário-Geral de desonestidade intelectual, dada a inequívoca bondade das suas intenções. Como explicar o que propunha, então?

Que mistérios da história íntima do PCP ocultará a cortina opaca que forra as tão propaladas paredes de vidro do hermético e compacto partido que, mais do que qualquer outro, mereceria o nome de bloco?

 

6. O Partido de Hoje

Forçado a aderir a um tipo de marketing que com ele nada tem ou alguma vez terá a ver, o Partido Comunista Português já encomenda cartazes num dominante azul bandeira, relegando para enésimo plano a foice e o martelo, e estando, por vezes, o vermelho quase ou totalmente desaparecido.

Festa do Avante
Outro disfarce - outra demonstração de modernidade, perdão… - vem do festival anual*) com que lá vai financiando a estrutura partidária e onde a música no palco alterna com palavras lidas que a ninguém interessam, que já ninguém ouve, tiradas do repertório fantasma de quem, porque já cá não está, já ninguém vê. Quem, de fora, ouvir, for lúcido e intelectualmente honesto, nem fará ideia do que estão a falar.

A propósito de financiamentos do Partido, diga-se, entre parênteses, que não parece intelectualmente honesto afirmar que, na Grécia, o grande erro do governo de extrema-esquerda foi não querer sair do euro*), enquanto o eurocético PCP mantém, no Parlamento Europeu, deputados que, de alguma forma, também financiam o Partido com os chorudos ordenados que, mês a mês, lhes não perdoa.

Não obstante o PCP insistir em continuar representado no Parlamento de uma Comunidade Europeia sobre a qual lançou o anátema, a efetiva sede de assumir a governação nacional é, praticamente, nula, já que, nas hostes, ninguém acredita na cada vez mais remota possibilidade de lá chegar, pela força ou pelo voto; por outro lado, dada a patente incapacidade governativa mínima por parte de velhos e cristalizados ou jovens mas cada vez mais desiludidos militantes; por fim, por bem se saber que, uma vez no poder, nenhuma das prometidas medidas poderiam implementar, sob pena de um inevitável fracasso que representaria, para o Partido, o golpe de misericórdia que vem conseguindo adiar.

Reduz-se, assim, à expressão mais simples a utilidade e eficácia do PCP como partido político, limitada a algumas intervenções interessantes dos deputados mais jovens em comissões parlamentares - um dos quais, batizado com o pseudónimo do Mestre*), já tinha regressado à sua geologia profissional e agora procura fazer esquecer um pouco a decrépita cúpula, regressando à cena com o seu ar entediado e arrogante para ajudar a salvar o que resta, ou para com o barco se afundar.

Continuarão, pois, esses jovens elementos a ser os apaniguados de um Mestre que já não têm e alguns nem chegaram a conhecer pessoalmente, o qual, com o seu perfil único, convencia uns e outros da suposta bondade de ideais que talvez nunca tenham chegado a ser os dele, mas apenas o meio que lhe terá parecido mais promissor para uma mente superior e um espírito sensível pugnarem pelos mais desfavorecidos, pelos quais abdicou da liberdade com coragem nobre e exemplar.

Nova gente com chama que, iludida, lá pelo Partido agora apareça, esbarrará inevitavelmente na intransponível barreira da mensagem caduca, pequenina, ridícula ao ponto de considerar uma ofensa à democracia a supressão, da toponímia, de nomes de gente cuja memória apenas perdura na nostálgica lembrança dos indefetíveis e só a eles poderá interessar*).

Defende o Partido o indefensável porque, para sobreviver politicamente, importa desesperadamente mostrar uma bandeira, um ideal, ainda que o mesmo se limite a uma visão maníaca e alienada, do Mundo, acompanhada de uma incurável mesquinhez quotidiana e de uma visão retrógrada do que, aqui e nos nossos dias, Portugal deve ser.

Anquilosados Legionários e Votantes
Para ter alguma coisa com que acenar à última meia dúzia de legionários e votantes, manifesta-se o Partido contra medidas sanitárias de comprovada eficácia e de alternativa inviável ou, mesmo, impossível*); e a população responde vacinando-se quase toda e confinando-se, na maior parte, dessa forma demonstrando à meia dúzia de duros sobreviventes do PCP que, com sucessivos tiros no pé, este fica cada vez mais manco e se arrisca a, em breve, ficar mesmo... orgulhosamente só.

Disse o atual Secretário-Geral que a alternativa não poderia ser o confinamento agressivo, mas o reforço do Serviço Nacional de Saúde, “o reforço dos profissionais com reconhecimento pelo seu trabalho”. Como sempre e como seria de esperar, ficou por explicar onde arranjaria meios humanos e técnicos para o conseguir num curto espaço de tempo, e onde iria buscar o dinheiro para tudo isso.

Claro que isso de arranjar dinheiro não interessa, já que os inimigos do capital dele nunca falam quando devem, apenas se lhe referindo depreciativamente comportando-se como se o que exigem não tivesse qualquer custo e só a má vontade de quem governa o impedisse a sua obtenção. Assim demonstram, para lá de qualquer dúvida, a total incapacidade para legislar, para governar, para gerir, logo, a inutilidade de como partido político continuar.

Por que não, nesse caso, deixar-se absorver pelo seu satélite Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – INTERSINDICAL, já que, aqui, parece ser o planeta principal que orbita o satélite, e não o contrário, como manda a ordem universal?

A INTERSINDICAL, essa sim, é eficaz enquanto grupo de pressão, natureza a que, afinal, o ineficaz, politicamente inane e condenado Partido Comunista Português acaba por estar reduzido, perdido que anda no reino da mera ilusão.

 

7. O Futuro Sem Partido

O PCP fala de futuro com a convicção de um velho habitante de uma abandonada aldeola do interior que, sabendo que futuro já pouco tem, diz ao neto que estuda em Lisboa que quando eu morrer “esta vai ser a tua casinha” - casinha essa que, de tão pobre e humilde, faz morrer de vergonha o dito neto tuga, já todo garboso e importante assessor na autarquia de onde sonha que, um dia, a secretário-geral ou presidente de alguma coisa o ádem catapultar, ou todo embevecido no seu lugar subalterno numa multinacional qualquer de onde sai à hora do almoço para pavonear a camisola sete na ciclovia, ao volante da bicicleta a motor.

Passado e Presente
Associados a um partido comunista, pregões com a palavra futuro, como “O Futuro Tem Partido”, despertam tanta confiança e simpatia como a birra da criança que quer muito uma coisa e, a ver se pega, não para de falar nela e de choramingar. Não passam, em boa verdade, do estertor da morte de uma estrutura que, por falta de razão para existir, no pântano eleitoral cada vez mais se está a afundar.

Para funções de relevo no tal imaginário Futuro, o PCP conta com um candidato que, apesar do seu ar algo parado, apagado, inseguro e deprimido, é aparentemente o pau para toda a obra, o único ainda disponível: é deputado europeu, candidato à presidência da República, candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, e vira o disco, e toca o mesmo até ao porto de destino como secretário-geral, de ar, se não muito fresco, pelo menos renovado.

Na campanha para as eleições presidenciais de 2021, limitou-se o Candidato a acenar com a Constituição da República como se do seu programa político se tratasse. Ao mesmo tempo, concorria contra quem a cumpre, assim demonstrando que, bem vistas as coisas, não tem o Partido quaisquer propostas novas, diferentes dos ditames do Texto Fundamental; e que, ao atual estado das coisas, nada de especial tem a acrescentar ou a modificar.

Nesse caso, para quê nele votar?

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Se o PCP chegou a ter algum peso nas autarquias, não terá sido por nele terem votado umas dezenas de milhar de combatentes armados até aos dentes, prontos a tomar o poder em nome da classe operária - tal como não foram quinhentos mil fascistas portugueses que, em 2021, na eleição presidencial votaram no candidato apoiado pelo Chega!.

Ora, mesmo esse peso autárquico – que apenas confirma que as ideias nada valem, mas apenas o conhecimento de proximidade de alguns candidatos - diluiu-se e continua a diluir-se num processo entrópico já impossível de reverter.


Fonte: Wikipedia

Os resultados eleitorais*) são, assim, catastróficos e continuarão a sê-lo, já que muitos dos eleitores não sabem nem querem saber no que estão a votar, nem estão aptos a, do comunismo, absorver o que quer que seja além das ritmadas cacofonias e ladainhas, e do tom inflamado dos discursos, do punho no ar.

Resultados Eleitorais do PCP
O que é certo e sabido é que o estribilho constante e recorrente de teorias retrógradas e apoucadas queimam, aos olhos dos eleitores, excelentes autarcas que, noutras forças políticas, muito melhor contributo talvez podessem dar.

Das vinte e quatro presidências de câmara apesar de tudo ainda conseguidas nas eleições de 2017 – menos dez do que em 2013 - , passou o PCP, em 2021, para apenas dezanove, ou seja, pouco mais de metade das trinta e quatro que há apenas cinco anos ainda eram suas.

Bem tenta o Secretário-Geral escamotear o desaire enaltecendo o resultado positivo, em Lisboa, do eterno Candidato. Parece ignorar que a tíbia vitória do novo Presidente – que, por muito sério, competente e honesto que possa ser, nenhum carisma ou traquejo político tem para ganhar o que quer que seja – se deveu a pouco mais do que à hemorragia de votos em que, por razões sobejamente conhecidas, se esvaiu o seu antecessor, votos esses que, à esquerda, fluíram, em boa parte, para o PCP, como expetável e inevitavelmente sempre haveria de acontecer.

Não há, pois, no resultado em Lisboa qualquer mérito para o Partido Comunista ou para o seu eterno Candidato, nem tal prenuncia qualquer surpresa agradável para uma eleição posterior: simplesmente, aconteceu.

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O que está na base do descalabro eleitoral?

Em eleições presidenciais, o PCP fica sempre de rastos por total inexistência de personalidades empáticas e persuasivas. Nas restantes, o desastre deve-se a inoperância e a falta de resultados práticos da ação política do Partido: os trabalhadores portugueses melhoram de vida por razões que, patentemente, nada têm a ver com o comunismo ou com quem o defende, apercebem-se da inutilidade da coisa, mudam de interesses, e segue-se a imparável descida nas sondagens e nas urnas, até ao há muito anunciado fim.

Tirando a mainça de indefetíveis que, a fumar um desolado cigarrito, lá vai aparecendo junto aos eternos portões fechados das fábricas, os supostamente muito conscientes e politizados milhares de trabalhadores envolvidos nos dias de greve já ignoram alegremente apelos à luta e passam os ditos dias em casa, a beberricar uma jola enquanto, desalentados, veem a bola na televisão.

Tivesse, agora, o PCP a tresloucada mas coerente e corajosa ideia de incitar à luta armada que o seu programa preconiza, e os resultados eleitorais rapidamente cairiam para o quase subsolo próprio de quem continua a fazê-lo noutras paragens.  Mas não: não se atrevem a alardear, abertamente, os ideais de luta armada associados ao nome que ostentam, porque bem sabem que, em Portugal, isso significaria o descalabro, o nunca mais, a precipitação do anunciado e inevitável fim.

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Serviço às classes trabalhadoras
Embora unanimemente reconhecido como honrado nos compromissos que assume com os seus adversários, sob a capa enganadora de salvador da pátria, está o Partido Comunista Português a prestar um péssimo serviço às classes trabalhadoras, pretendendo, unicamente para assegurar uma ténue aparência de sobrevivência política de umas quantas relíquias mumificadas nas suas magras reformas, captar outros tantos distraídos que, por não terem mais quem, a nível nacional, pareça defendê-los, até dão de barato essa coisa da via revolucionária, que consideram uma mera palermice, coisa de velhos.

Está, porém este penoso arrastar de si mesmo do velho Partido apenas a atrasar, irrecuperavelmente, a formação de um sensato, razoável, esclarecido e novo e por criar partido de esquerda, combativo, com gente fresca e renovados ideais sustentados num saudável conceito de democracia: algo muito mais dinâmico, vibrante e empenhado do que a aparentemente corrupta amálgama de interesses que, alegadamente, hoje nos impõe um governo de faz-de-conta, incoerente e sem que qualquer estratégia ou substrato ideológico a sua atuação permita identificar.

O grande problema é que, para isso seria imperioso que cometessem suicídio político os velhos do Restelo que, no interior das paredes de vidro*), ainda impõem uma disciplina férrea, macambúzios, falhos de adrenalina, enfadados, contrariados, bruscos, agressivos, nada atraentes, cujo orgulho comunista os impede até de aceitar, vinda de fora, a mais tímida sugestão.

Alternativamente, para que o Partido Comunista Português se renovasse, haveria que ver todas essas múmias - embora valorosos combatentes antifascistas de outrora - sair definitivamente de cena, juntamente com as suas teimosias genuinamente socialistas, pensadas por gente que vivia as tais realidades necessariamente bem diferentes, em paragens bem longínquas e mais de cem anos atrás.

Uma alternativa seria mudar de nome. Mas o PCP não pode mudar de nome porque quem vota nele são fervorosos defensores de um comunismo que não fazem ideia do que seja: tal como o Benfica, perderia os associados quase todos se o fizesse. Além do mais, estaria a seguir o exemplo de um rebatizado partido de extrema-direita que procura, desesperadamente, erguer-se*).

No entanto, claro está que o Partido Comunista Português nada tem a ver com ditaduras. Pelo menos, de direita, não obstante negar o Holodomor*) com descoco igual àquele com que a dita extrema-direita teima em negar a existência do holocausto nazi.

De um modo geral, o Partido nega aquilo que a logica lhe proíbe explicar.

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Génese de um movimento ou partido
A génese de um movimento ou partido pode radicar no sentimento e na emoção, mas é da realidade e da razão que devem emanar a gestão e a atuação.

Isto, é inconciliável com o facto de, em entrevista recente a um canal de televisão, termos, de novo e sem qualquer pudor, ouvido o atual Secretário-Geral referir-se à eterna “democracia avançada” da qual ainda vai, sabe-se lá onde, buscar ânimo para continuar a falar; e de um “movimento sindical unitário” cuja simples designação nos leva, rapidamente, a associá-lo a um também único e indesejável partido.

Na verdade, é preciso alguém ser mesmo muito desmiolado para se dignar dar ouvidos durante escassos segundos que sejam a quem, cego e surdo ao que se passa à sua volta e sem deixar qualquer dúvida quanto aos verdadeiros propósitos, continua a advogar, como solução para os dramas da Humanidade, a “superação revolucionária do capitalismo*), ou seja, a tomada do poder à bordoada.

Na sociedade consumista e cada vez mais indiferente em que vivemos, é caso para dizer que, se é com bombas e espingardas que esperam suster o trambolhão nas urnas, mais valeria procurar pescar um ou outro voto num asilo de alienados, nele centrando a campanha eleitoral.

A atual militância mais não é, afinal, do que o reflexo do estado de negação  de quem passou toda uma vida a defender algo em que já não consegue acreditar, mas nada mais tem a que, emocionalmente, se agarrar.

Enquanto os patéticos desvarios comunistas e os seus ferrenhos e patéticos defensores estiverem na base das linhas programáticas do partido dos trabalhadores, estarão os ditos trabalhadores condenados a continuar sem defesa efetiva contra as políticas de direita, como tanto gostam de chamar àquilo que faz quem não navega na esteira do ainda PCP.

Não é que não haja elementos jovens e válidos para levar a luta dos trabalhadores avante, por aquilo que de essencial ela sempre representará. Não é que não haja, nas atuais cúpulas do Partido, elementos capazes de o manter a esbracejar à tona de água por mais uns anos. Mas, o muro inamovível que a desoladora ineficácia económica de todas as experiências de implementação de ideais comunistas lhe põe à frente impede a progressão, a evolução, o desenvolvimento de ideias que, por condenarem as economias a uma inevitável falência, estão hoje condenadas à condescendente irrisão.

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Os trabalhadores portugueses necessitam, urgentemente, de um partido novo, moderno, nascido na sociedade dos tempos atuais, pragmático, virado, não para a disseminação de uma estafada cartilha ideológica, mas para a resolução de problemas concretos das classes representadas.

Necessitam de um partido credível, bem definido, e também não daquela amálgama algo estranha, ainda mais à esquerda, que entendeu tudo isto rapidamente e, para namorar os votos dos tontinhos mais à direita, agora se travestiu, em bloco, com a pele de cordeiro social-democrata*).

Mergulhado num intenso processo entrópico, manifestamente irreversível, cada vez se torna mais evidente a inutilidade atual de um Partido Comunista Português reduzido a, no limite, servir como muleta dileta do Partido do Governo.

Contrariamente ao que rezam uns cartazes há tempos espalhados por aí, o Futuro não tem Partido.

Pelo menos, este.

* *

A ditadura dos patriarcas não é, como alguns poderão pensar, um exclusivo de uma organização comunista em vias de extinção, como o PCP. Coexiste, em Portugal, pelo menos um outro modelo de subjugação, ainda efetiva, das camadas jovens à tirania de velhos incompetentes e completamente ultrapassados, mas agarrados como lapas ao poder.

[leia aqui a sequência]


8 comentários:
  1. Este longo e esclarecedor texto precisava de uma comentário à altura. Concordo com a análise que faz, revejo-me nela, mas não tenho estaleca para apresentar uma crítica como desejaria.
    Experienciei a política local ao longo de quatro mandatos e foi uma aprendizagem para a vida. Estes temas seduzem-me.
    Obrigada

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    1. As suas críticas serão sempre bem-vindas, e é um gosto vê-la por aqui.
      Boa semana!

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  2. para os comunistas, cada um é obrigado a dar tudo o que pode e, se puder mais,
    Esta afirmação que está no texto, não me parece correcta.
    Na verdade, para os comunistas é básico tirar a cada um e a todos que não forem do grupo, tudo o que for possível. Quando o comunismo começou isto era bem mais visível que agora.

    Outra questão: Afirma a incompatibilidade entre comunismo e cristianismo (ou religião, já não sei). É assim em teoria. Mas conheço muitos comunistas que vão à missa e aos outros sacramentos. O Secretário Geral do PCP é casado pela Igreja. E conheço muitos católicos que votam PCP ou BE.

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    1. Muito obrigado por ter comentado.
      Quanto à primeira parte, referia-me à teoria socialista - a que me refiro como "mundo idílico" -, e não àquela que poderá ser a prática, se não generalizada, pelo menos sem dúvida em alguns casos conhecidos.
      Quanto à referência que refere à religião ou, mais especificamente, ao cristianismo, não a consegui encontrar no texto. Posso pedir-lhe o favor de me ajudar a localizá-la?
      Em cada Sábado, terá aqui um novo artigo para ler e comentar.
      Votos de um excelente fim-de-semana!

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  3. Nesta análise sobre o comunismo, digo nesta por ser uma como as outras, está exatamente igual aquelas que eram feitas há mais de sessenta anos.
    Em 2021 já é tempo de variar, p.ex. observando a falência da cidade de Filadelfia (EUA) com milhares de sem abrigo a vegetar pelas ruas versus a China. Pois, à China não houve boicotes de toda a ordem incluindo armado para não haver concretização.
    Veja-se a China como foi evoluindo para um desenvolvimento extraordinário, e até a livre escolha de sair, dos milhões para todo o mundo em negócios de chafarica e outros, é reduzida aos milhões que querem ficar. Na China as grandes riquezas do país pertencem ao Estado e o partido comunista é quem governa. Poderia haver dois partidos comunistas, estilo dois capitalistas como nos EUA, para haver alternância, podia mas eram comunistas na mesma.
    Análise estatística dos resultados das várias eleições do PCP pode fazer lembrar a pessoas normais como o que está a acontecer aos democratas-cristãos do CDS.
    Não mereceria este "desaparecimento" do CDS/democrata-cristão uma reflecção igual a esta sobre o PCP/comunismo? E porquê esta grande preocupação merecedora dum texto bem escrito, sobre um tema já tão debatido e ainda por cima sobre o PCP que está a "desaparecer"?
    Assim, estas análises, como que por razões de ditadura religiosa, não se importam do estado da catagelofobia.

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    1. Agradeço muito o seu desenvolvido comentário.
      Concordo, inteiramente, com o facto de na China não haver boicotes, bem como com o de estar a registar um desenvolvimento extraordinário. No entanto, ao texto que comentou interessa, antes de mais, o que subjaz a essas realidades, qual o motor que as faz emergir: democracia verdadeira, ou ditadura encapotada? É que não vale tudo...
      Quanto aos resultados do PCP nas várias eleições, lamento, mas são dados objetivos. As razões que me fazem referi-los e não os do CDS são, no entanto, simples, tais como:
      - no caso do PCP subjaz uma ideologia, o que me não parece acontecer com o CDS (pelo menos, não a consigo identificar);
      - o PCP chegou a ter um peso e uma importância política que o CDS jamais alcançou, pelo que a previsível queda deste não será coisa de grande monta ou surpresa;
      - a existência de um partido dos trabalhadores ativo e eficaz parece-me indispensável em qualquer sociedade que se diga civilizada, e não se me afigura que qualquer dos partidos à esquerda do PS esteja a corresponder às expetativas.
      Os seus comentários serão aqui sempre bem-vindos.
      Renovo os agradecimentos, e desejo-lhe um excelente fim-de-semana.

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    2. Referia-me, provavelmente não percebeu, ao facto de a China não ter tido boicotes, cercos, sanções contra o regime de Partido Comunista. 'Tá bem que era um gigante, mas sempre seria uma "ameaça" para o mundo, resolvido o assunto com umas coca-colas e uns hambúrgueres e aos outros nem pensar.
      O CDS, também, subjaz uma ideologia: a democracia-cristã do livre mercado.
      Vendo bem a ideologia é o sistema de ideias, valores e princípios que definem uma determinada visão do mundo.
      Bom fim de semana

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    3. Referi-me ao mesmo, sim. A China não teve, porque digamos que os chineses não tiveram a liberdade de os ter.
      Parece-me, por outro lado, demasiado elogiosa a associação da ideologia da democracia-cristã do livre mercado ou de outra àquela balbúrdia que, não só agora, grassa pelo CDS, rapidamente transformado como que no brinquedo de um só homem e, depois, no que agora se vê...
      Bom fim de semana.

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