terça-feira, 28 de dezembro de 2021


Títulos que O não São


Concordará o caro Leitor com a minha interpretação de que, a um título bombástico como este, se seguiria uma notícia sobre uma queda em desgraça do Juiz, ou de uma ação disciplinar séria com suspensão à vista, ou qualquer outro evento digno de notícia, mormente antecedida de um título de tamanho impacto.

Desengane-se. Como poderá confirmar no link que antecede o asterisco acima, continuação da leitura logo esclareceria que se trata, apenas, de redistribuir processos a cargo de um outro juiz por estar este exclusivamente dedicado a dois outros de maior exigência; e, logicamente, um eventual sorteio que inclua os novos magistrados recentemente admitidos*) poderá "resultar na perda de processos que estão, neste momento, com Carlos Alexandre", o que não passará de uma consequência natural do facto de, no Tribunal Central de Instrução Criminal existirem agora mais juízes pelos quais repartir a carga de trabalho.

Não se trata, obviamente, de uma notícia falsa. Mas, será coisa tão insonsa realmente uma notícia?

Tampouco estamos perante um título falso. Mas não se tratará de um título que viola a mais elementar fronteira da racionalidade e, até, da legitimidade, da boa fé?

Se o objetivo de títulos sensacionalistas com este for levar pessoas a adquirir jornais impressos ou a aceder a conteúdos eletrónicos a fim de, por qualquer dos processos, gerar receitas, até que ponto será a atitude de quem, impune mas deliberadamente escolhe um destes títulos, diferente daquilo que é geralmente considerado publicidade enganosa?

Com uma agravante, claro: enquanto a publicidade relativa a produtos indiferenciados é da responsabilidade de empresas não vinculadas a qualquer nobre missão que não seja a de obter lucros para quem nelas investe - e não estão protegidas por qualquer estatuto especial ou estão vinculadas a qualquer código de ética além daquele que, mais ou menos intuitivamente, vincula cada um de nós -, os jornalistas estão, supostamente, incumbidos da nobre missão de informar objetivamente, com verdade, sendo estes pressupostos parte importante dos privilégios que o Estado lhes concede para que possam, em liberdade, desempenhar a sua função.

Até que ponto será, então, legítimo a um órgão de comunicação social estar no mercado com a mesma postura que qualquer indiferenciado fabricante de macarrão?

Aqui fica a questão...



6 comentários:
  1. Caro Senhor,

    Estaria totalmente de acordo com aquilo que aqui escreve, não fora o caso de entender que o pressuposto em que assenta a sua análise - de que o jornal "observador" é um mero "órgão de comunicação social" - é muito frágil.
    Com efeito, entendo que a referida "folha" não passa de um órgão de propaganda da direita mais radical que, à míngua de boas ideias, usa o ódio como forma de fazer política. A essa direita pouco parece interessar a defesa racional dos seus ideais, no âmbito da democracia, dedicando-se mais a fabricar notícias falsas ou aparentadas. É a ânsia de ir ao "pote", a qualquer preço!
    O título que analisou, no meu modesto entender, tem apenas a ver com a exploração da dicotomia que impuseram na opinião pública do "juiz bom" - Carlos Alexandre - e do "juiz mau" - Ivo Rosa. Não entram, aqui, considerações de natureza mercantil, pois o dinheiro parece não ser problema para aqueles lados!
    Se é como penso, a intenção do título fica às claras, bastando apenas conferir - coisa de que me dispenso, por desnecessidade - a natureza dos processos em causa e as decisões que, nos mesmos, cada juiz tem tomado.
    Veremos se este assunto não será "devidamente" retomado no resto da imprensa e nas redes sociais!

    É este o meu óbice, relativamente ao seu artigo.

    Contudo, aproveito para louvar a luta pela defesa dos princípios, que perpassa pelo seu texto.

    Boa noite.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito grato pelo seu comentário.
      Permito-me, apenas, esclarecer que as observações que produzi quanto à natureza mercantil se devem ao facto de ter, simplesmente, pretendido utilizar o título em apreço como exemplo daquilo que, de um modo quase generalizado, encontro nos diversos agentes da comunicação social; e o jornal que o publicou é, legalmente e tanto quanto me é legítimo objetivamente afirmar com os dados de que disponho, um mero órgão de comunicação social.
      Quanto a ser mais alguma coisa, admito, sem rebuço, a possibilidade. Mas, para além do lucro, não existirá, em qualquer órgão de informação, uma subjacente e nem sempre manifestada motivação? A assim não ser, mergulharíamos, cada vez mais, no reino da ganância, da avidez e da - sempre ilegítima - manipulação da informação, já não ao sabor de desígnios de mais ou menos louváveis ideais políticos, mas, quiçá pior ainda, unicamente ao serviço do vil metal.
      Será sempre um gosto sabê-lo por aqui.

      Eliminar
  2. Concordo consigo; não há informação neutra. Cabe ao leitor decifrar e compreender a motivação do mensageiro, pois só assim poderá assumir posições conscientes na sua intervenção cívica.
    Não me preocupam as posições do dito jornal. Cada um defende os modelos político-sociais que entende como melhores para a comunidade a que pertence. Exige-se, apenas, que nessa defesa se atenha aos limites do Estado de Direito Democrático. Já não digo o mesmo quanto à falta de pluralismo e às manigâncias (tal como v/ bem aponta na sua resposta, quando diz que usou o título "...como exemplo daquilo que, de um modo quase generalizado..."), dos "agentes da comunicação social". Isso sim, preocupa-me, por entender que degrada este mundo novo que se nos abriu com o 25 de Abril. Por isso, é que vou intervindo como posso no espaço público e foi com esse sentido que aqui vim, por entender que no seu artigo poderia perfeitamente caber, também, este outro lado de análise. Saudações democráticas.

    ResponderEliminar
  3. Sempre que aqui quiser intervir, o Mosaicos estará à sua disposição. Como convém em liberdade e em democracia, concordemos, ou não...

    ResponderEliminar
  4. Caro Sr. António Ladrilhador,
    Como vê, e tal como eu supunha, o título que motivou o seu "post" não era inócuo, sendo que são os próprios juízes que, agora, vêm alimentar a fogueira então ateada. Nada de anormal, infelizmente.
    É preciso manter a chama acesa, especialmente numa altura em que o CSM vem alterar o que sempre defendeu acerca da distribuição do Processo Marquês! Desgraçada Justiça, a que temos! Com juízes deste quilate o cidadão mais consciente só pode desconfiar e desconsiderar os srs. magistrados judiciais. O que é muito mau para o regime democrático.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Defendi em "Rendeiro: No Rescaldo de Uma Fuga", tudo radica em golpes fatais desferidos no sistema educativo há muito tempo atrás, dos quais não será possível recuperar no nosso tempo nem, provavelmente, muito tempo depois de termos deixado de andar por cá.
      Os excessos e os extremos têm destas coisas: estragam, inutilizam e, depois, não há volta a dar.

      Eliminar