sábado, 3 de janeiro de 2026


Debates, para quê?


Eleger André Ventura seria decapitar o Chega, forçando a extrema-direita à travessia do deserto,
a um recuo de, pelo menos, uma década na sua evolução

O verdadeiro patriotismo dos restantes candidatos consistiria em desistir a favor de Ventura, explicando muito bem porquê;
e o meu patriotismo consistiria em votar em Ventura.
Simplesmente, não consigo assim fazer


1.       Da Franciscana Pobreza
2.       Dos Títulos Escondidos
3.       Da Conversa Vazia
4.       Em quem Votar, afinal?


Da Franciscana Pobreza

Assisti, tão atento quanto aguentei, a todo aquele desfile de conversas sensaboronas chamadas debates preparatórios das eleições para o cargo de Presidente da República.

Fiquei exatamente na mesma no que respeita à decisão sobre em quem votar, como presumo que terá acontecido com a maior parte de quantos se sujeitaram a igual provação,

Em grande parte, por ter a maior parte das insípidas conversas evoluído ao sabor do maior ou menor narcisismo de moderadores com o sestro de interromper constantemente os debatentes, assim aniquilando a possibilidade de virmos a daquilo entender ou a aproveitar alguma coisa.

Moderar parece ser, para alguns mais emproados ou suscetíveis, levar para ali um rol de perguntas a formular, ficando-se seriamente melindrado quando os atores principais ocupam o palco, encarniçando-se a esgrimir as suas diferenças, e se afastam do tão ciosamente preparado guião.

As questões feitas – valha-nos Deus, que agora fala-se assim! – visam, aliás assumidamente, saber o que candidato pensa relativamente a este ou aquele assunto. Mas, não será esse o papel dos tempos de antena e das entrevistas? É que resulta, de facto, bem mais esclarecedor ouvir o que cada um tem a dizer num ambiente descontraído, sem necessidade de estar para ali preocupado em defender-se e esquivar-se de ataques, seja de pessoas educadas e bem intencionadas, seja de alarves arruaceiros e oportunistas que mais não almejam do que aproveitar o tempo para procurara obter, nas eleições vindouras, uma melhor faturação.

Transformados em meras sucessões de insípidas respostas às perguntas da lista do TDC1) do moderador, os pretendidos debates nada mais inspiram, afinal, do que um potente bocejo e a vontade de votar em branco… e de mudar de canal.

Admito: para ajudar a passar o tempo, dediquei-me menos a ouvir o discurso sensaborão dos candidatos, do que a tentar adivinhar as notas que, a cada um, atribuiriam os inevitáveis comentadores; notas essas que, diga-se, também para nada servem, nada dizem, na medida que são atribuídas por pessoas supostamente instruídas, informadas, em nada espelhando a opinião e o sentimento da brutalmente elementar generalidade dos eleitores.

Tiveram, enfim, estas vinte e oito tristes meias horas de inconsequente parlapié o efeito de evidenciar a qualidade profissional da moderadora da SIC, em absoluto contraponto com o moderador da TVI, e deixando algures ali para o meio os da RTP.


Dos Títulos Escondidos

Uma muito pouco subtil subtileza omnipresente nos debates tem sido a omissão dos títulos profissionais ou académicos dos candidatos; e é bom de ver porquê: doutores e engenheiros há muitos, ou “chapéus há muitos” - como o Senhor Santana dizia num vetusto filme português -, e a verdade é que, desta vez, quase todos os que debateram tinham colado ao nome um título académico.

A exceção era o título profissional do candidato militar, e quanto a almirantes, a coisa é mais séria: chamar Senhor Almirante a um candidato quando os outros apenas merecem, quando muito, um já banal Senhor Engenheiro ou Senhor Doutor, seria, nas mentes dos sagazes e popularuchos assessores de imagem, posicioná-lo, logo à partida, em lugar privilegiado; e, isso, não pode ser, pois então!

Vai daí, com a exceção de Marques Mendes no último debate, apenas Gouveia e Melo tratava os oponentes por Senhor seguido do título académico - como, aliás, me pareceria próprio na formalidade do debate, quer as pessoas se conhecessem mutuamente, quer não.

Já que falamos destas coisas protocolares: uma gravatinha, mesmo baratucha, em candidatos à Presidência da República não faria, certamente, grande mal. Ou será que a indumentária de empregado  num café familiar em que, aparentemente, se sente mais à vontade o Senhor Engenheiro, seria a escolhida para o acompanhar – Deus não permita! - no futuro desempenho da função?

"Originalidades", dirão...

Da Conversa Vazia

Fica-nos uma questão fundamental: além da venda de publicidade pelos canais televisivos - que, com alegado e mui propalado sacrifício económico, lá se entenderam para a ocasião -, qual a utilidade de promover debates destes, e em tão grande quantidade, antecedendo a eleição do Presidente da República?

Como, largas dezenas de vezes, a todos ouvimos ao longo destas quase trinta meias horas, não se trata de eleições legislativas, nas quais se tornaria absolutamente essencial conhecer o posicionamento político dos diversos atores.

Para a Presidência da República, basta-nos conhecer, muito ao de leve, a orientação tendencial da bússola política de cada um, ou do respetivo catavento, coisa que sabemos, de antemão, através da mais ou menos constante presença nas televisões dos principais de entre eles; e as candidaturas dos outros interessam, evidentemente, para coisa nenhuma, além do agitar da bandeira clubística das ideologias pretensamente originais com que nos acenam, porventura bem intencionadas, mas sem credibilidade ou viabilidade reconhecíveis, ainda que levemente.

Que importa saber como gostaria o candidato de remodelar a justiça ou o SNS, que ideias tem para resolver a crise da habitação, ou do pântano chamado educação, que não passa de um ensino desgovernado por parte de indivíduos maioritariamente com muito pouca autoridade, porque, também eles, tiveram ensino, mas muito pouca educação?

Que sentido fará dizer-se que isto são competências dos órgãos legislativos – um dos quais o Presidente da República, constitucionalmente, não é -, para de seguida bombardear os candidatos com interrogações para as quais qualquer resposta seria inútil perante a especificidade da função? Não admira, assim, que nos tenham aparecido, a debater, políticos que mais pareciam apóstatas, de tão independentes que se diziam dos respetivos partidos!

Importa é saber se se trata de um candidato com ânsias de protagonismo, que gosta de ficar na fotografia, ou de um indivíduo  moderado, ponderado, discreto, ativo e firme, mas com sentido de Estado.

Importa saber se ele se perde na procura, a todo o custo, de consensos impossíveis ou que não tem a mais pequena vocação para procurar, ou se, pelo contrário, se mostra capaz de, constatada tal impossibilidade, intervir ativamente e de forma ponderada no interesse de quantos com ele contam como garante último da liberdade.

Importa saber se a sua magistratura de influência se resumirá à intriga política e à ameaça do veto, ou se fará valer uma autoridade pessoal genuína, que emane, não apenas do conhecimento, mas, sobretudo, da educação e da formação. Se é um indivíduo empenhado e corajoso, ou se assistiremos a uma presidencial criptobiose que ainda agrave mais os inevitáveis e muito próximos desafios.

Importa, enfim,  conhecer a personalidade e a dimensão axiológica do candidato; mas isto não vai lá com debates e picardias.

O resto do que se pergunta e responde é mero folclore, guerrilha política a preparar futuras eleições, e mais receita em publicidade para as sacrificadas e patrióticas televisões.

Tratando-se, como se trata, de candidatos de terceiríssima ordem, como nunca tão fracos em eleições anteriores terá havido, foram ao ponto de se apresentar mediante uma espécie de casuística exemplificativa, alcandorada nos méritos de pregressos e mais ou menos colendos ocupantes do sólio de Belém.

Resultado: na falta de verdadeiro assunto, em cada debate, os mesmos candidatos acabavam, inevitavelmente, a repetir ad nauseam a mesma coisa; e, a serem constantes os critérios das sondagens, o efeito ersclarecerdor dos debates sobre as intenções de voto nos quatro principais candidatos tecnicamente empatados  foi… nulo.

Excetua-se Cotrim de Figueiredo, que alguma coisa terá ganho. Mas, convenhamos que tanto tempo, tanta paciência e tanta despesa para alterar uns míseros quatro ou cinco por cento nas sondagens relativas a um candidato, parece muita parra e pouca coisa uva. Haja pachorra!

De tudo aquilo, ficou-nos, embora na avelhentada retórica comunista, o humor elegante de António Filipe, a lógica inabalável e, digamos, muito própria de Jorge Pinto, o inegável talento de Catarina, o nervosismo de Cotrim, a comovente melancolia de Seguro, o ora anfibológico e caviloso, ora percuciente profissionalismo de Marques Mendes, o confrangedor, mas pertinaz, titubear de Gouveia e Melo… e muito, muito tempo deitado pela janela fora.

 

Em quem Votar, afinal?

Paradoxalmente, por incrível que, assim de repente, possa parecer, o voto útil na defesa dos valores democráticos seria o voto no Doutor Ventura. Porquê? Porque lhe estaríamos a assegurar a vitória na primeira votação, já se sabendo que, chegado à segunda volta, os anticorpos lhe negarão qualquer possibilidade de eleição.

Eleger André Ventura seria decapitar o Chega, forçando a extrema direita à travessia do deserto, a um recuo de, pelo menos, uma década na sua evolução, dando, nesse emmeio, mais uma oportunidade à democracia para encontrar um novo rumo, um novo fôlego, uma nova vocação.

Onde, de facto, seria possível encontrar, como sucessor, algúem tão eficaz como Ventura, com toda a sua anchura de autêntico bonecreiro dos lastimáveis satélites, parlamentares e não só, tão igualmente desprovido de, praticamente, tudo aquilo que convém à condução dos destinos da população?

A verdade, é que nem  o próprio Ventura, nem o Chega alguma vez quiseram vê-lo como Presidente da República, e a razão é bem simples: o Chega precisa do "André", e dirigir um partido político não é, seguramente, o papel do mais alto magistrado da Nação.

Já se sabe que sempre o pobre André Ventura de Mem Martins seria um primeiro-ministro fantoche nas mãos da cabalística retaguarda da extrema direita, do poderoso e abastado bentos por detrás do Chega: nas mãos de quem mexe e sempre mexerá os cordelinhos de toda aquela coisa, e, por interesse próprio, esteve na base da fundação do Partido.

Não obstante, enquanto primeiro-ministro, sempre deteria Ventura, ainda que formalmente, o poder executivo, o que lhe permitiria, pelo menos, tentar um dos seus proverbiais golpes de rins, acabando, quiçá, por virar o jogo a seu favor, deixando os atuais padrinhos na mão.

Por outro lado, o que poderia Ventura fazer por ele mesmo com os débeis poderes do Presidente da República Portuguesa? Nada, evidentemente. Seria, para o Chega, a morte lenta; para ele, a suprema e irremediável frustração.

A pensarmos assim, o verdadeiro patriotismo dos restantes candidatos consistiria em desistir a favor de Ventura, explicando muito bem porquê; e o meu patriotismo consistiria em votar em Ventura.

Simplesmente, não consigo assim fazer.

 

1) TDC - Trabalho de casa, feito em casa pelo aluno, na sequência do trabalho para casa, passado na escola pelo professor, o famigerado TPC.

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025


O Princípio e o Fim

Como já vos disse, não sou católico. Tampouco professo alguma religião.
Mas já fui católico. "Muito", até. Passei Natais em família. Muitos Natais em família. Encantadores para alguns, entediante rotina para outros.

Até que, de forma inesperada, alguém com obrigação de saber do que falava, disse algo que talvez não devesse ter dito.
Mas disse-o; e, embora tenha, nesse preciso instante, matado em mim a encantadora Fé e, com ela, a confortável Esperança, estou-lhe grato por ter dito o que disse, do alto do púlpito e com toda a autoridade da função.
Sem intenção, buscando, até, o efeito contrário, abriu-me os olhos.

Dessa luz radiante e pura, desse tempo infinito da Fé, desse aconchego de um pai invisível mas omnipresente e supostamente omnipotente que me livraria de todo o mal, separava-me, afinal, uma fração de segundo: primeiro, da dúvida dilacerante, das trevas efémeras dos que se dizem iluminados, esclarecidos; depois, da segurança calma e firme dos que sabem que, na Vida, apenas contam os que nos são próximos, a quem podemos fazer algum bem; da segurança dos que sabem ser nada, ter nada, e nada poder esperar, também.

A Fé é uma crença paliativa, que em nós gera belas ilusões.

Mesmo assim, e em memória desses Natais de outrora, trago-vos aqui a gravação, num disco velhinho e no meio de uma canção bem conhecida, de um singelo mas comovente poema, que não encontrei na Internet.

Com ele para encantar crentes e não crentes, ficam os meus melhores votos para este Natal.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025


Brief Encounter

Imagem: Wikipedia

Há pessoas, há momentos, há filmes... há coisas que, não sendo grandiosas, saem bem e, talvez por isso, acabam por tocar mais ou menos profundamente os nossos corações, e por nos fazer pensar.

"Brief Encounter" não é um grande filme: não é protagonizado por nomes gigantescos, não é uma grande produção, não é, enfim e como agora dizem, espetacular!

Com toda a simplicidade, retrata uma situação vivida sabe-se lá quantas vezes, por sabe-se lá quanta gente, com esta ou aquela variação, com este ou aquele diferente penar.

Limita-se a ser uma obra de arte, que vale a pena contemplar.

Pode ver aqui
com legendas automáticas disponíveis

sábado, 5 de julho de 2025


O Reverendo Craque, ou a Ausência do Capitão

"Quando a dor é grande, a fraqueza cede ao imparável impulso do coração!"

"Uma humildade verdadeiramente "humilde" saberia, nas horas difíceis, na hora da verdade,
arredar a inveja, o receio de ser ultrapassado, os complexos de quem a idade vai deixando para trás.
Saberia levar o "craque" a estar presente, a estar ali, com a família e com os verdadeiros amigos
do malogrado colega, nas horas de dor, de estupefação, de incredulidade pela morte súbita de um companheiro,
de um suposto amigo. Saberia levar alguém a quem cumpre capitanear a assumir-se e a agir,
se não como um bom e "humilde" colega e amigo, pelo menos como um verdadeiro Capitão
"


Não é de agora.

Desde o tempo em que o futebol não era o que hoje é, se apresentou a Igreja Católica ao ideário dos progenitores mais desfavorecidos como um meio viável de redução das despesas do lar, enquanto instituição de acolhimento, no seminário, de um ou outro rebento de uma família mais ou menos numerosa, assim contribuindo para a melhoria da paupérrima economia familiar.

O que aliciava não era a perspetiva de fazer fortuna, como promete hoje o futebol, mas a garantia de uma vida economicamente estável e sem grandes sobressaltos emocionais. Claro que a questão da vocação, da apetência ou, mesmo, da mera aptidão para a função sacerdotal surgia como secundária - por vezes, desprezível, até -, à margem da decisão de condenar o inevitavelmente infeliz miúdo a seguir uma indesejada carreira sacerdotal.

Afinal, este abdicar da vida significava o quê, quando se tem nada numa infância miserável, e são nulas as perspetivas realistas de alguma coisa que se veja vir a ter? O que perdiam estas crianças de tenra idade condenadas à miséria e ao degredo social?

Perdiam liberdade, claro. Os jogos e brincadeiras, os "toques na bola" ao ar livre com outros miúdos, amigos ou familiares cediam, inevitavelmente, o lugar ao estudo intenso e aturado, à disciplina rígida de sacerdotes que, ao que se diz, quantas vezes os tiranizavam a ponto de explorar a sua incipiente e inocente intimidade.

Muitos dos seminaristas, quiçá a maioria, provinham, assim, de inserções sociais fortemente desfavorecidas, sendo a vertente económica manifestamente a primeira motivação parental para a opção de vida que aos rapazes era imposta, a despeito da falta de vontade e de vocação, da privação da liberdade de escolher, de brincar, de decidir, de escolher, de se relacionar de forma saudável, até no capítulo sexual.

O desfecho da história era, assim, inevitável: ou acabavam, uma vez ordenados, a induzir ou, pelo menos, a potenciar uma eventual homossexualidade latente nos jovens pupilos que lhes eram confiados para formar ou guiar espiritualmente, ou - suprema hipocrisia! - recorriam aos mais ou menos solícitos préstimos das barregãs de clérigos, assim atirando pela janela um dos pressupostos essenciais do ministério católico: a castidade. Ou eram verdadeiros "santos", claro!

Sendo presumivelmente rara a verdadeira castidade, entre a pedofilia e a clerical barreguice se vai, hoje, penosamente arrastando na lama das notícias o que resta de uma outrora dominante e respeitada Instituição, que, provavelmente, nem as reformas corajosas e as decisões aparentemente intrépidas e firmes de alguns Sumos  Pontífices conseguirão salvar.

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Mas, entremos no assunto.

Mães e pais que se prezem de o ser desejam o melhor para os seus filhos; e isto de ir para padre, embora, noutros tempos, assegurasse o sustento dos infantes a par do impacto positivo sobre os magros tostões que restavam nos tugúrios mais humildes, já não é, nos nossos dias, coisa que se veja, económica ou socialmente: já não é o "orgulho" dos papás, tenham, eles, ou não, estudado a cartilha do Doutor Spock.

Ser padre não é coisa que se mostre, nos dias que correm, nas redes sociais, na eterna montra mediática que parece ter-se tornado o principal motor de progenitores ególatras, que não param de, por tudo e por nada, pespegar na Internet imagens documentando as quantas vezes discutíveis graça e beleza daqueles que, por alguma razão, geraram e que não são tidos nem achados no consentimento da exploração das suas inocentes imagens.

A par do estigma que a associação a temas como a pedofilia vem lançando sobre a Igreja, a emergência de fontes de rendimento infinitamente mais atraentes e mediáticas, levou a que os pais que, outrora, impingiam os filhos ao cuidado e a expensas dos seminários, destes agora fujam ainda mais depressa do que o Diabo da cruz.

Vivemos numa sociedade pejada de indivíduos que passam o tempo a procurar formas eficazes de eviscerar a carteira do vizinho e de evitar que façam o mesmo às deles, sociedade essa na qual, em oposição aos pios ensinamentos da doutrina cristã, a dimensão axiológica dos objetivos de vida se mostra cada vez mais mirrada, mais exígua, enfim.

Não espanta, pois, que se encare com absoluta naturalidade a materialização da gratidão para com pais que, pelo seu pimpolho, tantos e tantos sacrifícios terão feito: a expetativa de uma suculenta derrama parental tributada sobre o resultado económico da atividade profissional daqueles que geraram, criaram e educaram, ou, a esta ou àquela "academia", entregaram para lhes dar a educação que os pais, não a tendo, não puderam dar.

Não será, porém, com o relativamente magro estipêndio de um sacerdote que, para o bolso de papás elementares e ambiciosos, alguma coisa "de jeito" um dia irá transbordar. Assim sendo, o que fazer para  rentabilizar tanto cuidado e sofrimento, real ou imaginário, dedicado aos rebentos durante os melhores anos da vida de quem os gerou?

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Ora, se há algo em que sejam competentes muitos destes miúdos - quantas vezes gerados em miseráveis tugúrios por gente que, amiúde, se reproduz sem a mais elementar noção da responsabilidade individual e social do facto - é a dar "toques na bola", "arte" que, por si só, não educa: quando muito, acendra, sem esculpir a substância que há em nós.

Uma "arte" que, tratando-se de "craques", de "heróis da Seleção", é apreciada quase universalmente, pelas mais diversas pessoas, movidas pelas mais distintas motivações: embasbacada e subserviente admiração por quem tem o que jamais poderão ter, idolatria, fanatismo, tacanhez intelectual, alarve ignorância, aparência de proximidade ou de intimidade com a vedeta, simples oportunismo político rasteiro por parte de gente sem qualquer elevação espiritual ou intelectual.

Enchem os comentadores e treinadores a boca, aos quatro ventos, com a suposta "humildade" dos futebolistas, coisa que boa parte destes nem desconfia o que seja, não passando alguns de narcísicos egocêntricos, senhores de inenarrável hipocrisia plasmada no sorriso amarelo, fabricado, cínico, com que, nos jogos "grandes", alguns balbuciam o Hino que nem sabem de cor, e entram em campo de mãos dadas com empolgadas criancinhas que neles veem aquilo que querem ser quando forem "grandes", porque os papás, avós e tios disseram que assim é que deve ser, que - para todos, é claro... - assim é melhor.

Acaso terá em si uma réstia de humildade um ególatra empado em sacos de dinheiro a pavonear-se em iates de luxo, enquanto adeptos e outros penam as mágoas de uma terrível pandemia? Será humildade, com o imoral e desproporcionado estipêndio, colecionar e ostentar automóveis milionários, com os quais qualquer fan apenas poderá sonhar? Entrajar-se, intumescido de vaidade, com o que há de mais caro, mesmo que o alfaiate não consiga disfarçar a fealdade, o ar embrutecido, que se quer escamotear? Passear, uns deles, amantes, outros, companheiras, mais ou menos influenciadoras da moda, sempre enfeitadas com a mais alta joalharia, de gosto a condizer com aquilo que são? Será humildade arrogar-se ares de quem manda em tudo e em todos, desde o "balneário" aos responsáveis pelo clube ou pela Seleção?

Será, por fim, que tão deletérias "qualidades" se deixam obnubilar ou subvalorizar perante uma técnica futebolística apurada e esforçadamente desenvolvida de, perante a tenaz oposição de mais ou menos competentes adversários, conseguir introduzir uma bola numa rede, para gáudio da população?

Poderá a valia da técnica fazer esquecer uma postura desgraçada, uma despudorada, constante  e deliberada manipulação?

Nem todos são assim. Talvez nem a maior parte seja assim. Esperemos que não.

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Pelo que dizem, o Diogo não era assim. O André, não era assim. Por isso mesmo, quando nos deixaram, causaram tanta emoção, tão sentida emoção. A família, também, certamente, assim não é, ou não poderia ter-lhes transmitido tão sólidos valores e formação.

Já noutros, uma humildade verdadeiramente "humilde" saberia, nas horas difíceis, na hora da verdade, arredar a inveja, o receio de ser ultrapassado, os complexos de quem a idade vai deixando para trás. Saberia levar o "craque" a estar presente, a não se escudar em desculpas esfarrapadas e malcheirosas, a estar ali, com os colegas, com a família, nas horas de dor, de estupefação, de incredulidade pela súbita extinção do companheiro, pelo estúpido desperdício da vida do filho, do amigo, do irmão. Saberia levar alguém, a quem cumpre capitanear, a dar-se ao incómodo da deslocação, a assumir-se e a agir, se não como um bom e "humilde" colega e amigo, pelo menos como um verdadeiro Capitão.

Evitar, à família enlutada, a pressão mediática causada pela presença da estrela nas cerimónias fúnebres? Faz sorrir, o cinismo, a prosápia, quando quase todos os astros de um dos mais prestigiados clubes ingleses deixaram lares e resorts onde veraneavam para vir homenagear o colega e amigo. Ou, todos eles juntos, valeriam menos do que o rutilante Capitão?

Conseguiria a fama, a desmedida notoriedade da vedeta ofuscar a comoção popular, a dor da família enlutada? Claro que não!

Evitar que pressão mediática? No verdadeiro circo montado em torno da família, como e onde haveria espaço para maior pressão? Bem poderia ter ido incógnito, discreto - se ainda sabe o que isso seja... -; mesmo a tosquenejar, quiçá, da noite mal dormida, poderia ter levado uma máscara ou um capuz, ou tapado a cara com a mão. Quando a dor é grande, a fraqueza cede ao imparável impulso do coração!

No sólio de que mansão terá ficado a preguiçar? Em que estância balnear se terá ficado a bronzear? A vergonha é, agora, tanta, que alguns fanáticos já montam imagens de arquivo para forjar provas de uma inexistente deslocação! O que irá, por estes dias, na alma do tresnoitado Capitão?

Poderá haver, para a falta, uma verdadeira, legítima e absolutamente atendível explicação; mas importa, nesse caso, que seja dada sem demora.

Embora, mesmo assim, sempre fique no ar um não sei quê a lembrar... uma falta sem justificação.

In memoriam Diogo Jota e seu Irmão

sábado, 22 de março de 2025


A Falácia da Maioria Absoluta

Resulta uma eventual maioria absoluta apenas de uma anormalmente ampla convergência de opiniões quanto à lista escolhida - e não do facto de os votantes expressamente terem pretendido ser governados em tal maioria

"Os votantes não podem, de modo algum, ser aqui responsabilizados pelo resultado
porque, simplesmente, ninguém lhes perguntou o que queriam

"Contraria-se assim, manifestamente, a vontade popular: perverte-se, pela via eleitoral,
a própria essência da democracia que a mesma via deveria servir


É sempre assim, quando se fala em eleições: alguém começa a pedir maioria absoluta, e outrem a pedir que não a demos a quem a pede. Uns, com o argumento da necessidade de estabilidade política e económica, os outros com o do risco inerente às inevitáveis manifestações mais ou menos ditatoriais na governação por partidos assim alcandorados no poder.

Passadas as eleições, se a dita maioria acontece e as coisas correm bem, vá de se vangloriar os que governam; se corre mal, é ouvir da deleitada oposição o inevitável “nós bem dissemos” - expressão que, na boca de alguns, chega a parecer mais gratificante para quem a profere do que o teria sido o contrário da desgraça que possa ter acontecido.

Em qualquer caso, a vanglória ou a censura  sempre vem acompanhada de “os Portugueses quiseram”, ou “os Portugueses não deixaram”.

Os Portugueses! Disparate!

Os Portugueses nada tiveram a ver com isso! Estes velhos chavões, além de estafados, são absolutamente falsos, resultando pouco séria a tentativa que exprimem de responsabilizar os eleitores pelos efeitos de uma eventual maioria absoluta, ou da sua inexistência.

Os votantes não podem, de modo algum, ser aqui responsabilizados pelo resultado porque, simplesmente, ninguém lhes perguntou se queriam ser governados em maioria absoluta: a vontade que exprimiram no boletim resume-se, afinal, à escolha da lista de candidatos que cada um entende que deverá vencer a eleição, resultando uma eventual maioria absoluta apenas de uma anormalmente ampla convergência de opiniões quanto à lista escolhida - e não do facto de os votantes expressamente terem pretendido ser governados em tal maioria.

Por outras palavras: a maioria absoluta é obra do acaso, e não da manifestação claramente expressa da vontade dos votantes; e é assim, simplesmente, porque ninguém lhes perguntou!

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Ainda que o povo não queira que, de determinado ato eleitoral, resulte uma maioria absoluta, o sistema eleitoral impõe-na como fruto de uma fortuita concentração anormal de votos que os Constituintes de 1975 não previram, e nenhuma das subsequentes revisões da Lei Fundamental contemplou.

De facto, ainda hoje se lê, no número 5 do seu artigo 113º, que “a conversão dos votos em mandatos far-se-á de harmonia com o princípio da representação proporcional”. Esta ideia é complementada pelo número 1 do artigo 149º, segundo o qual “os Deputados são eleitos por círculos eleitorais geograficamente definidos na lei (…), por forma a assegurar o sistema de representação proporcional e o método da média mais alta de Hondt na conversão dos votos em número de mandatos”.

Ou seja: no boletim de voto, ninguém afirma, claramente, que pretende ser governado por um único e dominante partido. A despeito de qual possa ser a vontade popular, nos termos da Constituição e da Lei, tal apenas acontece, ou não. Por mero acaso, ainda que à revelia da vontade popular.

Que assim é, facilmente se comprova pelas conclusões de sondagens em que os inquiridos são convidados a informar se pretendem que o seu partido de eleição deverá, ou não, governar sozinho. Nesta*), por exemplo, se revela que mais de quatro quintos dos portugueses não pretende uma maioria absoluta a governá-los, embora, no atual sistema eleitoral, não tenham como evitá-la caso a contagem dos votos o determine. Contraria-se assim, manifestamente, a vontade popular: perverte-se, pela via eleitoral, a própria essência da democracia que a mesma via deveria servir.

O caso da maioria absoluta saída da eleição de 2022 para a Assembleia da República apresenta-se como um bom exemplo desta perversão do direito de escolher: o temor de uma votação expressiva no Chega, aliado ao notório desnorte de um Partido Social Democrata então titubeante, terá levado a uma votação maciça no Partido Socialista, a qual acabaria por resultar numa maioria absoluta que nem ele, aparentemente, esperava; e, a fazer fé nos 83% de portugueses que nas sondagens se afastaram de tal desiderato, nem os eleitores pretendiam.

Houve maioria absoluta em 2022, quando mais de quatro quintos dos eleitores a não queriam!

É a isto que se chama "democracia"?

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Absolutismo e democracia são, à partida, conceitos incompatíveis. Por isso mesmo, o poder quase absoluto com que, em maioria absoluta, é mandatado um partido político ou coligação apenas deve ser conferido mediante a vontade expressa dos eleitores, e a sua recusa através da expressão, pelos mesmos, da vontade do contrário.

Adotámos, todavia, – e muitos outros connosco - um mecanismo eleitoral em que se impõe ou nega maiorias absolutas à revelia da vontade dos eleitores, o que, inequivocamente, viola o princípio do “respeito da vontade do povo português” consagrado no preâmbulo da Constituição.

Não tem de ser assim!  Não deve ser assim!

Maioria absoluta de votos é coisa diferente de maioria absoluta de deputados: esta é a que verdadeiramente conta, e não parece acertado deixá-la ao sabor de um resultado meramente acidental obtido na eleição!

A observância estrita da decisão do eleitorado - e, consequentemente, a legitimação da sua plena responsabilização – apenas se viabilizará se, do boletim de voto, constar a pergunta “Deve a lista vencedora governar com maioria absoluta?”, ou outra de semelhante teor, seguida de duas caixas de validação facultativa: SIM e NÃO.

Só assim estaremos, ao votar, a expressar, inequívoca e deliberadamente, a vontade de conceder, ou não, tal maioria: quem dela fosse adepto votaria SIM, quem não fosse votaria NÃO; e, no caso de indiferença, ambas as caixas em branco ficariam.

Contados os votos, se ganhasse o SIM mas a lista vencedora não tivesse ultrapassado os cinquenta por cento dos eleitos, automaticamente seria atribuído à lista vencedora o mínimo necessário para formar maioria, rateando-se os sobrantes pelas restantes listas, na proporção dos votos obtidos - com ou sem a aplicação do Método de Hondt. Ganhando o NÃO mas tendo a mesma lista ultrapassado a metade dos votos, seriam estes reduzidos até metade menos um dos eleitos, distribuindo-se, daqueles, os sobrantes pelas restantes listas.

(Um aperfeiçoamento importante deste modelo seria a adoção preferencial da pergunta “Deve a lista em que votou governar com maioria absoluta?. No entanto, a necessidade de associar a resposta unicamente à lista votada no mesmo boletim complicaria excessivamente a contagem dos votos, a ponto de a tornar impraticável até à plena adoção do voto eletrónico)

Esta inovadora forma de eleger o Parlamento, uma assembleia ou câmara municipal ou junta de freguesia, não beliscaria, de forma alguma, a essência da democracia, uma vez que continuaria a ser a vontade soberana do povo a decidir, já não apenas QUEM governaria, mas COMO, com que força e autonomia governaria. Bem pelo contrário: ao tornar bem mais clara e pura a expressão da vontade popular, substancialmente a reforçaria!

Então, sim: o aumentado poder de decisão do eleitorado permitiria responsabilizá-lo, fundadamente, pelos males ou benefícios de uma eventual maioria absoluta, ou da falta dela.

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Será assim tão difícil de implementar o que aqui se propõe?

Claro que a eleição de deputados por cada distrito não facilita, mas a prestimosa colaboração de credenciados matemáticos permitiria, certamente, ultrapassar os obstáculos e tornar Portugal o país pioneiro de uma abordagem verdadeiramente democrática da eleição.

Não sejamos, porém, ingénuos a ponto de acreditar na viabilização futura desta prática, nem imaginemos que nada disto ocorreu, já - amiúde, até - aos responsáveis políticos: o principal obstáculo à implementação do que aqui se preconiza não é a imposição constitucional quanto à simples e direta proporcionalidade - facilmente ultrapassada numa revisão constitucional -, nem o facto de ninguém se ter lembrado desta nova forma de eleger em democracia.

Sucede, antes, que, para aprovar a alteração às normas constitucionais, seria necessário o amplo consenso dos partidos mais votados, precisamente aqueles que mais teriam a perder com a alteração do sistema eleitoral, ou não se opusessem, atualmente, oitenta por cento dos portugueses a uma maioria absoluta. É que a apetência pelo poder absoluto é grande, e as maiorias também absolutas são, em democracia, a única forma de o conseguir.

Não obstante, e pelo que possa valer, aqui fica a proposta, que é, também, um desafio.

Afinal, por que não aproveitar agora, quando a dispersão de votos praticamente impede a formação de maiorias absolutas no Parlamento, para alterar a Constituição por forma a acomodar o novo modelo?

A maioria absoluta é uma variável decisiva em qualquer governação que dela beneficie. Não faz, assim, qualquer sentido deixá-la depender de um mero acaso. Deve, antes, depender, unicamente, da vontade expressa e bem explícita dos eleitores.

quarta-feira, 12 de março de 2025


O Estado dos Velhos do Estado

 

A missão fulcral, quase única, do Estado é assegurar a produtividade,
procurando criar, nas mais diversas áreas de atividade, as condições para que ela aconteça

O Estado não passa de uma abstração, de um conceito distante,
e a distância não conforta, não mitiga as penas, muitos menos mata a solidão

Será assim tão difícil gerir a coisa pública por forma a que os velhos carenciados
tenham um poucochinho mais de apoio? Se sintam motivados, úteis, se não, até, felizes?

 

Habituamo-nos a olhar o Estado como uma criatura voraz, que procura, através do sistema fiscal, sugar o que pode dos nossos mais ou menos parcos rendimentos, supostamente em prol do mesmo Estado - que somos, afinal, todos nós.

Alguns, não poucos, olham-no também como um viveiro de corruptos que vão para a política para... digamos que para aproveitar as benesses dadas a quem serve o Estado ou, pelo menos, é pago para o fazer.

Voraz ou não, gerido ou não por arrivistas mais ou menos oportunistas e desilustrados, a verdade é que, como acontece com qualquer organização, o Estado tem de prover, antes de mais, à saudável sobrevivência dele mesmo, a fim de evitar males maiores a quantos dele dependem, seja lá como for.

Centra, para tal, a atenção na população ativa ou potencialmente ativa, na respetiva formação e desenvolvimento, na criação de estruturas e infraestruturas adequadas a aumentar a produtividade e o bem-estar dos seus elementos profissionalmente válidos – válidos em teoria, pelo menos... -, para que a atividade dos mesmos gere riqueza para alimentar o Estado através receita fiscal, assim se reiniciando o interminável ciclo.

Não nos iludamos, pois: a missão fulcral, quase única, do Estado é assegurar a produtividade, procurando criar, nas mais diversas áreas de atividade, as condições para que ela aconteça.

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Trata-se, assim, de uma missão essencialmente económica, na qual se inserem, é verdade, importantes vertentes sociais; mas estas, sempre subordinadas ao objetivo de alimentar e manter o Estado enquanto tal, e tão independente quanto possível da caridade de bancos e de países terceiros.

Por outras palavras, a educação enquanto tal, a saúde enquanto tal, a justiça enquanto tal, e por aí fora, nada disso interessa ao impessoal, indiferente e objetivo Estado, já que nenhuma utilidade para ele teriam, a não ser enquanto potenciadores indispensáveis da atividade e da saúde económicas.

Neste quadro, que interesse têm, para o Estado, os improdutivos ou pouco produtivos velhos que há mais ou menos tempo inverteram o seu papel de produtores para o de meros consumidores, na maior parte dos casos dependentes de prestações sociais que tanto oneram o mesmo Estado?

Interesse nenhum, claro.

Os "reformados e os pensionistas" - cuja defesa supostamente ainda dá o que resta de ânimo a decadentes e também envelhecidas estruturas políticas - são tão úteis ao Estado como outros "inúteis", doentes crónicos, reclusos e outros que tais. Isto porque o problema do Estado social não reside, apenas, numa eventual falência dos sistemas de segurança social, mas também, já hoje e sempre, nas avultadas quantias subtraídas ao consumo por via da cobrança de taxas sociais e nos perdidos impostos que tais montantes gerariam se por aí andassem a circular, em lugar de servirem para pagar pensões e subsídios a enfermos, anciãos e outros que tais.

No entanto, o Estado não abandona, simplesmente, os velhos. Pelo contrário: reforma-os, pagando-lhes pensões vitalícias para que, uns melhor, outros pior, possam, pelo menos, sobreviver.

Porquê?

As possibilidades de resposta abundam, claro, das mais piedosas às mais cínicas, e não faltará quem vá aventando novos e inovadores fundamentos para a manutenção do paquidérmico, mas indispensável, Estado social.

Porém, sejam quais forem os fundamentos, as razões invocadas, sempre prevalecerá a dura verdade de que o implacável ogre cuida dos velhos apenas por obrigação, já que, enquanto entidade abstrata, não conhece a bondade, a piedade, a ética, a generosidade: apenas um infindável rol de imperfeitas normas jurídicas, nas quais encaixa recursos humanos para o servir e recursos económicos para estes sustentar.

Os velhos - mesmo aqueles que o serviram - são um frete com que o Estado, o Estado puro, não tem de se preocupar. Faz aquilo a que as circunstâncias obrigam, mas não cuida, não protege, não acarinha, porque o Estado não passa de uma abstração, de um conceito distante, e a distância não conforta, não mitiga as penas, muitos menos mata a solidão.

Só um velho entende os velhos, os que, como ele, chegaram ao ponto em que, o que já foi, agora apenas serve para alimentar o sonho, e vivem – ou sobrevivem - saudosos do tempo em que o tempo passava sem terem de o empurrar para a frente.

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Proclamou a ONU, alguns anos atrás, o Dia Mundial da Justiça Social. É muito fácil fazer proclamações, e dias mundiais de qualquer coisa, são-no já os dias quase todos.

Mas será a dita justiça social apenas dar dinheiro?

Será assim tão difícil gerir a coisa pública por forma a que os velhos carenciados tenham um poucochinho mais de apoio? Se sintam motivados, úteis, se não, até, felizes?

Será, mesmo, impossível gastar algum dinheiro de todos nós, não apenas a alimentar e vestir os velhotes, mas em procurar fazê-los sair do torpor solitário e desalentado em que, desiludida, a maior parte deles acaba por mergulhar?

Será assim tão dispendioso intensificar a fiscalização dos lares – alguns deles, meros depósitos de quem gente já não se sente -, em prol da dignidade de quantos lá arrastam, penosamente, os seus dias?

Em vez de apenas alimentar e tratar os que não têm abrigo, será, mesmo, impossível encontrar um mecenas que se empenhe em os albergar e deles cuidar?

Empenhar recursos dos sistemas de saúde para prolongar a vida de uma ancianidade caduca e acabada não é obra meritória: é tortura, é sentença de prisão perpétua, de morte lenta de quem já nada tem à frente, já pouco ou nada de belo tem para contemplar.

Fugit irreparabile tempus

quinta-feira, 26 de setembro de 2024


As Lentes de Vidro

"Até que ponto a probabilidade talvez ínfima de um acidente fatal – ou, pelo menos,
dramaticamente grave - para a visão legitimará e justificará as dores de cabeça,
a privação do bem-estar de milhões de pessoas?
"
 

"Para quê a aprovação de leis absolutamente desnecessárias, que nenhum efeito prático alcançam
a não ser a sempre condenável privação da liberdade dos destinatários
além do estritamente necessário ao funcionamento do Estado de Direito?
"


Aconteceu-me acompanhar, a um oculista, alguém que necessitava de mudar de óculos. Sempre usoulentes de vidro – aquelas a que os eruditos da área gostam de chamar “lentes minerais”. Que são ligeiramente mais pesadas do que as outras; mas que só se partem, não se riscam.

Apresentam, ainda, a enorme vantagem de sair mais em conta do que as outras, as chamadas “lentes orgânicas”, aquelas que parecem de plástico, mais leves, mais dispendiosas, enfim.

Apresentam, não: apresentavam! É que fiquei a saber que as lentes de vidro já praticamente não são utilizadas, pelo que, tendo deixado de haver em stock, só são fornecidas por encomenda, saindo a um preço cerca de seis vezes superior àquele pelo qual antes eram vendidas!

Estupefacto, perguntei a razão desta alteração dos hábitos dos consumidores, a ponto de as lentes de vidro quase terem desaparecido do mercado. Fiquei, então, a saber que a “evolução” se devera ao facto de elas serem consideradas “perigosas”, dado o risco de se quebrarem em caso de queda frontal do portador, que poderia ocasionar um impacto do rosto no chão e, por via deste, a quebra das lentes e possível lesão do globo ocular.

Acrescentou o oculista que, em certos países europeus, a venda destas lentes “minerais” foi até proibida, por este mesmo imperativo de segurança.

Voltei a casa a matutar no assunto, e a perguntar-me quantas vezes alguém terá cegado ou, pelo menos, ficado seriamente ferido num olho por ter tropeçado e caído de bruços, com tão forte impacto direto no chão que as lentes se tenham quebrado e entrado pelos olhos dentro…

Tanto quanto consigo imaginar, o infausto acontecimento apenas poderá, razoavelmente, ocorrer no caso de o indivíduo ter as mãos amarradas atrás das costas ou, de alguma outra forma, estiver privado da utilização das mesmas para, pelo menos, minorar a intensidade e a gravidade do tombo.

Lembrei-me, então, de alguém conhecido que, sempre tendo utilizado as outras, as modernas lentes “orgânicas”, invariavelmente era obrigado a trocá-las a cada dois ou três anos, de tal forma a densidade dos riscos acumulados impossibilitava uma visão razoavelmente límpida, antes interpondo, entre os olhos e aquilo que eles queriam ver, uma espécie de permanente nevoeiro. O mesmo alguém padecia de frequentes e intensas cefaleias, às quais o dito nevoeiro estava longe de ser alheio, se não o principal responsável por elas.

Impôs-se, neste ponto, ao meu espírito inevitável dúvida axiológica: até que ponto a probabilidade talvez ínfima de um acidente fatal – ou, pelo menos, dramaticamente grave - para a visão legitimará e justificará as dores de cabeça, a privação do bem-estar de milhões de pessoas?

Por que motivo, em nome de rebuscadíssimas razões de segurança, lhes passou a ser negado o direito a decidir correr, ou não, o risco? A escolher entre as lentes “minerais”, de vidro, e as “orgânicas”, muito mais caras do que outrora eram as primeiras, e feitas de uma espécie de plástico incomparavelmente mais sujeito a adquirir riscos, a ponto de acabar por dificultar a visão que os óculos, afinal, supostamente servem para melhorar?

Ocorreu-me uma primeira resposta: para dinamizar a indústria e o comércio de óculos, aumentando os já astronómicos preços – e margens de lucro - que a estafada “oferta do segundo par” não chega para atenuar.

Que me perdoem os oculistas se estiver enganado - e que, nesse caso, aqui escrevam de sua justiça o que lhes aprouver comentar -, mas a magreza do argumento da muito remotamente possível ocorrência de acidentes não convence.

Pretender comparar o mais do que certo incómodo causado, a milhões de consumidores, pelo “nevoeiro” das lentes “de plástico”, ao mais do que diminuto risco de lesão devida a uma improvável queda frontal ou acidente de efeitos similares cujo impacto não possa atenuar-se mediante o auxílio dos braços e das mãos parece, não apenas ridículo, mas despudorado, se for acertada esta primeira hipótese.

Ou – segunda hipótese - dever-se-á tudo àquela irritante mania de alguém pouco ocupado lá por Bruxelas querer apresentar serviço inventando fantasmas para assustar os incautos e acrescentar temores às suas nem sempre esclarecidas mentes, manipulando, qual bonecreiro, as consciências alheias em nome e ao serviço do ego e da anchura de um punhado de tecnocratas e burocratas empenhados em, cada vez mais, apertar a rede, ainda que à custa de imposições indubitavelmente deletérias para a saúde humana? Estarão a preparar, na sombra, o mercado para "inovadoras" e "criativas" iniciativas legais para generalizar a proibição de lentes de vidro em toda a Comunidade Europeia? Ou mais longe, ainda?

A assim acontecer, para quê, nesta e em tantas outras áreas da governação, a aprovação de leis absolutamente desnecessárias, que nenhum efeito prático alcançam a não ser a sempre condenável privação da liberdade dos destinatários além do estritamente necessário ao funcionamento do Estado de Direito?

Qual o estalão aplicável?

Fica a questão, ao cuidado de quem pense saber responder.

domingo, 1 de setembro de 2024


Tanto IRS ainda por Pagar...

Algo de estranho se passa com a cobrança do IRS, com provável atraso na cobrança de alguns milhões de euros por parte de um Estado que tanto e a tantos deve.

Ao que parece, os proprietários de imóveis arrendados com contratos abrangidos pela redução da taxa prevista nos nºs 2. a 5. do art.72º do Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares, com as alterações introduzidas pelo art.27º da Lei n.º 56/2023, de 06 de Outubro, não receberam, ainda as respetivas liquidações do Imposto relativo a 2023, que deveria ter sido pago até ontem, 31 de Agosto de 2024.

O novo governo fala em "alguns atrasos pontuais *)"... Reportagens referem "dezenas de contribuintes"...

No entanto, em informática, uma coisa é certa: situações idênticas são tratadas de forma idêntica, e só quando umas ficam resolvidas as outras o ficam, também. Ou seja: a demora não acontece só com "alguns" dos proprietários que aproveitaram as taxas reduzidas do "Mais Habitação": se acontece com um, acontece com TODOS!

Ou será que apenas escassas dezenas de contribuintes aproveitaram reduções de imposto de 10% e mais? Num tempo de escalada dos valores das rendas, em que tantos contratos novos foram celebrados, não é de acreditar...

A razão para toda esta confusão é bem simples: quando o Governo então em funções aprovou e anunciou, cum cornu et albende, o milagroso programa "Mais Habitação" - a que a já referida Lei n.º 56/2023 deu corpo -, ter-se-á esquecido de indagar junto de quem trata destas coisas da informática das Finanças se seria possível assegurar, em tempo útil, a aplicação de uma taxa de imposto escalonada em função da duração do contrato de arrendamento e das suas renovações.

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Mas, pior ainda do que o atraso na cobrança do imposto sobre as rendas, é o facto de nenhum imposto ter sido ainda cobrado a esses contribuintes, dado a referida anomalia pôr em causa a emissão da liquidação relativa a todos os seus rendimentos, sejam eles prediais, de capitais, de pensões, de salários ou quaisquer outros. Isto, como se disse, desde que o sujeito passivo tenha prédios arrendados a mais de cinco anos e ao abrigo do "Mais Habitação".

Ora, tendo em conta que tanto, mas tanto, deu que falar a sensacional mexida na lei do arrendamento que iria resolver todos os males de uma assentada, a ser verdade o que se diz, como explicar que algo tão elementar como a viabilidade da implementação, a exequibilidade das normas possa ter sido ignorada, desprezada?

Será que a quase patológica preocupação com a imagem que a bombástica inovação iria refletir nas sondagens eleitorais tudo o mais obnubilou? Ou ter-se-á perdido a noção de que, para que as coisas funcionem, é imprescindível, ao legislar, o contributo de técnicos especializados, não apenas na área específica visada pela legislação, mas, igualmente, nos meios que a irão viabilizar?

Não existirão, nos partidos políticos, apparatchiks e. nos governos, principescamente remunerados assessores em quantidade suficiente para obviar a calinadas desta grandeza? A "broncas" desta natureza?

Ou terão, pelo contrário, os informáticos sido consultados e validado de forma incompetente a proposta, vendo-se, agora, em palpos de aranha para cumprir? E o falhanço os tiver mergulhado numa espécie de criptobiose que não se sabe quando terminará, nem no que irá dar?

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Como será, então: ficarão estes proprietários para sempre com a bênção do Estado para o Imposto por pagar?

Seria interessante aprofundar a questão, quantificar o "buraco" financeiro que o novo Ministério das Finanças parece desvalorizar.




terça-feira, 11 de junho de 2024


Dicionário Alentejano

Abundam, na Internet, páginas intituladas "Dicionário Alentejano", ou coisa que se pareça. Parecem, no entanto, enfermar, umas de uns vícios, outras de outros, outras de uns e de outros.

Encontramos, amiúde, uma manifesta maior preocupação com a quantidade do que com o rigor, a qual gera, pelo menos, as seguintes indesejáveis situações:

  • Inclusão de vocábulos e de expressões que tanto são utilizadas no léxico popular alentejano como no de qualquer outro ponto do País, para não dizer que um pouco por toda a parte. São disto exemplos "apoquentado", "bajolo", "bem falante", "campo da bola", "dar de si", "mana" ou até "dá cá um bacalhau" entre largas centenas, para não falar de termos e expressões brejeiros e, até, alguns da maior vulgaridade, que não passam de manifestações da mais rasteira educação de Norte a Sul de Portugal.
  • Classificação como vocábulos de meras corruptelas, com especial incidência na pronúncia, e erros gramaticais, como "caféi", "emaili", "irmões", "nôti", "odepois", "pêxe" e outros que tais.

Trata-se, ainda, na maior parte dos casos, de listas de palavras e expressões, sem qualquer enquadramento ou exemplos de aplicação.

Ora, o que aqui se propõe também jamais será, evidentemente, um documento perfeito. É, antes, um esforço de coleção de vocábulos exclusivamente alentejanos ou utilizados com significado exclusivo do Alentejo, independentemente das terras em que são utilizados, ilustrados, sempre que possível, com exemplos práticos de aplicação na linguagem falada (entre aspas), ou com notas quanto ao significado ou à aplicação.

Também não será, alguma vez, um trabalho "completo", antes um documento em permanente evolução.

D I C I O N Á R I O


Vocábulo ou ExpressãoSignificadoExemplos e Notas
ACasa, loja, oficina, local de trabalho, proximidade"Fui à dele". "Fui à de si". "Assim que eu chego, o cão vem logo cá à de mim"
À brutaMuito"Diverti-me à bruta!", "Aquelas paredes estão tortas à bruta!"
Abaixar-seDefecar"Quando os pais da gente eram pobres, era naquele canto que a gente se abaixava"
AbalarPartir, ir"A camioneta já abalou"
AjuntoAjuntamento-
Adomar *Arrumar, encaixar"Estas caixas adomam-se em qualquer lado"
AlpenduradaAlpendreIndependentemente da dimensão
Alvanéu *Pedreiro"Tivemos de chamar um alvanéu para arranjar o muro"
AmanharAjeitar, comporAmanha-se, entre outros, um canteiro ou uma divisão da casa
Amiudar-seArranjar-se, maquilhar-se"Estava eu a amiudar-me, quando ele chegou"
Amolar *Aborrecer, incomodar"Já 'tou amolado"
ApanharRecolher para levar, ir buscar"Lembrei-me de que não apanhei as cortinas (não as guardei no saco)", "vou lá eu apanhar a garrafa de água"
AneximAlcunha-
AporcalhadoCom muitos enchidos e gorduras"Fomos comer uma couve bem aporcalhada"
ArranhadoFanático"É arranhado do Sporting!"
Arrear *Pousar, deitar"Arreie lá aí o banco!"
ArrojarArrastar"Aquela porta está a arrojar no chão"
AssomarEspreitar, aproximar"Assome-se lá aqui ao pé de mim"
AtabefeAlmece-
AventarAtirar"Avente lá isso para cá". "Isso é para aventar (para o lixo)" "Avente com ele!".
AvinagrarZangar-se, azedar"Depois, um homem começa a avinagrar e..."
BalseiroPreguiçoso, negligente-
BanquinhaMesa de cabeceiraTambém se utiliza 'banquinha de cabeceira'
BarrascoPorcov.'marrã'
Beber (comprimidos) *Tomar
Borracha *Mangueira de rega-
BrandoMacio, fresco"Essa massa ainda está branda". "A terra está branda". v.'bruto'
BrinholFarturaBolo de azeite e farinha
BrutoDuro, rijo, zangado"O calor vai bruto". "Ficou bruto comigo" v.'brando'
Caga no ninhoDe pequena estatura"A equipa é toda caga nos ninhos" (como o pássaro pequeno que não consegue sair do ninho para fazer as suas necessidades)
CapachoGaspachoPor vezes, quando utilizado numa variante em que as diversas componentes são servidas à parte e mergulhadas, à mesa, no caldo
CarneForça de braços"É preciso carne para levantar esta pedra"
Carne cheiaEnchidos-
CegueiraPaixão"Ele tem uma cegueira por aquele gato"
ChaboqueirãoPoço tosco, inacabado-
ChaparroSobreiro de pouca idade-
CortoCortadoUtiliza-se a forma caída em desuso do adjetivo (v. no Mosaicos 'Limpo ou Limpado'. "A carne já está corta"
CriadorViveiro"Joguei a semente toda num criador"
CurriolCurriola (espécie de erva invasora: convolvulus massonii)"O curriol vai bruto, este ano!"
Daqui e dali *Pára, não pára"Isto daqui e dali chove, não vale a pena ir"
Dar andamentoDespachar, acabar"Estava ardendo que aquilo desse andamento para me vir embora"
Dar um aconchegoAjustar"Só me falta dar um aconchego nesta peça"
De resto *A acabar, a terminar"As obras estão de resto"
De rijoFortemente, o m.q. "à bruta""Chorou de rijo"
De rojo *A arrastar"Os pés do andaime ficam de rojo no chão"
Deixar-seEstar apto a, estar pronto para"Não se está a deixar desmontar". "Já se deixa comer"
DerrochadoExtenuado"Tenho andado que me tenho derrochado"
DestarpalharDessarumar-
DevassoLasso, com folga"Os parafusos estão devassos"
DizerFicar bem ou mal"Vamos lá ver o que é que ele (o material, o equipamento) diz", ou seja, "se fica bem assim". Utilizado em cozinhados, montagens, reparações, por exemplo.
EmpenhadoAtrapalhado"Agora é que fiquei empenhado"
EngenhoMotor"Avariou-se-me o engenho"
EnguiçarAborrecer"O que mais me enguiça é ter de fazer isto"
Entreter *Atrasar, atrapalhar, tirar tempo"Estou eu p'áqui a entretê-los..."
EscolherPerseguir"Até parece que me andam a escolher!"
EscôpaloEscopro-
Esfartagado *Empanturrado"Comeu até ficar esfartagado"
EsgranachaConfusão, desarrumação, chiqueiro, incómodo"peço desculpa pela esgranacha que aqui fiz"
EsmartuçadoDeteriorado, estragado"Aquela cadeira já está toda esmartuçada"
EsmilharEsfarelar, desfazer"Cuidado que o reboco pode esmilhar!"
EsparvalhadoEnlouquecido, alucinado-
Estojoconjunto de ferramentas e utensílios que se leva para o trabalho"Para qualquer coisinha, já viu o estojo que é preciso?"
Esvencer *Arrasar, esgotar"Já estava eu esvencida da minha cabeça"
FeiticeiraEspécie de borboletaPequena, castanha
Fazer malAtrapalhar"Estou-lhe a fazer mal?"
GanhãoTrabalhador agrícolaHabitualmente, pago à jorna; jornaleiro
Ganho (adj)Pronto, concluído"Este, está ganho"
Ganir à volta do coretoQueixar-se"Esta também não tem muito que ganir à volta do coreto!"
GarganeiroAmbicioso"A filha dele é muito garganeira"
Lá alémAli"O carro dela é aquele lá além"
LagariceLamaçal"Isto aqui está uma lagarice!"
LonjuraDistância-
MaresiaOrvalho"Ontem caiu muita maresia"
MarrãPorcaPorca pequena que já deixou de mamar (v. 'barrasco')
Matrafice *Batota, aldrabice"Tivede fazer uma matrafice"
MatuloAlto, saliência"Se pintar por cima deste matulo fica-se a ver a diferença" (no reboco)
MimosoMimado, que gosta de carícias"É um gato muito mimoso"
MoitãoGrande quantidade"Jogou para aqui um moitão de pedras" (mais utilizado com materiais, mas "gastou ali um moitão de dinheiro") v. 'remessa'
MonturoMonte"Há ali um monturo de lenha"
NotíciaPerceção"Não dei notícia da trovoada"
PastoErva, relva"O ralo do tanquer estava cheio de pasto"
PertencerAplicar a"Este, não pertence" (não se aplica a isto)
PescoçoNada"Isso não quer dizer pescoço"
PezinhoAcabamento fino da pintura, habitualmente junto ao chão ou no rodapé"Falta ainda fazer o pezinho"
PoejinhoHortelã da ribeiraTambém 'poejo do Guadiana'
PolvoróPolvorosa"Andava tudo num polvoró"
Pouca *Alguma"Fui lá além buscar uma pouca de terra"
RecadoRalhete, reprimenda"Lá me vai a cliente dar um recado..."
RemessaGrande quantidade"Foi-me lá levar uma remessa delas" (mais utilizado com substantivos abstratos ex: uma remessa de casos) v. 'moitão'
SarriscaBrita-
SarugaEspécie de espiga(Espiga pequena e seca, que se prende na roupa)
Sopa depois do almoçoAto inútil ou vão"Desculpas, são sopa depois do almoço"
TarroPequeno balde de cortiça para transporte de alimentos"-"
TitaradaTralha, confusão"Tenho de arrumar esta titarada"
Trabalho de enredo *Trabalho de miudezas, não rentável"Alim, só me dão trabalho de enredo!"
TrazerTer disponível (tempo)"Só trago a manhã", "Eu, naquele dia, nem trazia paciência"
VasculhoVassoura de urze para varrer a eira, o cimentoO m.q. 'canheiro' noutras regiões
Ver deTratar de; procurar"Bem, vou ver do almoço" ou "vou ver dele", "lá anda ele a ver da cadela"
VirotadaVezada"Fiz aquilo tudo de uma virotada"
ZambarinoBamboleante, instável"Aquela escada é muito zambrina"
ZorraRaposa-


Acrescentado quando da mais recente adição, em 05 de Julho de 2025


Os termos e expressões foram recolhidos diretamente, ficando a questão da exclusividade alentejana e do rigor sob qualquer outro aspeto sujeitos à generosa validação do Leitor, para o que poderá utilizar o espaço de comentários, referindo, por exemplo, outras regiões portuguesas em que o tenha ouvido utilizar.

Ao Leitor não anónimo peço, também, que enriqueça com palavras ou expressões por si ouvidas no Alentejo, cuja exclusividade alentejana possa garantir.

Deixo, por fim, ao Leitor o cuidado de interpretar esta pérola que, na fila para a caixa de um supermercado alentejano, ouvi a um velhote como eu:

"Isso era quando eu e a minha Mulher tínhamos vontade!  Agora, ela quer é lonjura!"

sexta-feira, 29 de março de 2024


Tripolarização

Tal como sucede com muitos supostos neologismos que não passam, em boa verdade, de mais ou menos graves degenerações da língua portuguesa, aqui o erro é crasso e evidente, embora ninguém pareça preocupar-se muito com o assunto.

"Polo" é cada uma das duas (únicas!) extremidades, necessariamente opostas, do eixo imaginário da Terra.

"Polo" pode também ser, extensivamente, cada uma das duas extremidades opostas de um magnete, ou, em sentido figurado, qualquer dos elementos de um conjunto de duas realidades opostas entre si.

Claro que "polo" também pode ser - vá-se lá saber porquê... - cada um dos terminais de um acumulador elétrico, um desporto, uma peça de vestuário ou um modelo de uma popular marca de automóveis: mas não no sentido em que os supostos criadores da "tripolarização" o entendem, que é o único que interessa aqui.

Do que antecede, extrai-se, antes de mais, que os polos são, sempre, dois, o que conduz a também duas conclusões:

  • primeira: o amplamente dicionarizado termo "bipolarização" contém evidente redundância, pois, sendo os polos sempre dois, bastaria falar de "polarização" para qua a dualidade ficasse perfeitamente estabelecida, assim se mostrando, no contexto, o prefixo "bi" absolutamente inoperante e, como tal, indesejável;
  • segunda: a felizmente ainda não dicionarizada "tripolarização", em sentido próprio, que aqui nos traz - ou seja, a existência de três extremos, supostamente opostos entre si - não passa de uma impossibilidade material inopinadamente introduzida pelo prefixo "tri".

Há que mencionar, no entanto, a existência do termo "tripolar", também impropriamente utilizado, por exemplo, em física ou em psicologia, referindo-se, não a uma verdadeira polaridade, mas à mera diversidade, à margem da ideia de oposição, o que tampouco é admissível.

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Esta infeliz ideia da "tripolarização" política teve origem no ganho de preponderância de um pequeno partido quando da eleição legislativa portuguesa de Março de 2024, a qual lhe deu algum peso efetivo na contabilidade parlamentar. Terá, desta forma, deixado de existir, como até então acontecia, um quadro com dois partidos dominantes, para, ainda que forçando um pouco as coisas, se passar a poder falar de um trio.

Todavia, nem no anterior cenário parlamentar português a utilização do termo "polarização" - ou "bipolarização", se insistirem na redundância - faria qualquer sentido, dado que os tais dois maiores partidos se posicionavam no centro do espetro político, e não nas extremidades, como é pressuposto de uma polarização.

Ponhamos, assim, um freio à criatividade destemperada, absurda, geradora de neologismos chabouqueiros que a mais não levam do que à inapropriada "evolução" do português, e fiquemo-nos pelo "bipartidarismo", ou pelo "tripartidarismo". Ou, até, pelo "tetrapartidarismo" e por aí fora, que, dominantes ou não, sempre poderá haver tantos partidos quantos quisermos em democracia.

Polos, extremos opostos, é que não.